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As pioneiras pedem passagem: Memórias do Torneio Experimental da China (1988)

Texto dedicado às jogadoras da seleção de 1988[1]

Futebol feminino
Foto: Acervo Museu do Futebol.

 

No dia 17 de novembro de 1991, a seleção brasileira de mulheres estreou na I Copa do Mundo organizada pela FIFA. Se em 2021 comemoramos os 30 anos dessa efeméride, é necessário atentar para o fato de que antes dessa competição, nossas jogadoras já exibiram seus talentos em jogos fomentados pela mesma entidade. No dia 1º de junho de 1988[2], o Brasil disputava contra a Austrália o primeiro jogo oficial da FIFA no Torneio Experimental realizado na China.

Essa informação foi acessada nas pesquisas que realizamos para o Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF)[3] e, cientes da relevância desse torneio, investimos na garimpagem de memórias com o objetivo de visibilizar o protagonismo de uma geração de futebolistas que trilhou os primeiros caminhos da modalidade e, apesar disso, é praticamente desconhecida em nosso país. Para reconstruir fragmentos dessa história, entrevistamos algumas de suas protagonistas, mais especificamente as jogadoras Suzana Cavalheiro, Roselani Motta (Fanta), Marisa Pires, Elane dos Santos Rego, Flordelis Santos Oliveira, Sandra Cristina Paiva Duarte, Sisleide Lima do Amor (Sissi), Lúcia Feitosa e Lucilene de Souza Marinho (Cebola), Roseli de Belo e Suzy Bittencourt de Oliveira. Recorremos também à base de dados da Hemeroteca da Biblioteca Nacional em busca de informações que relatassem a participação das brasileiras na competição. Para nossa surpresa, nos deparamos com algo inusitado para a época: a cobertura do torneio foi realizada por uma mulher, Cláudia da Silva, na época com 22 anos e estagiária do Jornal dos Sports, publicado no Rio de Janeiro. Ao entrevistá-la, descobrimos que foi a única representante da imprensa brasileira na China e que o convite para acompanhar a seleção aconteceu por acaso, durante uma coletiva da qual participava na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Não havia nenhuma indicação por parte da FIFA para que as delegações tivessem jornalistas. No entanto, Otávio Pinto Guimarães, então presidente da CBF, julgou importante ter alguém para acompanhar a participação da seleção nesse evento. Cláudia era a única repórter mulher nessa coletiva e, na sua avaliação, esse foi o motivo pelo qual acabou sendo indicada para assumir a função (OTÁVIO É CONVIDADO DA CHINA, JORNAL DOS SPORTS, 14 de maio de 1988).

O fato é que sem as matérias de Cláudia, dificilmente acessaríamos informações sobre a viagem das brasileiras à China. Os detalhes que registra, aliados à narrativa das entrevistadas, revelam aspectos singulares de uma história exitosa, cuja relevância é fundamental para o esporte brasileiro. A despeito da desorganização e da pouca estrutura ofertada à delegação, as jogadoras realizaram uma campanha extraordinária nesse torneio inaugural da modalidade, conquistando a honrosa medalha de bronze.              

O futebol de mulheres, apesar de já acontecer em diferentes países sob diferentes formas de regulamentação, ainda não era reconhecido pela FIFA. Esse foi o primeiro torneio oficial da entidade, uma espécie de teste visando à organização do campeonato mundial que, para os homens, já acontecia desde 1930. A escolha da China como país sede se deu por dois motivos: a experiência da Confederação Asiática de Futebol Feminino que, em 1975, já havia organizado um campeonato e a atuação de um magnata, o Dr. Henry Fok, membro do Comitê Executivo da FIFA que convenceu a Confederação Asiática de Futebol e a Associação Chinesa de Futebol a apoiar sua realização (FIFA, 2019).

Cartaz mundial feminino
Acervo: Michael Jackson.

Muita coisa estava em jogo nesse momento: se o torneio fosse um desastre, o futebol de mulheres permaneceria na condição que estava, ou seja, nas zonas de sombra. Se desse certo, a entidade maior do futebol, então presidida pelo brasileiro João Havelange, voltaria os olhos para essa demanda, criando algumas condições para que se estruturasse. O Torneio Experimental da China teve início no dia 1º de junho de 1988 e contou com a participação de doze países: Austrália, Noruega, Tailândia, China, Holanda, Canadá, Costa do Marfim, Japão, EUA, Suécia, Tchecoslováquia e Brasil. Durou até o dia 12 e, nesse período, foram realizados 26 jogos, somando 81 gols marcados, aproximadamente 3,1 por partida. O público que presenciou o evento foi extremamente satisfatório. Segundo os dados da FIFA, totalizou 375.780 pessoas, o que representa uma média de 14.453 por jogo. Sob o argumento de proteção às jogadoras, cujo desgaste físico ainda era identificado como inerente ao seu corpo, os jogos tiveram duração de 80 minutos e, apesar de haver algumas discussões sobre o tamanho da bola, os organizadores decidiram por utilizar a oficial, ou seja, a mesma utilizada pelos homens. O torneio se desenvolveu com sucesso e foi vencido pela Noruega, que partilhou o pódio com a Suécia e com a nossa seleção, que conquistou a terceira colocação. Apesar da expressividade desses dados, a FIFA ainda demorou três anos para fazer a I Copa do Mundo de Mulheres, que aconteceu no mesmo país, em 1991.

As conversas que tivemos com as pioneiras foram fundamentais para que pudéssemos acessar algumas curiosidades e especificidades que envolvem tanto a preparação da equipe quanto sua participação no evento. Descobrimos, por exemplo, que a apresentação das jogadoras ocorreu no intervalo de um clássico disputado pelo Flamengo e Fluminense, em pleno Maracanã, dias antes da viagem. Diante de um estádio lotado, as atletas entraram em campo e foram anunciadas como integrantes da primeira seleção que iria participar de um torneio oficial da modalidade. Apesar de se sentirem contentes e entusiasmadas com a situação, inédita até então, revelam também o descaso por parte da entidade gestora da modalidade. Elas foram apresentadas com um uniforme que havia sobrado da equipe dos homens, e para que não passassem vergonha, em função do tamanho, tiveram que costurá-lo à mão, de forma improvisada e, assim, disfarçar o incômodo de usar algo que não era próprio para elas. Esse mesmo uniforme foi usado durante todo o torneio, nos jogos, nos treinos e inclusive no jantar de gala, realizado em homenagem a João Havelange.

Jantar futebol feminino
Acervo: Cláudia da Silva.

A preparação do time se deu durante um período muito curto. As jogadoras estiveram reunidas por apenas quarenta dias, vinte e cinco deles na cidade do Rio de Janeiro, nas dependências do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN) pertencente à Marinha. Na sequência, deslocaram-se para o centro de treinamento da CBF situado na Granja Comary, em Teresópolis, e lá permaneceram por duas semanas. Fanta e Suzana, ao rememorarem esse período, mencionam que no CEFAN faziam todas as refeições junto com os marinheiros; não havia nada diferenciado para elas. Os treinos aconteciam em dois turnos: pela manhã eram mais intensos com foco no aprimoramento da parte física e técnica; à tarde realizavam trabalho específico com a bola. Não era só a alimentação que partilhavam com os marinheiros. Com eles, disputaram alguns coletivos, o que, na visão das atletas, contribuiu para a melhora do seu desempenho. Uma peculiaridade que relatam, e muito diferente do que aconteceria com uma seleção de homens, é que as próprias atletas eram as responsáveis pelo cuidado com as roupas de treino. Como haviam recebido apenas dois conjuntos, cabia a elas lavá-los, o que faziam utilizando-se do chuveiro no qual se banhavam.

Após os treinamentos no Brasil, embarcaram para a China no dia 27 de maio e, cinco dias depois, já entraram em campo para disputar o jogo inaugural do torneio. Conforme registra Cláudia da Silva, “na estreia, as brasileiras foram derrotadas pelas australianas por 1 x 0 e sentiram muito os problemas provocados pelo fuso horário e má adaptação à alimentação chinesa. A seleção brasileira teve boas oportunidades para derrotar o time australiano na estreia, mas acabou desperdiçando as chances” (SILVA, 1988a, p. 3).

A alimentação também foi uma adversária das brasileiras. Elas ingeriam basicamente arroz, macarrão e ovo, porque não se adaptaram à culinária chinesa. Cláudia da Silva relata que ao perceber essa dificuldade resolveu tomar uma atitude. Apesar de não ser de sua responsabilidade, a jornalista enviada para cobrir o evento dirigiu-se à cozinha do hotel onde a seleção estava hospedada e ensinou as chinesas a fazer algo familiar ao que as atletas estavam acostumadas a consumir. Fia Paulista relembra que comia muito pouco e que, ao retornar da viagem, sua mãe não a reconheceu de tão magra que estava. A falta de apoio da instituição responsável pelo futebol brasileiro se fez sentir em vários outros quesitos. Não havia serviço de tradução, não foram disponibilizados medicamentos para as atletas e elas não receberam diárias para subsidiar gastos pessoais ao longo da viagem. Ou seja, estiveram lá sem ter garantidas as condições adequadas para tanto. E, mesmo assim, fizeram bonito.

Além da medalha conquistada[4] e de ter disputado o primeiro jogo oficial da FIFA, o Brasil é detentor de outro importante registro: protagonizou aquela que foi considerada a melhor partida pela imprensa que fez a cobertura do evento, a qual foi disputada contra a Noruega na fase semifinal. Nesse jogo, a seleção entrou em campo com dois desfalques, improvisada em várias posições e acabou sendo derrotada pelo placar de 2 x 1 (SILVA, 1988b). Vale destacar que esse foi seu segundo enfrentamento com a Noruega. O primeiro aconteceu na fase de grupos com vitória brasileira pelo mesmo placar. As norueguesas já eram identificadas como as favoritas para o título, e o Brasil necessitava ganhar para seguir vivo na competição. Foi assim que nossa seleção quebrou uma invencibilidade de 28 jogos da equipe adversária diante de uma torcida entusiasmada com a habilidade técnica das nossas jogadoras. O resultado surpreendeu até nosso técnico, João Varela, o qual, em entrevista, mencionou que as norueguesas tinham grande vantagem porque vinham jogando seguidamente há um ano (SILVA, 1998c).

No nosso movimento de escuta das pioneiras, chama a atenção o destaque que conferem à curiosidade que despertavam extracampo. A cor da pele de muitas delas, as negras, era uma novidade porque a população chinesa não estava acostumada a ver circular em seu país pessoas não asiáticas. A China comunista da década de 1980 era bastante fechada ao ocidente, o que justifica o interesse que muitas pessoas tinham em tirar fotografias com as brasileiras, pedir autógrafos, tocar seus cabelos e sua pele. Esse e vários outros episódios são rememorados com humor e leveza, revelando muito sobre o ambiente e a importância do vínculo que estabeleceram dentro do grupo. Na nossa interpretação, o sentimento de acolhimento e respeito mútuo que vivenciaram foi determinante para que desempenhassem uma campanha tão exitosa. Nas nossas conversas, descreveram vários momentos nos quais essa convivência foi identificada como positiva e agregadora. Elas se ajudavam e estavam felizes por participar da primeira seleção. Muitas delas nunca tinham viajado para o exterior e estavam fazendo aquilo pelo qual lutaram tanto, que era jogar futebol. Esse pertencimento fez com que driblassem as contrariedades com cuidado, afeto e alegria, o que não significa afirmar que eliminaram as desavenças. Estas, porém, não desestabilizaram a relação coletiva que construíram. O vínculo que criaram entre si fez com que tivessem força e determinação para realizar o sonho de representar seu país apesar do enorme hiato existente entre elas e a entidade responsável por proporcionar condições dignas para que tivessem um bom desempenho na competição.

Se esse sentimento efetivamente impactou na excelente campanha que realizaram, não há como saber. O que sabemos é que esse convívio deixou marcas profundas em suas memórias. Ao relembrar esse torneio e falar do grupo, essas pioneiras fazem questão de mencionar o quanto eram unidas e alegres. Isso nos faz crer que, para além do resultado positivo, essa seleção deixou rastros impossíveis de serem apagados. Tal qual o ocaso, que transforma a luz do sol quando este se recolhe no horizonte abrindo espaço para outras luminosidades, essas mulheres, ao findar sua jornada na China, mesmo sem saber, iluminaram o caminho para que muitas outras pudessem percorrê-lo. A medalha que trouxeram para casa foi muito importante, mas focar nela pode ofuscar todas as dificuldades que enfrentaram para sair na vitoriosa foto final. Essa geração, que durante tanto tempo esteve esquecida e, porque não dizer, apagada da história, nos fez ver o quanto são diversas as suas conquistas. Diante de todas as adversidades que vivenciaram, a conexão que estabeleceram entre si foi a medalha que escolheram colocar no peito.

Mundial feminino
Foto: Acervo Suzana Cavalheiro.

Referências

FIFA WORLD FOOTBALL MUSEUM. The oficial history of the FIFA Women´s World Cup. London: Carlton Books, 2019.

OTÁVIO É CONVIDADO DA CHINA. Jornal os Sports, 14 de maio de 1988, p. 5.

SILVA, Cláudia da. Brasil perde na estreia e precisa vencer a Noruega. Jornal dos Sports, 2 de junho de 1988, p. 3.

SILVA, Cláudia da. Brasil derrota a Noruega e pode chegar à semifinal. Jornal dos Sports, 4 de junho de 1988, p. 4.

SILVA, Cláudia da. Seleção brasileira perde da Noruega e não vai à decisão. Jornal dos Sports, 11 de junho de 1988, p. 4.


[1] Lica (Vaneli Laurentino Lira da Costa), Flordelis (Flordelis Santos Oliveira), Elane (Elane dos Santos Rego), Lúcia (Lúcia Alves Feitosa), Suzy (Suzy Bittencourt de Oliveira), Sissi (Sisleide Lima do Amor), Sandra (Sandra Cristina Paiva Duarte), Marisa (Marisa Pires Nogueira), Simone (Simone Sueli Carneiro), Cebola (Lucilene de Souza Marinho), Fia Paulista (Lucineide Bezerra Lima), Suzana (Suzana Cavalheiro), Marcinha (Marcia Honório da Silva), Russa (Marcia Matos Calaça), Michael Jackson (Mariléia dos Santos), Pelezinha (Marilza Martins da Silva), Roseli (Roseli de Belo) e Fanta (Rosilane Camargo Motta).

[2] Nesse dia foram realizados seis jogos: Brasil e Austrália (15:30h), Noruega e Tailândia (17:30h), China e Canadá (20:20h), Costa do Marfim e Holanda (20:20h), Japão e EUA (19:30h) e Suécia e Tchecoslováquia (21:15h). Segundo os dados da FIFA, de fato, protagonizamos o primeiro jogo oficial da entidade (FIFA, 2019).

[3] O Grupo surgiu em novembro de 2020 e, além da nossa participação, contou inicialmente com a presença da jornalista Lu Castro e das ex-jogadoras, Márcia Tafarel, Leda Maria, Dilma Mendes e Thais Picarte. Foi criado com o intuito de discutir e aprofundar temáticas relacionadas aos feminismos, às questões de gênero e a história do futebol de mulheres no Brasil.

[4] Campanha do Brasil na competição: Fase de grupos: Austrália 1 x 0 Brasil; Brasil 2 x 1 Noruega; Brasil 9 x 0 Tailândia. Quartas de final: Brasil 2 x 1 Holanda. Semifinal: Brasil 1 x 2 Noruega. Disputa da terceira colocação: China (3) 0 x 0 (4) Brasil, vitória por pênaltis.

 

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Juliana Cabral

Ex capitã da seleção brasileira de futebol, medalhista olímpica em Atenas 2004, graduada em Ed. Física e pós graduada em Treinamento Esportivo. Comentarista de futebol com passagem por: ESPN, Rádio Globo e Redetv. Professora no Colégio Franciscano Pio XII e integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Silvana Goellner

Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Aposentada).  Ex-coordenadora do Centro de Memória do Esporte (CEME) e  Vice-Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Esporte Cultura e História (GRECCO). Pesquisadora e ativista do Futebol de Mulheres. Integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Como citar

CABRAL, Juliana; GOELLNER, Silvana Vilodre. As pioneiras pedem passagem: Memórias do Torneio Experimental da China (1988). Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 17, 2022.
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