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As camisas da live

Leide Botelho Memória Futebol Clube 1 de outubro de 2020

Sinônimo de paixão

Muitos chamam de manto, outros de segunda pele. Sinônimo da paixão defendida com exaustão, parte ou inteireza daqueles incansáveis que se mistura ao corpo de forma tal, que é impossível identificar onde começa um e termina o outro.

Muitos hereges vão dizer que tem cheiro de suor, mas na verdade ela carrega parte da alma de quem carrega uma bandeira, de quem defende uma causa, de quem se sente parte de um time, de uma história, uma família.

Camisas são mais que pedaços de pano. O valor de cada uma está além do que a fatura do cartão ousa acusar. Muito mais do que esposas e maridos sequer imaginam ou tentam entender, acima do que pais ensandecidos tentam argumentar.

E não! Não caiam na tentação de dizer que não combina com um terno, que não é traje de gala, nem desdenhem dizendo que a pessoa só tem esse tipo de camisa, elas são diferentes, mágicas e só quem as tem, conhece os detalhes e as histórias que cada uma delas carrega.

Recobrir a pele com uma camisa é escolher dizer estou com você(s) e você(s) está comigo. Sendo assim somos parte de um só povo, um só pensamento e um só ideal. Caminhamos e caminharemos juntos. Conte comigo!

UBUNTU

No dia 14 de setembro o Memória FC, grupo de estudos ao qual honrosamente faço parte, realizou uma live fantástica com o professor João Malaia. Colocaram-me na fogueira de mostrar minhas fuças jornalísticas, então em tempos de pandemia, fui lá passar uns rebocos na cara (que mal andava vendo maquiagem, oh glória!) e pensar em algo pra vestir (estilo Jornal Nacional, da cintura pra cima).

Se o assunto é futebol e se rastejo humildemente na minha trajetória me tornar e dizer pesquisadora, tudo que pensei é não ser clubista e encontrar algo que se relacionasse ao tema. Trem difícil…

No armário tenho N opções clubistas e fora essas só havia mais uma que não era. Fui nela. Um time nobre que havia escolhido pertencer de alguma forma.

Conheci o Observatório Racial do Esporte pelo twitter. O encantamento pelo trabalho de quem nada contra a maré de um mundo de desigualdades foi imediato. Posteriormente tive a oportunidade de ouvir o Marcelo Carvalho (do Observatório) em um Simpósio na minha cidade, ao vivo e em cores e foi a coisa mais linda.

Eu, branca, nascida, crescida e colorida de privilégios que tantas vezes nem observo, mas tentando ser atenta e cuidadosa com quem não tem a cor do privilégio, tentado e querendo do alto dos meus privilégios aprender e aprender, melhorar e melhorar.

Enquanto as camisas do Observatório iam aparecendo nas redes sociais e nos eventos, o coração batia mais forte. Era o desejo de pertencer a algo tão importante para o mundo e para o mundo do Futebol. Esse mundo que amo, que acredito tanto ser para todos e ser social, mas que ao mesmo tempo é tão excludente, ainda que tenha se popularizado e se tornado marca registrada de nossa gente. Eu queria ajudar, queria esse sentimento de pertença que uma camisa me concederia. Aí eles fizeram a camisa de jogo. Céus! Preta, branca, difícil escolher? De jeito nenhum.

A camisa de jogo vinha com detalhes em vermelho, verde e preto pra referenciar o Pan-Africanismo, ideologia que propõe a união de todos os povos da África e o leão, símbolo do continente africano, como representação de força, nobreza e autoridade. Simplesmente cheia de beleza e significados.

Camisa Jogo Preta - Observatório Racial do Futebol
Frente da camisa de jogo preta do Observatório Racial do Futebol.

Em maio de 2020 eles lançaram uma edição especial desta camisa de jogo escalando 11 Abolicionistas Brasileiros, que receberam seus nomes e uma numeração nas costas. Pessoas de grande representatividade na história de nosso país. Alguns decerto, não conhecidos a todos, eu mesma pesquisei os que desconhecia. De imediato pensei que precisava escolher uma mulher e não tive dúvidas quando escolhi a camisa número 5. 

Quanto a mim, desde muito nova me apaixonei pelos livros, pelo hábito de ler, pelo gosto de escrever. Possuo um pequeno acervo de mais de duzentas poesias escritas por mim. Após dúvidas digamos naturais, fiz um ano do curso de Direito, deixei de lado e me encontrei no jornalismo. Escolha acertada para os meus gostos. Então na hora de escolher um dos abolicionistas, não haveria de ser outro, ou melhor outra.

Escolhi Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917), mulher, negra, professora pública, nascida em São Luis do Maranhão, considerada a primeira escritora brasileira, romancista. Foi ainda a primeira mulher a passar em concurso público no Brasil, criou a primeira escola mista para meninas e meninos e em seus textos retratava os negros em pé de igualdade com os brancos.

Em seu primeiro romance “Úrsula”(1869), Maria Firmina se posicionou contra a escravidão a partir do ponto de vista dos homens e mulheres escravizados, diferente dos escritos de outras mulheres da época. Foi uma mulher a frente do seu tempo, pioneira, corajosa.  

Eu não escolhi simplesmente uma camisa para vestir na live, eu estava trajada com um manto que continha o nome e toda reverência a uma verdadeira rainha, uma guerreira e dona de significativa história e representatividade. 

Leide Botelho com os produtos do Observatório Racial do Futebol
Foto maior à esquerda: Leide com a camisa de jogo preta. Foto superior direita: Leide com a camiseta técnicos e boné do Observatório Racial do Futebol. Foto inferior direita: costas da camisa preta de jogo com o nome da abolicionista e pioneira Maria Firmina dos Reis.

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Leide Botelho

Jornalista graduada em Comunicação Social Jornalismo com ênfase em Multimídia pelo Centro Universitário UNA - BH, com especialização em Esporte e Sociedade: perspectivas interdisciplinares nas áreas de Saúde e Bem Estar Social pela FACE - Faculdade de Tecnologia Cachoeiro do Itapemirim. Mestranda em História na Linha de Pesquisa poder e relações sociais pela UFSJ - Universidade Federal de São João Del Rei e integrante do Memória FC - Grupo de Pesquisa e Estudo sobre futebol nas Ciências Humanas e do GEFut - Grupo de Estudos sobre Futebol e torcidas da UFMG.

Como citar

BOTELHO, Leide. As camisas da live. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 2, 2020.
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