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As torcidas organizadas e a série Sintonia (parte 1): a juventude e a estética das periferias paulistanas

Sintonia
Ritinha, Doni e Nando em cartaz de divulgação da série Sintonia. Reprodução: Netflix

Lançada em 2019 a série brasileira Sintonia, dos estúdios Kondzilla em parceria com a Netflix, aborda o cotidiano da periferia paulistana, mais especificamente através da relação de amizade dos três personagens principais nascidos na favela do Jardim Áurea: Doni, Ritinha e Nando. O sucesso da série resultou, agora em 2021, no lançamento de sua segunda temporada, essa ainda mais direcionada às possibilidades de vivências na periferia, por meio dos três personagens e suas escolhas de vida, que se dividem em três eixos principais: o funk, a religião e o crime. Algo que suscitou em nós, pesquisadores de torcidas organizadas, o questionamento que inspirou o título deste texto, afinal, o que as torcidas organizadas teriam a ver com a série Sintonia?

A relação entre torcidas organizadas, juventude e uma sociabilidade construída sobretudo nas periferias, são temáticas que se relacionam desde os primeiros estudos sobre essas coletividades torcedoras (Toledo, 1996, 1999; Pimenta, 2000 & Teixeira, 2003). Entretanto, relacionamos as torcidas organizadas com a série, principalmente por temáticas que aqui serão divididas em duas partes (dois textos): esta sobre a estética da periferia apresentada na série com a ausência das torcidas organizadas neste cenário; e a parte 2 sobre as possibilidades de ascensão social para além do crime, da religião ou do funk.

Por uma estética periférica

Periferia
Reprodução: Roberto Souza Junior (@fotoperifa)

A discussão sobre uma estética periférica está totalmente atrelada com a questão racial que atravessa as periferias paulistanas, afinal, a construção socioeconômica das grandes cidades como São Paulo se baseou em centralizar os brancos ricos e marginalizar os pretos pobres (Feltran, 2014; Wacquant, 2008). E como destaca Neusa Santos Souza (2021), a sociedade brasileira foi constituída a partir da ideia do branco como o modelo cívico a ser seguido, logo, para o negro se tornar gente o caminho a ser traçado seria o de apagar seus traços culturais, suas origens, sua estética. Por isso, durante um bom tempo, o que moradores das periferias buscaram, como forma de sobrevivência social[1], foi ocultar ao máximo o ser da periferia. O que, atualmente, como atesta a própria série, tem mudado drasticamente.

Mas isso não vem de hoje, o discurso de uma estética própria das periferias e seus moradores, mais especificamente no contexto da cidade de São Paulo, é narrado em suas múltiplas expressões artísticas advindas das próprias favelas. Como exemplo máximo desse olhar que enxerga com orgulho o modo de vida, e a corporalidade preta das quebradas, tivemos os Racionais MC’s, que, como costuma dizer o próprio Mano Brown, compunham letras de rap com o intuito de resgatar um orgulho estético das periferias que antes ninguém via, ou se orgulhava[2].

Existe um velho ditado do cativeiro que diz / Que o negro sem orgulho é fraco e infeliz / Como uma grande árvore que não tem raiz (…) / Estou falando sobre nossa auto-estima (…) / Quero nos devolver o valor, que a outra raça tirou / Esse é meu ponto de vista. (Racionais MC’s, Voz ativa, 1993).

O que de certa forma também influenciou os coletivos torcedores oriundos dessas comunidades periféricas. É nos anos de 1990 que a valorização dessa imagem estética das torcidas organizadas ganha ainda mais protagonismo, sob uma conjuntura juvenil de contexto urbano totalmente atrelado a periferia e sua “corporalidade pensada”[3] (Toledo, 2012).

Amparado num modo de vida “de periferia”, mas não necessariamente situado [apenas] na periferia, portanto espraiado como estilo de vida para outras frações de classe como um item de consumo comportamental ou cultural de afirmação geracional, os anos 1990 trarão as marcas simbólicas de uma corporalidade renovada num discurso propriamente estético. (Toledo, 2012, p. 139).

Esse discurso estético amplia ainda mais suas forças dentro das periferias, pois dialoga constantemente com noções de respeito e humildade, essenciais ao contexto coletivo. Forjando assim não só uma estética visual, mas um verdadeiro código de “normas de conduta nas periferias” (Feltran, 2013, p. 49) traçado entre os domínios populares do lazer, a ausência do Estado, a religião e o crime (Feltran, 2013; Biondi, 2010). O que fica evidente na série, onde a caminhada no funk traçada pelo MC Doni, na igreja evangélica pela Ritinha, ou no mundo do crime pelo Nando, são sempre abordadas com dignidade e orgulho de quem corre atrás de seus sonhos para subir na vida.

No entanto, na trama abordada pela série, outras possibilidades de narrativas não parecem abertas, correndo o risco de uma obra importante como esta acabar reificando a caminhada dos jovens periféricos entre funkeiros, pastoras e criminosos. Este terceiro nos parece ainda mais sintomático, visto que é ele quem dialoga minimamente com a ausência das torcidas organizadas, que aqui buscamos destacar.

De camisa de time, bigodin finin e cabelin na régua

Reprodução: Roberto Souza Junior (@fotoperifa).

Ao nos referirmos a torcidas organizadas no cotidiano das periferias, estamos falando bem mais do que as mobilizações em torno dos jogos dos times de futebol, ou do aglomerado em torno de suas sedes (que nem sempre ficam nas quebradas). Mas na capilaridade que o movimento torcedor alcançou atualmente na cidade de São Paulo também com importantes agendas sociais (Souza Junior & Toledo, 2020), fazendo com que, em muitos lugares marginalizados, emergissem pequenos polos das torcidas, e até se transformando em sub-sedes.

Para além disso, a presença maciça dos torcedores organizados como moradores das periferias imprime ao lugar toda uma estética, que em paralelo sobretudo com o rap e o funk, populariza cada vez mais vestimentas de times de futebol, como estilo de vida e também como forma de ostentação. Ou como aponta Toledo (2019, p. 34), os “corpos atléticos extravasariam os limites das práticas esportivas ganhando a moda da rua, vestindo (e ao mesmo tempo desvestindo) gerações que passam a habilitar um conjunto de novas expressões estéticas”.

Não à toa, muitas letras de rap, trap, funk, dentre outros estilos musicais populares, exaltam o uso ostentoso das camisas de time, quase sempre em conjunto masculino do bigode fino e cabelo cortado regularmente, que se popularizou entre a juventude como estar na estica.

“(…) vendo nóis passar de camisa de time / disfarce na bala e camisa de time / bigodin na régua e camisa de time / dinheiro na conta e camisa de time (…)” (Febem, Camisa de time, 2019).

“(…) camisa de time com meu vulgo / vê se pára e repara, esse é meu estilo de vida / se for pra andar trajado, eu vou andar todo dia (…)” (DomLaike e Offlei Sounds, 2021).

“(…) no pique jogador, camisa que o Neymar lançou / olha o favelado que você tirou (…) camisa do Paris, ó nóis elegantão / minha fé me deixou firmão pra qualquer situação (…)” (MC Cebezinho, MC Ryan SP, MC Neguinho da Kaxeta, MC Leozinho ZS, MC PP da VS, Salvador da Rima, 2021).

Como exemplo disso, o Nando é um dos poucos personagens que aparece trajado de camisa de time, fora ele, apenas outros caras também da caminhada do crime usam camisa de futebol, obviamente que sempre de times internacionais a fim de evitar eventuais críticas e associações. Porém, como pesquisadores urbanos nas periferias, sabemos que muito do orgulho e da narrativa estética de nossos interlocutores está associado a suas vestimentas, principalmente as suas camisas de time, ou das torcidas organizadas em questão (Toledo, 2019). O que faz do contexto periférico uma verdadeira colcha de retalhos de camisas de times de futebol, mas que na série deu a entender exatamente o oposto, ao associarem mais uma vez os torcedores trajados unicamente a uma narrativa transgressora, ilegal e mau vista socialmente, como a do mundo do crime.

Mais do que um simples problema representativo, a ausência de personagens trajados com camisas de time só complementa, de uma maneira visual, o vácuo que a série deixa ao não inserir em seu enredo, nem mesmo sutilmente, a atuação de instituições populares como as torcidas organizadas e as escolas de samba. Que, como nossas pesquisas indicam, fazem parte não só desta construção estética das periferias, mas também surgem como alternativas de um caminhar ainda mais amplo, tanto de pertencimento coletivo como de estilos de vida.

Periferia
Reprodução: Roberto Souza Junior (@fotoperifa).

Por isto, aqui discutimos inicialmente, como a própria estética contemporânea da juventude periférica é também construída em meio ao diálogo constante com as torcidas organizadas, e que ganha vida pelas manifestações visuais dessa sociabilidade e estilo de vida comum aos torcedores, que por sua vez também se constroem dentro das próprias periferias.

No próximo texto pretendemos discutir como essa relação entre torcidas organizadas e periferias adquire também outros contornos para além da estética, e cria assim novas possibilidade de vivências e ascensão social da juventude periférica para além do funk (Doni), da religião (Ritinha) e do crime (Nando).

Notas

[1] O rapper BK’ e o rapper e beatmaker JXNV$ falam disso na música Cidade do Pecado (2021): “(…) Hoje andamos com tubarões pra não ser mais alimento deles / derramando as convicções / só o que importa são os peixes / nos sentindo melhor que os outros / por ter mais coisas que os outros / vê que o inimigo ganhou? / a gente se tornou tudo aquilo que sempre odiou (…)”.

[2] Mano Brown trata bastante sobre isso em seu Podcast original Spotify, o “Mano a Mano”, onde entrevista semanalmente uma personalidade famosa e dialoga também sobre si e sua caminhada enquanto MC nos Racionais.

[3] Por corporalidade pensada nos referimos a um conjunto de características que passa a imprimir no próprio corpo mecanismos racionalizados para enfrentamentos, o que denota também uma certa construção viril e impositiva (Toledo, 2012).

Referências

BIONDI, Karina. Junto e misturado: uma etnografia do PCC, São Paulo, Editora Terceiro Nome, 2010.

FELTRAN, G. de S. Sobre anjos e irmãos: cinquenta anos de expressão política “crime” numa tradição musical das periferias. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 56, p. 43-72, jun. 2013

FELTRAN, G. de S. Valor dos pobres: a aposta no dinheiro como mediação para o conflito social contemporâneo. Caderno CRH, Salvador, v. 27, n. 72, p. 495-512, set./dez. 2014.

PIMENTA, Carlos A. M. Torcidas organizadas de futebol: Identidades e identificações, dimensões cotidianas. Revista São Paulo em Perspectiva. São Paulo, p. 122-128, 2000.

SANTOS, Neusa Souza. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

TOLEDO & SOUZA JUNIOR, R. Redes populares de proteção: Torcidas Organizadas de futebol no contexto da pandemia da COVID-19, Ponto Urbe [Online], 26 | 2020. DOI: https://doi.org/10.4000/pontourbe.8706

TEIXEIRA, Rosana da C. Os perigos das paixões: visitando torcidas jovens cariocas. São Paulo: Annablume, 2003.

TOLEDO, Luiz H. Torcidas Organizadas de futebol. Campinas: Autores Associados/Anpocs, 1996.

TOLEDO, Luiz H. A invenção do torcedor de futebol: disputas simbólicas pelos significados de torcer. In: DA COSTA, Márcia R. (org). Futebol espetáculo do século. São Paulo: Musa, 1999

TOLEDO, Luiz Henrique. “Políticas da Corporalidade: Socialidade Torcedora entre 1990-2010”, in L. H. Toledo; J. Malaia; B. Buarque de Holanda; V. Andrade de Melo (orgs.). A Torcida Brasileira. Rio de Janeiro, Sete Letras, 2012.

TOLEDO, Luiz Henrique de. (In)vestindo camisas de futebol: moda esportiva e agência na produção das emoções torcedoras. dObra[s]Revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda. São Paulo, 12(27):31-46, 2019.

WACQUANT, Loic. 2008. As duas faces do gueto. São Paulo: Boitempo.

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Marianna Andrade

Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tem experiência na área da Antropologia e estuda as torcidas organizadas e as relações de gênero no futebol.  Compõe o Grupo de Estudos sobre Futebol dos Estudantes da EFLCH (GEFE) e o LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e Sociabilidade). Contato: [email protected]

roberto souza junior

Doutorando e mestre em Antropologia Social no PPGAS da UFSCar, onde também é bacharel em Ciências Sociais. Pesquisador associado ao LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade). Trabalha, a partir de etnografias urbanas e fotografias, com torcidas organizadas de futebol que são também escolas de samba do carnaval paulistano. E-mail: [email protected]

Como citar

ANDRADE, Marianna C. Barcelos de; SOUZA JUNIOR, Roberto A. P.. As torcidas organizadas e a série Sintonia (parte 1): a juventude e a estética das periferias paulistanas. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 25, 2021.
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