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As Olimpíadas e a mudança na maneira de assisti-la

Daniel Machado da Conceição 27 de julho de 2021

Os Jogos Olímpicos da Era Moderna recomeçam com o atraso de um ano, com incertezas e inúmeros procedimentos sanitários que alteram seus rituais, pré e pós competições. Há expectativa de novos recordes, campeões e a afirmação de atletas que demonstraram nos anos anteriores serem promessas de bons resultados.

Tóquio 2020
Foto: IOC / Greg Martin / Fotos Públicas

Diferente dos últimos Jogos, convivemos com uma situação inusitada, a ausência de público durante as competições, algo que se tornou comum no mundo em razão da pandemia de COVID-19. Alguns países com número elevado de vacinados (imunizados) flexibilizaram suas regras de isolamento, exemplo dos Estados Unidos da América e outros no continente europeu, como observado durante a Eurocopa 2021, competição vencida pela seleção de futebol masculino da Itália.

A presença do público embeleza o cenário das competições e sua ausência tem um efeito anímico, permitindo conjecturas que discutiremos, por um bom tempo, como acontece em relação ao Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino da Série A 2020, o quanto a torcida poderia contribuir para que a taça de campeão ficasse em outras mãos?

Debates que perduram em muitas rodas de conversa, no entanto, assistir aos Jogos mudou, pois, com o silêncio das arquibancadas escutamos todos os sons produzidos pelos corpos na execução dos movimentos, quedas, trombadas, bloqueios, chutes, lançamentos etc. Sem contar a poética dos eventos com as mensagens de incentivo, cobrança, críticas, xingamentos, provocações, justificações, euforias e tristezas. Houve momentos em que o soluço dos atletas em prantos de dor ou de pesar, foi ouvido para além da imagética de um quadro congelado ou mesmo em movimento.

Na transmissão dos Jogos Olímpicos esse cenário estará ampliado, imagens de corpos e dos sons produzidos por eles, estarão nas telas dos diversos dispositivos telemáticos, assistidos por um público apartado dos seus heróis e ídolos. Os veículos de mídia irão alimentar o interesse dos torcedores por determinadas modalidades, definindo as prioridades de transmissão de acordo com a compatibilidade da grade televisiva. Aqueles privilegiados que podem contratar canais de televisão privados ou plataformas streaming terão acesso aos conteúdos durante as 24 horas do dia e da noite. Portanto, as imagens ampliam-se na mesma magnitude da visibilidade dos corpos e seus feitos esportivos.

Um novo fenômeno podemos perceber nesse processo, pois, foge do alcance das grandes redes de televisão que fazem a cobertura dos megaeventos como as Olimpíadas. Observamos as redes sociais ocupando um espaço sem mediação do jornalismo esportivo, os atletas realizam publicações (postagens) em seus perfis virtuais. De maneira imediata associamos esse fenômeno à redução de profissionais da imprensa, repórteres e jornalistas, em razão dos procedimentos e controle sanitário. No entanto, não podemos esquecer que mesmo sem a COVID-19 existiam mudanças em razão da internet e redes sociais que impactam no jornalismo in loco. A facilidade em disponibilizar imagens e sons, é um novo modelo de interação entre atletas e nós, seu público, algo que tende a transformar como vivenciamos a competição, pois, a imprensa esportiva não controla esse tipo de postagens.

As pequenas câmeras em dispositivos móveis aceleram o compartilhamento de mensagens e, principalmente, vídeos que desvendam a intimidade dos atletas na Vila Olímpica, quartos, locais de refeição, horários de treino, descanso e descontração. Esse novo canal de comunicação dá oportunidade para expressar opiniões e levantar bandeiras políticas que passavam por filtros e acabavam invisibilizadas ou, mesmo, folclorizadas. Os atletas brasileiros com destaque em suas redes sociais são Richarlison e Paulinho da seleção de futebol masculino, Marta do futebol de mulheres e Douglas Souza do vôlei masculino. Este último, durante os primeiros dias dos Jogos Olímpicos ganhou mais de um milhão de seguidores em uma de suas redes sociais ao fazer postagens irreverentes, revelando o ambiente esportivo a partir do olhar de um competidor.

Douglas Souza
Douglas Souza. Foto: FIVB/Fotos Públicas

Os atletas que na “televisão” são heróis ou máquinas que representam o que supostamente há de melhor para execução de determinada atividade esportiva, nas redes sociais são humanos, isto é, mortais que expressam fraqueza, nervosismo, ou força e confiança. Uma oportunidade que também permite performar querendo se mostrar humanos. Se nos programas esportivos a exaltação do mérito atlético torna atletas deuses, as redes sociais destacam seu lado humano, para o bem e para o mal.

Essa relação nos faz pensar que nos Jogos Olímpicos que se iniciam e que pretendem ser os mais politizados, com certa abertura para que os atletas se manifestem sobre diversas pautas sociais durante as competições, a ausência do público parece ser também uma perda para testar a aprovação das bandeiras políticas que serão levantadas. No entanto, o público, mesmo distante, seguirá eufórico, acompanhando tudo pela tela. Contudo, não mais tão dependente da programação esportiva disponibilizada, exclusivamente, pela televisão, pois, tem poder ainda maior de decisão sobre o que deseja assistir e a quem seguir, reverberando as discussões não mais apenas sobre resultados atléticos, mas sim, sobre pautas mortais da vida social.

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Daniel Machado da Conceição

Doutor em Educação, Mestre em Educação e Cientista Sociais pela UFSC. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea (NEPESC/UFSC), Grupo Esporte & Sociedade.

Como citar

CONCEIçãO, Daniel Machado da. As Olimpíadas e a mudança na maneira de assisti-la. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 55, 2021.
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