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As mulheres do futebol: visibilidade para as mulheres do futebol

Silvana Vilodre Goellner 5 de maio de 2020

Em abril de 2019, concedi uma entrevista ao Ludopédio na qual evidencio minha relação com o futebol. Sérgio Giglio finaliza nossa conversa com a seguinte questão: “O que é o futebol para você?” Considerando minha relação com o esporte e minha experiência vivida, só consegui elaborar uma resposta:

“O futebol para mim é o futebol de mulheres. E é um bálsamo na minha vida acadêmica. É algo que me deu muito conhecimento e muito afeto. É algo inexplicável o afeto com o qual eu sou recebida e com o qual convivo junto destas mulheres do futebol. Então, o futebol para mim é mulheres. É as mulheres do futebol!”[1]

Feita esta pequena introdução, gostaria de registrar que nunca me imaginei escrevendo uma coluna sobre futebol, nem nos meus mais fantasiosos sonhos. Mas, como a vida é plena de surpresas, eis que surge diante de mim o convite para ocupar este espaço, o que faço com alegria e satisfação. O tema não poderia ser outro: registros, memórias e histórias de mulheres que fizeram e fazem o futebol acontecer. Meu pontapé inicial, utilizando uma metáfora futebolística, é esclarecer que vou me apropriar deste espaço para pautar temas relacionados à visibilidade, protagonismo, representatividade e empoderamento. Para tanto, neste texto inaugural vou discorrer sobre três expressões que tenho utilizado com frequência para analisar a presença das mulheres no futebol brasileiro. Expressões que, para mim, conformam um potente desejo e uma necessária reivindicação: visibilidade para as mulheres do futebol.

Folder da Exposição Visibilidade para o Futebol Feminino.

Fonte Museu do Futebol[2]

Silêncio não significa ausência

Tenho reiteradamente utilizado esta expressão para evidenciar que as mulheres sempre estiveram no futebol. O fato de não conhecermos suas histórias não significa uma ausência, mas simplesmente a falta de registros. É sabido que a escassez de fontes tem forte relação com a subvalorização da modalidade. Não há informações suficientes para demarcar quando e como aconteceram as primeiras partidas entre mulheres, ainda que seja recorrente a referência a um jogo realizado no ano de 1921, na cidade de São Paulo entre equipes que representavam os bairros de Tremembé e Cantareira. Indubitavelmente, outras aparições já haviam ocorrido, mas estas ainda residem nas zonas de sombra. Mais do que buscar um suposto marco inaugural da atuação de mulheres futebolistas, interessa enfatizar o quanto sua presença foi ignorada. Uma coisa é certa: nas décadas iniciais do século XX, o futebol não era um esporte considerado adequado às mulheres. As representações normalizadas de gênero vigentes naquele período limitavam tanto a sua circulação no espaço público quanto os usos de seus corpos. Protagonizar o futebol era considerado uma ameaça, um disparate, algo que não poderia se popularizar e, por isso, foi oficialmente proibido por quase quarenta anos. Estou me referindo ao artigo 54 do Decreto-Lei nº 3.199[3] promulgado pelo Conselho Nacional de Desportos em 1941, cuja existência trouxe sérias consequências ao desenvolvimento do esporte no Brasil, amputando a crescente participação das mulheres em várias modalidades, inclusive no futebol. Essa interdição contribuiu significativamente para a invisibilidade das mulheres no esporte, seja porque limitou o investimento de clubes e instituições, seja porque proibiu a realização de competições. Volto a referir: a existência oficial de tais restrições não significa dizer que as mulheres deixaram de praticar as modalidades contraindicadas para seu sexo. Elas não o fizeram “oficialmente”. As práticas esportivas, desde o início do século XX, seduziam e desafiavam muitas mulheres que, indiferentes às convenções morais e sociais, aderiram a sua prática independente do discurso da interdição.

Uma reportagem publicada na Folha da Tarde, em Porto Alegre, no dia 9 de setembro de 1950, é exemplar dessa afirmação. Além de ser um registro raro, descoberto em uma pesquisa coordenada pelo colega Luiz Carlos Rigo[4] sobre o futebol de mulheres na cidade de Pelotas, revela o que anunciei: o fato do futebol ser proibido não significa que as mulheres deixaram de praticá-lo. Houve resistências, transgressões, enfrentamentos, assim como houve conivência, cerceamentos e restrições. Por isso é necessário buscar fontes, vestígios, registros, seja por meio de documentos, imagens, objetos, seja pela oralidade. Isto é, pela narrativa de pessoas que viveram ou que ouviram histórias sobre esse período. Esses testemunhos podem tirar do silenciamento vozes que até hoje não conseguimos acessar. Afinal, silêncio não significa ausência!

Fonte: Folha da Tarde, 9 de setembro de 1950. 

Conhecer para reconhecer

Passados um pouco mais de quarenta anos do término da vigência do Decreto-Lei nº 3.199 (abril de 1979), a presença das mulheres no futebol ainda é algo a ser conhecido e reconhecido. Não tenho dúvidas de que o ano de 2019 foi bastante produtivo nesse sentido, mas não suficientemente. A realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino na França[5] recebeu uma atenção midiática até então pouco vista em nosso país, tanto pelos veículos tradicionais, quanto pelos alternativos. A presença das mulheres no futebol foi anunciada, registrada e divulgada. Além de assistirmos aos jogos, visualizamos mulheres atuando em diferentes ocupações: comentaristas, árbitras, narradoras, jornalistas, treinadoras, torcedoras, entre outras. Em termos de audiência, a competição bateu vários recordes. Segundo dados da FIFA, o jogo entre Brasil e França pelas oitavas de final totalizou 59 milhões de telespectadores, sendo 35 milhões no território nacional[6]. Fomos nós que registramos o maior número de espectadores da partida final, disputada pelos Estados Unidos e Holanda, atingindo 19,9 milhões de pessoas via TV Globo e SporTV, sem computar a audiência da TV Bandeirantes[7].

Embora esses dados sejam significativos, não podemos nos entusiasmar e considerar que o futebol de mulheres está no patamar que merece. Eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos atraem o interesse do público, de patrocinadores, da mídia e de instituições gestoras, visto que, como qualquer megaevento, estão inseridos na lógica do mercado, o que significa afirmar que além do esporte há interesses econômicos e políticos em jogo. A audiência da Copa da França, portanto, não implica o reconhecimento e a aceitação das mulheres neste esporte, uma vez que a modalidade ainda convive com situações bastante adversas. Pensem comigo: como reconhecer a importância das mulheres no futebol se nem as conhecemos, se suas histórias são invisibilizadas, esquecidas e, mesmo, desconhecidas? Para exemplificar este tema menciono Sissi[8], um ícone do futebol mundial cuja carreira é praticamente ignorada no Brasil. 

Baiana nascida na cidade de Esplanada (2/6/1967), Sisleide do Amor Lima integrou a primeira seleção nacional convocada em 1988 para disputar um torneio na China organizado pela FIFA, uma espécie de competição preparatória para o I Campeonato Mundial de Futebol Feminino, realizado em 1991 no mesmo país. Sissi não participou deste Mundial em função de uma lesão. Vestiu a amarelinha no Mundial de 1995, realizado na Suécia, e no Mundial de 1999 que aconteceu nos Estados Unidos, no qual o Brasil conquistou a terceira colocação. Foi artilheira da competição com sete gols e vencedora da Bola de Prata da Adidas. Em 1996, participou dos Jogos Olímpicos de Atlanta, quando o futebol feminino passou a integrar o programa olímpico e, em 2000, foi aos Jogos Olímpicos de Sidney. Durante sua carreira no Brasil, Sissi jogou pelo Bahia, Saad, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, e no futebol de salão pelo Euroesporte, Bordon, Marvel, Associação Sabesp de Santos, entre outras equipes. Desde 2001, atua nos Estados Unidos, inicialmente como jogadora e, desde 2004, como treinadora. Detentora da Camisa 10 é a única brasileira a integrar o FIFA Legends[9] e o Salón de la Fama Internacional no México[10], honraria recebida em novembro de 2019.

Em tempo: Sissi nunca recebeu uma homenagem das intuições gestoras do futebol brasileiro. Em 2019, sua carreira foi celebrada pelo Museu do Futebol, situado no Estádio do Pacaembu em São Paulo. Além de ser um dos destaques da exposição Contra-Ataque: as mulheres do Futebol[11], passou a integrar a seleta sala Anjos Barrocos[12], um espaço criado para reverenciar jogadores e jogadoras que fizeram história no futebol brasileiro.

Fonte: Salón de la Fama del Fútbol Internacional.

Uma coisa é certa: além de Sissi, muitas outras mulheres poderiam ser aqui evocadas. Rememorar suas histórias implica reconhecer seu protagonismo, importância e representatividade. Significa afirmar em alto e bom som que o futebol também é seu.  

Por que não uma mulher?

Nas minhas andanças para falar sobre a presença das mulheres no futebol, não raras vezes me deparo com um argumento que expressa a naturalização de que este esporte não é delas: as mulheres precisam se qualificar! Interessa notar que este mesmo argumento não aparece quando relacionado aos homens. É como se eles fossem naturalmente qualificados para atuar no futebol. Sabemos que o futebol historicamente foi construído sob a hegemonia deles, cujo poder tem restringido as possibilidades de atuação das mulheres, dentro e fora dos campos. Os cargos diretivos e técnicos, mesmo do futebol de mulheres, ainda pertencem aos homens, muitos inclusive sem experiência com a modalidade e sem a tão propagada “qualificação”.   

Reconhecer as capacidades, competências e esforços das mulheres é ato necessário, é imperativo para o desenvolvimento de um futebol comprometido, democrático e potente. Não estou aqui colocando em oposição homens x mulheres, mas evidenciando o quanto as instituições e também as pessoas produzem e reproduzem práticas, discursos e representações generificadas nas quais a eles cabem determinadas funções e a elas outras. Nesse sentido, talvez pudéssemos inverter uma pergunta que geralmente emerge quando pleiteamos espaços para as mulheres: ao invés de se perguntar “por que uma mulher?”, a pergunta deveria ser “por que não uma mulher?”

Em tempo: esta não é uma mera proposição sexista. Antes é um desejo. O desejo de que às mulheres sejam oportunizadas experiências nas quais possam exercer o direito de se colocar no mundo, de se expressar e de existir. Lamentavelmente, a história não tem agido assim, mas o que é a história senão a ação de homens e mulheres no tempo. Então, vamos mudar essa história?

Fonte: Museu do Futebol.

Notas

[1] Entrevista para o Ludopédio – Silvana Goellner (parte 3)

[2] Celebre As Mulheres No Futebol Brasileiro

[3] DECRETO-LEI Nº 3.199, DE 14 DE ABRIL DE 1941 – Publicação Original

[4] Notas acerca do futebol feminino pelotense em 1950: um estudo genealógico

[5] FIFA

[6] TV: Brasil x França registra maior audiência da história da Copa feminina

[7] TV: Brasil x França registra maior audiência da história da Copa feminina

[8] Depoimento de Sisleide Lima do Amor [Sissi]

[9] Sissi FIFA Legend

[10] Sissi recebe homenagem fora do Brasil, mas é ‘esquecida’ pela CBF

[11] Exposição Contra-Ataque Museu do Futebol

[12] Anjos barrocos – Museu do Futebol

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Silvana Goellner

Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Aposentada).  Ex-coordenadora do Centro de Memória do Esporte (CEME) e  Vice-Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Esporte Cultura e História (GRECCO). Pesquisadora e ativista do Futebol de Mulheres. Integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Como citar

GOELLNER, Silvana Vilodre. As mulheres do futebol: visibilidade para as mulheres do futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 9, 2020.
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