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As mulheres negras nas arquibancadas de futebol: o passado e o presente

“Pesquei no domingo passado por ocasião do jogo América e Universal, as torcedoras do América estarem torcendo de uma maneira vergonhosa, pois até insultavam as adversárias (…) pesquei ainda outras dizendo que iam dizer para o Zéca, que matasse o Luiz e o Pery e quando o Pery caiu, que levou dum pontapé do F., elas disseram: bem feito, que pena não morrer”.[1]

No dia 27 de agosto de 2017, Edna Matos teve que fazer um texto em formato de denúncia em sua conta pessoal do Facebook. O motivo? Estavam circulando em várias redes sociais montagens com a imagem dela e de sua filha, duas mulheres negras, em uma arquibancada, vestidas com camisetas do Bahia, seu time do coração. Em comparação a essa imagem, logo abaixo, estava outra foto de torcedoras brancas e loiras, também em uma arquibancada, vestidas com camisetas do Grêmio e na legenda a mensagem “Ainda tem gente que acha que time é tudo igual” em alusão a aparência das torcedoras.[2]

Edna Bahia
Postagem da rede social Facebook no perfil pessoal de Edna Matos. Fonte: reprodução

Mais de cem anos e muitos quilômetros de distância separam essas duas narrativas que são reais e envolvem torcedoras negras de futebol. No mês de julho, 25, é o dia da “Mulher Negra Latina Americana e Caribenha”, por isso convido a leitora ou o leitor a embarcar nessa viagem sobre torcedoras negras de futebol que começa no passado até chegar no presente. 

Que o ambiente da arquibancada é difícil para a maioria das mulheres em todo Brasil, infelizmente, não é novidade. Passamos por diversas situações constrangedoras, misóginas e machistas, simplesmente porque alguns homens pensam que esse espaço é um lugar feito para e por eles. São diversos os casos de assédio, violências físicas e xingamentos noticiados todos os dias na imprensa. 

Colorada desde criança, incentivada pela minha mãe, assistia a jogos pela televisão e também aos campeonatos locais de futsal e futebol que meus irmãos participavam. Em determinado momento comecei a perceber olhares estranhos e julgadores de outros homens quando eu gritava por uma falta não marcada, vibrava fortemente com o gol e xingava por situações que via como injustas, ou seja, eu estava sendo julgada simplesmente por me manifestar e torcer de forma expressiva, que nem todos eles faziam. 

Esse foi o caminho inicial da escolha do meu primeiro tema de pesquisa. Em meu trabalho de conclusão de curso estudei sobre a representação de mulheres torcedoras brancas e negras em São Paulo e Rio de Janeiro no começo do século XX.[3] Pesquisando em revistas e jornais da época, percebi que as representações sobre torcedoras eram variadas, algumas positivas ou, em outros momentos, negativas. Mas o que mais me chamou a atenção foi a invisibilidade da menção às torcedoras negras na imprensa nesse período, elas não apareciam em fotos, caricaturas e também não eram citadas. Portanto, enquanto mulher torcedora e negra, questionei-me: onde elas(nós) estavam(os) no passado? Será que elas não frequentavam os estádios de futebol? Seria impossível não fazer esse recorte, afinal, quando falamos em “mulheres” de quais delas estamos falando? É impossível não considerarmos que as vivências de mulheres negras e brancas são diferenciadas em muitos sentidos, não podemos pensar a categoria mulher como universal e acrítica. 

Como não havia encontrado mulheres negras na imprensa hegemônica do Rio de Janeiro e São Paulo no começo do século XX, resolvi então voltar meu olhar para a imprensa negra paulista. É somente através desta imprensa, uma estratégia coletiva de resistência, combate ao racismo e identidade negra anos após a abolição da escravatura, que conseguimos encontrar indícios das mulheres  negras  em  seus  momentos  de  lazer  como  torcedoras.  Percebemos, inclusive, que elas eram importantes na vida associativa dos clubes de futebol, pois haviam pedidos enfáticos para que elas comparecessem aos jogos e apoiassem os times de seus “irmãos de cor”. Além de demonstrarem a todo momento a ocupação das arquibancadas como um local importante de sociabilidade também para comunidade negra.

Getulino, 1923, n.13, p.5. Foto: reprodução.

Agora, saindo do eixo Rio-São Paulo, mas ainda no começo do século XX, temos o primeiro exemplo que abriu esse texto. Ele aconteceu em Pelotas, Rio Grande do Sul, onde a coluna do jornal negro chamado Alvorada, conhecida como “Pesquei” (famosa por fazer intrigas em seus números), no ano de 1919, observou e registrou o comportamento de torcedoras negras que estavam assistindo ao jogo de dois times compostos por jogadores negros – América X Universal. Seus comportamentos foram alvos de comentários que afirmavam terem agido de maneira “vergonhosa” por sua forma de torcer. O que nos leva a pensar: o que é torcer de maneira vergonhosa?

Segundo o trecho elas “insultavam as adversárias” e ameaçavam os jogadores, ou seja, uma característica comum a muitos torcedores, no entanto, sendo elas mulheres, era caso de vergonha e motivo para parar nas colunas de fofoca do jornal da cidade. Percebemos aí uma faceta dos estereótipos raciais que recaem sobre as mulheres negras e que a mídia ajudou bastante a consolidar, nesse caso, o mito da agressividade da mulher negra. Parte-se da imagem de controle de que a torcedora negra que se expressa demais sempre vai partir para agressão, brigar, e gritar e tudo isso é exposto de uma forma negativa com o objetivo de controlar nosso comportamento e também desumanizar frente ao esperado das “mulheres em geral’’.

Foquei no passado, mais precisamente no começo do século XX, mas o machismo e racismo ainda permanecem nas arquibancadas. O segundo exemplo do início do texto é mais recente e nada engraçado, como as pessoas que fizeram a imagem rodar por grupos de Facebook e WhatsApp queriam que parecesse. A comparação entre torcedoras brancas e torcedoras negras, como se umas fossem mais bonitas e superiores às outras, é um caso grave em que se constata as mulheres negras como não-pessoas e motivos de chacota, reduzindo-as à aparência física, ridicularizando-as por não se adequarem a um padrão branco. Elas não estavam ali para um concurso de beleza, estavam ali com objetivo de torcer para seu time de coração e acabaram tendo suas imagens expostas e comparadas.

A página “Mulheres e formas de torcer” no Instagram fez uma postagem interessante sobre como as mulheres nas arquibancadas ainda são sexualizadas. Sim, se jogarmos no Google “torcedora”, “torcedoras de futebol” e seus derivados seremos apresentadas a uma enxurrada de imagens centradas na beleza física dessas mulheres, além de uma imensa maioria de torcedoras brancas, como se elas fossem as únicas presenças femininas no espaço das arquibancadas.

Torcedoras
Imagem de postagem da página do Instagram: @mulhereseformasdetorcer. Fonte: reprodução.

No episódio do “Podcast das Marias” duas torcedoras negras e frequentadoras assíduas dos estádios conversaram sobre como o racismo afeta em suas presenças nas arquibancadas, levantando um debate importante sobre aparências, medos e a responsabilidade de serem as “negras únicas” em certos espaços. Como afirma a torcedora Maíra dos Santos: “Na fila do Mineirão, sou sempre a menina preta”.[4]

Alguns trabalhos e matérias jornalísticas que falam de torcedoras e das dificuldades que elas têm para frequentar o espaço da arquibancada geralmente não fazem o recorte de raça, problematizam e criticam o machismo, mas esquecem o fator racial que nos perpassa. A interseccionalidade parte de uma lente analítica que mostra quando e como as mulheres negras são discriminadas através de uma interação de opressões, como o machismo e o racismo, além de outros fatores como a classe. Júlio Belas em “Quem conta a história das negras no futebol” também levanta esse debate com relação às mulheres jogadoras de futebol, problematizando sobre a invisibilidade de mulheres negras jogadoras, embranquecimento da Seleção Brasileira de Futebol Feminino e o quanto o foco, muitas vezes, fica na valorização do esporte como um todo, sem que se levantem pautas raciais, as quais são também imprescindíveis para pensarmos o futebol feminino.[5]

Precisamos fazer essas reflexões à luz de um recorte racial, não para separar ou segregar, mas para entendermos as vivências diferentes de mulheres brancas e negras, no caso, enquanto torcedoras. Se apagarmos das narrativas de quem eram/são essas mulheres, que cor de pele temos e como o racismo nos afeta, mais uma vez estará vencendo a narrativa que tenta apagar nossa história, assim como no passado. É importante registrar que existimos e resistimos enquanto mulheres e negras, nas arquibancadas e na vida, no passado e no presente.

Notas

[1] Alvorada, 20/07/1919, p.6.

[2] Fã do Bahia reclama de racismo em montagem com gremistas: “Não é piada”. 

[3] LIMA, Taiane Anhanha. Trabalho de conclusão de curso. “Torcedoras: representações de mulheres brancas e negras pela imprensa nos campos de futebol do Rio de Janeiro e São Paulo no início do século XX”. Universidade Federal de Santa Maria, 2019.

[4] Podcast das Marias #62 – Racismo e futebol

[5] BELAS, Júlia. Quem conta a história das negras no futebol?.

Referências

bell hooks. E eu não sou uma mulher? Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2020.

MACKEDANZ, C. F. Racismo “nas quatro linhas”: os negros e as ligas de futebol em Pelotas (1901-1930). 2016. Dissertação (Mestrado em História)- Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2016.

HISTÓRIA PRETA: O negro no futebol: Onde estão as pretas?

AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade. Belo Horizonte: Letramento, 2018.

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Taiane Anhanha Lima

Historiadora e torcedora do colorado. Atualmente mestranda no Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da UFSM. Membro do Stadium (Grupo de Estudos de História do Esporte e das Práticas Lúdicas) e do GEPA (Grupos de Estudos sobre o pós-Abolição). Os interesses de pesquisa são: pós-Abolição, futebol e mulheres torcedoras.

Como citar

LIMA, Taiane Anhanha. As mulheres negras nas arquibancadas de futebol: o passado e o presente. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 3, 2022.
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