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As origens do futebol varzeano

Plínio Labriola Negreiros 24 de janeiro de 2023

Muitas características que marcaram a prática de elite na esfera esportiva, em São Paulo, também foram próprias do futebol informal, varzeano ou dos arrabaldes, como se designava na época, início do século XX. A mesma paixão, a mesma febre são exemplos dessa identidade entre uma prática e outra. Essas práticas, certamente, não estiveram absolutamente isoladas. Evidentemente, não eram pequenas as distâncias.

A prática do futebol encontrou amplos espaços na sociedade paulistana. Escolas, empresas, organizações religiosas e/ou culturais, entre tantas instituições, presenciavam o jogo de bola. Todo bairro da cidade possuía, ao menos, um clube/time e um campo. Existiam muitos campeonatos por todo o espaço urbano. Clubes e ligas esportivas eram fundados com uma velocidade marcante. De fato, a cidade começava respirar o futebol. Esporte que, inicialmente, parecia que seria mais um modismo do paulistano, acostumado a muitos. Mas a relação da população com o “esporte bretão” revelou outra condição. O futebol começou a fazer parte do cotidiano.

A primeira observação a se fazer acerca dos clubes dedicados ao jogo da bola, fora das entidades oficiais, é o seu número significativo. Nas páginas dos periódicos, diariamente eram anunciados novos clubes, nos mais diferentes bairros da cidade. Por exemplo, tem-se A. A. Água Branca, C. A. Paraíso, Perdizes F. C., entre inúmeros. Já existiam, na década de 1910, em função da quantidade de associações esportivas, as rivalidades dentro de cada bairro ou regiões da cidade.

No dia 29 de dezembro de 1914, um cronista d’O Estado de São Paulo, apresenta um levantamento estatístico, certamente incompleto, sobre associações esportivas existentes na cidade. O jornalista solicitou informações acerca de cada clube, pedindo-se entre outros dados: nomes dos diretores, nome da associação, local da sede, número de sócios e o gênero de esporte a que se dedicavam. A seção Sport do periódico apresenta uma primeira lista, em que constam os nomes de 136 associações esportivas, sendo a grande maioria da cidade de São Paulo e o restante referindo-se a algumas cidades do interior do estado. Segundo a LPF, existiam no estado de São Paulo aproximadamente 2 mil clubes praticantes de futebol. No mesmo O Estado de São Paulo, na edição de 29 de agosto de 1915, um domingo, anunciou 47 jogos envolvendo 94 clubes, 188 times e 1 068 jogadores. Estes dados dão a dimensão da dinâmica do futebol em São Paulo.

Como o futebol oficial, também o informal foi objeto de notícia nos periódicos da época tratada. Porém, sintomaticamente, essa prática esportiva só recebeu destaque fora da seção de esportes. A seção de alguns jornais, denominada Fatos Diversos, esboço de uma crônica policial, era o espaço que o futebol varzeano ocupava. Observe-se esta notícia, também publicada pelo O Estado de São Paulo, ainda em agosto de 1915: “Um ‘ground’ em polvorosa — Na várzea do Carmo, dois ‘times’ anônimos de menores desocupados se empenharam ontem às três e meia horas da tarde, num ‘match’ de ‘futebol’, com entusiasmo belicoso de dois cães na disputa de um osso.”

Nessa introdução aos acontecimentos, o jornalista propositalmente coloca o jargão próprio do futebol entre aspas, dizendo, de outra forma, que campo, time, jogo ou futebol, são vagas lembranças do que se tinha entre as elites. Portanto, campo era o Velódromo ou o Parque Antártica; time, o C. A Paulistano, a A. A. das Palmeiras e alguns mais; jogo, apenas os do campeonato da Liga Paulista de Foot-ball (LPF); e, futebol, aquela prática oficializada e organizada pela entidade competente. Por outro lado, menores que praticavam uma forma de lazer num domingo à tarde são taxados de desocupados. Os atletas dos clubes de elite, que treinavam nos dias úteis, no meio da tarde, nunca foram denominados assim. Além disso, a emoção própria da prática do futebol, tão decantada nos jogos do Velódromo, aqui era percebida de forma preconceituosa. A descrição, mais parecida com um julgamento, continuava:

Uma multidão de menores lota o ‘ground’, cheia de curiosidade, e de remendo nas calças, e o próprio transeunte desocupado parava para gozar do espetáculo gratuito, porque os ‘matchs’ de “futebol” na várzea do Carmo tem sempre o que ver: não raro terminar indo o ‘time’ vencido para o hospital e o vencedor para o xadrez.

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SPAC e Paulistano, no campo do Velódromo, em 1902. Fonte: reprodução

Apesar de reconhecer uma razoável organização nos jogos da várzea do Carmo, o redator d’O Estado de São Paulo nota que são poucos os jogos em que a violência e a consequente presença da polícia não são fatos. Ou seja, o citado espetáculo gratuito, para o cidadão que não queria ou não podia pagar para assistir a uma partida no Velódromo, não era o jogo em si, mas a violência premeditada. E a matéria continuava:

Ao começar o segundo tempo, que foi um tempo quente, o povo interviu de novo, manifestando-se furiosamente contra o juiz de linha Carlos Grumberg que não deu sinal de “off-side”, em certa ocasião em que a bola saiu do campo. O que sucedeu foi um dos “halves-back” “shootar” a bola para dentro do “goal” do adversário. A assistência que não pagou ingresso e não foi convidada, protestou energicamente, invadindo o campo.

Essa prática de o público intervir num jogo, naquela época, era corriqueira, mesmo em se tratando do futebol oficial. São inúmeras as descrições de jogos em que ocorrem as invasões no campo de jogo. Ou ainda, são constantes as manifestações do público contra as decisões do juiz. Não faltavam palavrões, vaias e agressões físicas. O público torcedor, naquela tarde de domingo na várzea do Carmo, apenas radicalizou atos que ocorriam por todos os outros campos de São Paulo. E, após a invasão do campo,

Um indivíduo de fraque e chapéu duro, com ares de chefe de família, saiu fora do sério, chegou mesmo a querer dar guarda-chuvadas no juiz de linha. Este, irritado, colérico, congestionado, avançou para os invasores do ‘ground’ e, com o pau da própria bandeira que empunhava, deu bordoadas às tantas. Daí a instantes trilavam os apitos de socorro e a debandada começou.

Mais uma vez a emoção foi colocada como algo que transforma as pessoas. Uma paixão incontrolável. Exatamente o contrário do que deveria ocorrer, ao menos no entender das elites paulistanas, que se apresentavam como as donas do futebol em São Paulo. A rivalidade e a disputa eram reconhecidas como importantes valores, mas sempre limitadas e controladas. Não é à toa que no Velódromo, junto à arquibancada, existia um cartaz com os seguintes dizeres: “É proibido vaiar.” Fotos da época possibilitaram esta constatação. E o evento da várzea do Carmo continuava:

Quando a polícia apareceu encontrou apenas o juiz de linha, a bola e o popular Agostinho Ergiacia, morador à rua São Caetano, nº 150. Agostinho estava ferido na perna direita e foi socorrido no gabinete médico da Polícia Central. Carlos Grumberg, o juiz de linha é alemão, tem 19 anos de idade, é impressor e reside à rua da Cantareira, n° 14.

Esse jogo de futebol sem ligação com a prática oficial terminou onde outros também terminavam: na polícia. Isso não era regra, mas os periódicos da época davam destaque quando essas violências ocorriam. O futebol jogado fora das entidades oficiais era pouco noticiado, principalmente até 1913, a não ser quando era “caso de polícia”.

Vale destacar que, para o olhar da imprensa paulistana, um jogo de futebol entre populares geralmente terminava em violência descabida. No fundo esta imprensa tentava provar o quanto seria perniciosa a participação popular nos esportes. Especificamente no futebol não seria saudável a introdução dessa “massa popular”, dado o seu descontrole emocional e a sua falta de “educação”, fosse social ou esportiva.

De forma significativa, todos os relatos apresentados sobre o futebol jogado fora das entidades oficiais têm a massiva participação da classe trabalhadora, envolvendo profissionais pouco considerados socialmente. Além disso, todos esses jogos apresentados foram disputados em domingos, demonstrando o quanto o futebol era uma importante forma de lazer dos trabalhadores da cidade.

várzea do carmo
Várzea do Carmo. Fonte: reprodução

Por outro lado, a prática do futebol informal também viveu outra experiência com as autoridades policiais: quando perturbava a ordem pública e o sossego da população. Não foram poucas as reclamações quanto ao futebol atrapalhar moradores e transeuntes. Nestas notícias, publicadas pelo O Comércio de São Paulo, um periódico que buscava se distanciar do elitismo, fica clara essa questão:

Jogo de futebol em plena via pública

A rua Vasco da Gama está transformada há muitos dias num verdadeiro campo de futebol, onde um grupo de menores vagabundos se diverte atirando pelos ares uma enorme bola, pondo assim, em sérios riscos as vidraças das casas vizinhas. Como se só isso não bastasse, os incorrigíveis menores proferem palavras obscenas em voz alta. Mais uma vez chamamos a atenção do dr. Mascarenhas Neves, quinto delegado, para a falta de policiamento da rua Vasco da Gama, falta esta que é sem dúvida a causa dos fatos que ali se praticam. (12 de junho de 1914.)

[…] A rua 7 de Abril, principalmente no trecho compreendido entre a rua Dom José de Barros e a praça da República, está transformada em campo de futebol. (28 de junho de 1914.)

Tem-se mostra, assim, de que a prática do futebol generalizou-se pela cidade. Todo terreno vazio era passível de se transformar num improvisado campo para aquela prática esportiva. E quanto mais improvisado, maior a probabilidade da presença policial, praticando o controle social. Enfim, o futebol informal, para as autoridades municipais, ou era marcado pela violência ou pela desordem que causava no espaço público. Então, os espaços oficial e socialmente designados para a prática do futebol seriam desprovidos de violência e de pouca educação do paulistano comum? Alguns relatos não transmitem essa ideia. Ao contrário, revelam torcedores que envergonham as “finas” famílias paulistanas com seus comportamentos inadequados. Quando São Paulo recebeu a visita dos jogadores ingleses do Corinthian Team, O Estado de São Paulo, em 3 de setembro de 1910, publicou essa descrição da participação do público:

Há, porém, a acrescentar a esses dois grupos de espectadores, um outro de menores proporções, exposto por todo o recinto. É o mais terrível porque é o da crítica impiedosa, que tudo vê pela luneta do seu otimismo e está pronta a cobrir de grosserias e impropérios aqueles que não souberem agradar às predileções da sua visão […]. A assistência mostrou-se desconsolada com o desfecho que as coisas vão tomando […] a qualquer lance favorável para os ingleses não se contêm e gritam e assobiam e operam em desmancho de […] maneiras incompatíveis com gente de boa sociedade.

Em outro momento, em 18 de agosto do mesmo ano, ainda acerca da presença dos ingleses, as reclamações continuaram: “Portanto não se pode culpar o público paulista, em que predominam os melhores elementos da sua sociedade, pelos inconvenientes originados por algumas dezenas de indivíduos pouco educados e quiçá analfabetos.”

Corinthian
O Corinthian Football Club no período 1896-1897. Fonte: Wikipédia

Esses indivíduos que se comportam de maneira inadequada nas praças esportivas, segundo avaliação da imprensa elitista de São Paulo, nunca fazem parte do que “há de melhor” na sociedade paulistana e sempre são minorias. E o periódico O Estado de São Paulo não revelou onde se localizavam, dentro do Velódromo, esses torcedores “mal-educados”, inclusive chegou a afirmar que eram indivíduos presentes por toda a plateia. Porém, em outros momentos, os jornais não eram tão implícitos e acusavam a desordem vinda das gerais, onde o público pagava menos para assistir a um jogo.

Tem-se assim, segundo a imprensa, a população que não sabia se portar nas próprias competições, nem nos jogos oficiais das entidades esportivas. Em outras palavras, aqueles indivíduos, violentos e mal-educados jamais poderiam participar de um campeonato oficial no Velódromo, espaço de senhores “finos” e senhoras e senhoritas elegantes e chiques, além de famílias comportadas. A junção povo—elite, no futebol, mostrava-se difícil.

Por isso é que a imprensa lamentava tanto, em 1913, a ausência do “belo sexo” nas partidas de futebol. Nesta notícia, de 14 de maio, publicada n’O Comércio de São Paulo, esse assunto foi abordado da seguinte maneira: “Futebol — Apea —É deveras desoladora a ausência das gentis senhoritas e distintas senhoras nos meetings esportivos que ultimamente se realizam nesta capital!”

Clubes e times espalham-se por São Paulo

É importante ressaltar que a prática do futebol marcava grande parte da população paulistana. Era quase regra que todas as associações existentes na cidade, de uma forma ou de outra, praticassem o chamado “violento esporte bretão”. Para se ter uma dimensão do significado desse esporte, no início da década de 1910, basta enumerar todas as entidades organizadoras do futebol na cidade,  Essas entidades, desvinculadas das oficiais, passavam de dez. Entre outras ligas, vinculadas às entidades oficiais, a LPF e a Apea, encontravam-se a Liga Ginasial, a Liga Infantil do Futebol, com a participação das escolas Anglo-Brasileira, Macedo Soares e outras; a Associação Acadêmica de Esportes Atléticos e a Liga Acadêmica de Futebol, essas duas últimas formadas por escolas superiores.

Existiam também as inúmeras ligas de futebol espalhadas por todo o interior de São Paulo, que mantinham um significativo intercâmbio com a capital. Já estavam se tornando regra os clubes formados a partir de empresas, fábricas ou especialidade profissional. Assim, podia-se ler esta notícia nos periódicos da época tratada: “C. A. Piratininga — Alguns funcionários da São Paulo Railway resolveram reorganizar o C. A. Piratininga, que há tempos se dissolvera, por motivos de força maior.”, conforme se lê nos jornais de julho de 1911.

Surgiram também clubes e times ligados a atividades profissionais específicas, como a de trabalhadores em comércio, ligados aos gráficos, como o F. C. União Gráfica e o Guttemberg F. C.

As inúmeras associações culturais formadas na capital paulista também enveredaram para a prática do futebol. Sem abandonar seus objetivos iniciais, organizaram times de futebol. Note-se esta pequena nota, de abril de 1914: “Taborda Sport Club — Está convocando uma assembleia geral dos sócios do Centro Dramático e Recreativo Taborda, para o dia 16 do corrente. Essa reunião tem por fim tratar da criação de alguns times de futebol, anexos à associação.”

A partir desses dados é possível afirmar que os times de futebol formados por essas entidades culturais estavam preocupados em dar aos seus associados a possibilidade de uma prática esportiva, no caso o futebol, talvez por ser o esporte mais importante da época. Nem os clubes carnavalescos, que tinham suas atividades concentradas no Carnaval, fugiram à regra: organizaram também suas equipes de futebol. Observe-se esta notícia, presente no Correio Paulistano de 2 de julho de 1911.: “Sport — Um grupo de associados do clube carnavalesco Tá Bom, Deixe jogará hoje, às oito horas da manhã, no campo existente no extremo da rua Solon, um match-training entre os partidos vermelho e azul da seção esportiva desta sociedade.

Da mesma forma, os clubes que se formavam apenas para a prática do futebol, também passaram a ter preocupações culturais, além de outras formas de lazer.

Por outro lado, como já era próprio dos clubes ligados ao futebol oficial em São Paulo, também aqueles dos arrabaldes promoviam um forte intercâmbio com associações esportivas do interior do estado. Se no começo dos anos 1910 se tem poucas notícias acerca desse intercâmbio, o passar dos anos faz com que notícias se multipliquem anunciando jogos em Jundiaí, Pindamonhangaba, Campinas, São Carlos, entre outras cidades servidas pelo transporte ferroviário. Notas nos periódicos, em novembro de 1911, confirmam esse intercâmbio:

Sport — Conforme noticiamos, os rapazes do Concórdia Futebol Clube irão hoje a Jundiaí disputar um match de futebol com um clube daquela localidade.

Match de futebol — Segue hoje para Pindamonhangaba o primeiro time do São Paulo Railway Futebol Clube, que vai disputar um match de futebol com o Brasil Futebol Clube daquela cidade.

E a visita de um clube da capital, no interior paulista, era motivo de festas intermináveis. Geralmente visitadas em domingos, as cidades viviam em função da equipe paulistana. Recepção popular na estação ferroviária, com direito à banda de música, visita às autoridades municipais, almoço festivo, o jogo em si e, finalmente, uma festiva despedida na mesma estação. Em alguns casos, havia outras atividades, como um banquete após o jogo. Também ocorria a presença de clubes do interior à capital, notadamente as associações esportivas campineiras.

Várzea do Carmo
Registro do 1º jogo oficial da cidade de São Paulo, em 1895, na Várzea do Carmo. Fonte: reprodução

Memorialistas do futebol não-oficial

É importante se perceber a prática informal a partir de memorialistas. Nota-se o quanto, realmente, o futebol fazia parte do cotidiano da cidade. Mesmo Jorge Americano — muito ligado às elites paulistanas —, cujas referências são, em grande parte, do futebol oficial, apresenta dados do que o jogo de bola significou em uma cidade que se modificou bastante. Eis algumas dessas referências, presente em São Paulo naquele tempo: “Um grupo dos maiores, do 4º e 5º ano, saía à tarde, uma vez por semana, com seu Carvalho, professor do 5º ano e organizador do batalhão. Iam jogar um novo jogo de bola chamado foot ball, no descampado atrás da capela de Santa Cecília e vizinho da chácara de d. Angélica.”

Outro memorialista paulistano, Jacob Penteado, em Belenzinho, 1910, também apresenta referências acerca do futebol. Trabalha com informações que esclarecem muito a prática do futebol informal. Quando morador do Brás, rememora que “aos domingos, uma vez por outra, ia assistir a jogos de futebol, na várzea do Carmo, onde pululavam os campos para a prática desse popular esporte”. E recupera a origem do termo “varzeano”, afirmando que

“quando, então, a várzea foi aterrada, ao tempo dos prefeitos Antônio Prado e Raimundo Duprat (1910 e 1911), os campos de futebol multiplicaram-se, aproveitando o terreno plano. Como se tratava de associações não oficiais, daí derivou o termo ‘varzeano’ e também o de ‘clubes de várzea’, para designar os praticantes do futebol fora da liga principal.”

E o trabalho de memória de Jacob Penteado continuava, citando os clubes que jogavam na várzea do Carmo, também revelando que a rivalidade acirrada levou a muitos conflitos físicos. Segundo o memorialista,

os papões da várzea eram o Argentino, na parte do Glicério, onde tinham seus campos também o Eden Brasil, o Norte-Americano e o XI de Agosto. Era seu rival o Botafogo formado por jogadores do então novel Corinthians Paulista cujo campo ficava junto à rua Paula Souza. Nesse trecho, jogavam ainda, o Belo Horizonte e o Cruzeiro do Sul, constituídos por elementos da colônia síria. Quando tais clubes jogavam entre si, a pancadaria era, invariavelmente, o arremate final da competição. Havia muitas cabeças rachadas e jogadores correndo pelas ruas adjacentes, ainda uniformizados. Mais tarde, surgiram, perto do Gasômetro, o Mancha de Sangue e o Roma, seguidos pelo Polignano a Mare, todos eles formados por membros da colônia italiana. Houve ainda, o Parnaíba e o Aliança, e outros que não cheguei a conhecer.

A partir desse depoimento, é possível perceber a real importância que a várzea do Carmo, com seus inúmeros clubes e campos, exerceu no desenvolvimento do futebol em São Paulo.

Quando morador no Belenzinho, Jacob Penteado também percebeu a formação e o desenvolvimento do futebol entre os clubes varzeanos nessa parte da cidade. Seu relato mostra que esse bairro produziu um dos times mais velhos da várzea, o Estrela de Ouro, fundado em 1902, duas vezes campeão municipal entre os clubes não oficiais. Tão importante quanto essas informações, é o fato de o memorialista chamar a atenção para a forma como se praticava o futebol nos campos de várzea. Diz ele:

Àquele tempo, esse esporte era, na realidade, jogo para machos, pois a violência imperava, predominando o fator físico, a força bruta. Para isso, mais que pela técnica, quase inexistente, os integrantes do “time” eram escolhidos pela robustez. As charges no goleiro também eram permitidas. Por ocasião dos escanteios (então corners), investiam quatro ou cinco jogadores, de pés levantados, de sola e até de soco, para cima do arqueiro (chamava-se “gorquipe”, corruptela de goal-keeper), que ia para o fundo da rede (quando as havia), fortemente contundido […]. Os zagueiros chamavam-se “fulbeques” ou beques (full-back). Sua tática era esta: beque que avança, que acossava os avantes adversários, e beque que espera, que limpava a área. Geralmente este, possuidor de forte chute (shoot), fazia a torcida delirar quando a bola atravessava o campo ou subia que nem um balão.

No decorrer do seu relato, o memorialista mostra como havia contato entre o futebol varzeano e o das elites, quando afirma que “um dia apareceu [no Belenzinho] um quadro da cidade, enxertado de vários jogadores da liga oficial. Vinham para ganhar a goleada, mas o capitão do Estrela, Ernesto Sertório, perdeu a cabeça e meteu o braço no famoso Hermann Friese, um dos maiores craques da época. O homem reagiu e o conflito generalizou-se”. Inclusive, ainda segundo Jacob Penteado, “naquele tempo, muitos futebolistas jogavam armados. Usavam uma faixa bem larga, na cintura, e nela ocultavam armas, para a hora de ‘balançar a roseira’. Os próprios juízes atuavam armados, pois eram constantemente vítimas de agressões”.

Outro aspecto importante abordado por Jacob Penteado é o da rivalidade que vai se constituir entre clubes do mesmo bairro. O já citado Estrela tinha como grande rival o União Belém. Eles “evitavam-se, mas, quando se enfrentavam, o Belenzinho ficava em polvorosa”. Também é relevante o fato de que alguns clubes eram formados por afinidades profissionais, como o União Operária, formado por carroceiros, oleiros e barqueiros. Ou formados, ainda, por nacionalidades, como o XX de Setembro, de italianos da Toscana. Tem-se, inclusive, o misto dos dois: o Portugal Marinhense, formado por portugueses vidreiros.

O trabalho de Ecléa Bosi, Memória e sociedade, recolhendo memórias de velhos que viveram a partir do início do século XX, em São Paulo, ajuda a reconstruir o que foi o lazer e a prática informal do futebol. Nas “lembranças do sr. Amadeu”, nascido no Brás em 1906 e descendente de italianos, tendo o pai alfaiate e a mãe costureira, este recorda-se de sua infância, em que

“A rua não tinha calçada. Elas ficavam à vontade naquelas ruas antigas. Eram ruas de lazer, porque não tinham movimento, e criança tinha demais. Em São Paulo, nos terrenos baldios grandes, sempre se faziam parques para a meninada. Meus irmãos jogavam juntos futebol na rua. Tínhamos um clube, formado por nós, chamado Celso Garcia”.

O sr. Amadeu também se lembra de que a região do parque Dom Pedro II foi a várzea do Carmo, espaço privilegiado para a prática do futebol no início daquele século. Diz o sr. Amadeu que “antes, o lugar era nosso campo de futebol, de um clube chamado Torino”.

O relato torna-se importante quando o sr. Amadeu se lembra especificamente do futebol. De forma significativa ele dimensiona, a seu modo, o que foi esse esporte varzeano, além de revelar fatos que foram sedimentados na memória esportiva popular. Assim narra o futebol informal no seu tempo:

Comecei a jogar futebol com nove anos. Naquele tempo tinha mais de mil campos de várzea. Na Vila Maria, no Canindé, na várzea do Glicério, cada um tinha mais ou menos cinquenta campos de futebol. Penha, pode pôr cinquenta campos, Barra Funda, Lapa, entre vinte e 25 campos… […] Se nós vamos procurar na memória quantos jogadores da várzea […] tinha mais de 10 mil jogadores. Aquele tempo era uma coisa!… Em cada bairro se fazia um campeonato.

Esse relato torna-se ainda mais relevante, pois também não constrói uma rígida separação entre o futebol informal e o oficial. Para o sr. Amadeu, o divisor de águas no processo no qual os campos de várzea vão desaparecendo encontra-se no crescimento da cidade e na construção de grandes estádios de futebol, como o Pacaembu, inaugurado em 1940. Por isso, “o futebol já não é mais o que foi para o meu povo”. E quanto ao futebol oficial, quando foi possível separá-lo do informal, o sr. Amadeu não titubeia ao afirmar que “havia o Botafogo da rua Paula Souza, que é o Corinthians de hoje […] [no Corinthians] estava a massa: os pretos e os espanhóis […]. Não tinha preto naquele tempo no Palestra […]. Naquele tempo o Paulistano era o clube da elite”.

Até a primeira década deste século, a contribuição dos chamados historiadores e memorialistas do futebol na questão da prática informal é pequena. A preocupação desses autores recai sobre o futebol oficial. Mas como essas práticas, em alguns momentos se confundiram, a várzea tornou-se, mesmo de forma indireta, objeto de estudo. Em uma biografia de Arthur Friedenreich, por exemplo, o autor constrói uma análise para explicar por que esse jogador se destacou tanto dos demais. Para João Máximo, apesar de o futebol no início do século XX ser fortemente elitizado e apenas os “rapazes endinheirados” poderem praticá-lo de forma organizada, existia também o futebol de várzea, praticado pelos mais pobres. E Arthur Friedenreich foi uma espécie de síntese disso tudo. Foi um pouco de elite, foi um pouco de várzea e, ainda, um pouco de preto.

Era filho de alemão remediado com paulista pobre, de pele escura; viveu quase toda a infância entre os meninos de rua e estudou nos melhores colégios de São Paulo, inclusive no Mackenzie; veio do mundo nada aristocrático do bairro da Luz e muito cedo entrou para o Germânia, clube elegante da colônia alemã.

Arthur Friedenreich
Arthur Friedenreich. Fonte: Wikipédia

Enfim, a gênese do poderio futebolístico brasileiro e do próprio Friedenreich encontrar-se-ia, em parte, na conjugação perfeita do que foi o jogador conhecido como El Tigre.

Para Thomaz Mazzoni, no clássico História do futebol no Brasil: 1894—1945, considera que

O pequeno futebol, os clubes de bairros nasceram quase ao mesmo tempo do chamado futebol da Chácara dos Ingleses, do Velódromo e do Parque Antártica, onde começaram a tomar impulso os clubes principais. A semente da popularidade futebolística brotou logo prodigiosamente. O exemplo dos estudantes e moços ricos do Mackenzie, Paulistano etc., não deixou indiferentes os rapazes operários dos bairros e daí surgiram pequenos clubes em pouco tempo. Mas, os seus primeiros tempos foram destruídos pela poeira do esquecimento. Pequenina, aliás, foi essa árvore até, mais ou menos 1908. Foi então que se impôs a várzea. Sim, a verdadeira história do nosso futebol dos bairros nasceu quando os clubes acabaram se agrupando na Várzea, dando uma feição de campeonato aos seus encontros domingueiros […] no Carmo, o futebol dos bairros passou a se desenvolver em todo e qualquer terreno desigual que apareceu na capital.

Infelizmente, é generalizada essa análise. Apesar de real, dificilmente se têm maiores informações do que foi a várzea em São Paulo nas duas primeiras décadas do século passado.

A partir das características do futebol informal e do oficial na cidade de São Paulo até meados da década de 1910, é possível se perceber a febre esportiva que a capital paulista viveu. O futebol tornou-se uma importante forma de lazer, marcada por fortes sinais de paixão e emoção. Se o elitismo das entidades oficiais era fato nesse momento, a prática do futebol não deixou de ser acessível a amplas parcelas da população, que iam ocupando os inúmeros terrenos vazios da cidade. Por outro lado, o futebol, seja oficial ou varzeano, ainda carecia de uma organização mais rígida. A marca do amadorismo e do semiprofissionalismo estavam presentes nesse esporte já tão popular. E, fundamentalmente, tem-se, a partir do início da década de 1910, uma pressão sobre as entidades oficiais, que insistem em manter isolados milhares de jogadores e algumas centenas de clubes que se espalhavam pela cidade. Ter-se-á tanto acesso de clubes “menores” nas entidades antes elitizadas, quanto dos clubes de elite, que passam a aceitar jogadores vindos das classes populares. Mas essas transformações foram lentas e não ocorreram sem a presença de conflitos e contradições. Por fim, ressalte-se que o fato de a população estar presente nas entidades oficiais, com seus jogadores e clubes, não significou uma popularização radical do esporte bretão. A organização do futebol nunca esteve nas mãos do povo. É por isso que esse esporte perdeu um ranço elitista, mas continuou desvinculado dos reais interesses populares.

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Plinio Labriola Negreiros

Professor de História Estudo a História do Corinthians Paulista e do Futebol

Como citar

NEGREIROS, Plínio Labriola. As origens do futebol varzeano. Ludopédio, São Paulo, v. 163, n. 23, 2023.
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