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As torcidas organizadas e a série Sintonia (parte 2): a ascensão social para além do crime, da religião ou do funk

Sintonia
Nando, Doni e Ritinha em cartaz de divulgação da segunda temporada da série Sintonia. Fonte: reprodução Netflix

Esta é a segunda parte do texto sobre torcidas organizadas e a série Sintonia. Na primeira focamos na estética da periferia apresentada na série e problematizamos a ausência das torcidas organizadas (TO’s) nesta construção narrativa e também imagética, por meio da não representação do uso das camisas de time de futebol na estética periférica que, no cotidiano fora da série, constantemente se relaciona com a moda e as formas de se portar e se vestir dos torcedores organizados.

Nesta segunda parte, nosso foco será discutir as possibilidades de ascensão social para além do crime (Nando), da religião (Ritinha) ou do funk (Doni), mais precisamente, debatemos as torcidas organizadas como uma dessas possibilidades de pertencimento e ascensão do jovem periférico.

As quebradas paulistanas entre crime, religião e funk

O contexto periférico abordado na série se divide sobretudo entre as formas de lazer e estilos de vida do funk, os corres e caminhadas do crime, e as práticas religiosas do meio evangélico.[1] O que, como abordamos no texto anterior, coopera não só para a criação de uma estética visual, mas um verdadeiro código de “normas de conduta nas periferias” (Feltran, 2013, p. 49) traçado entre os domínios populares do lazer, a ausência do Estado, a religião e o crime organizado (Feltran, 2013; Biondi, 2010).

Esse viver constante entre fronteiras que se tensionam (Feltran, 2008), ao mesmo tempo separando e interligando as coisas entre crime, religião e funk, fazem emergir também uma forma de viver própria aos periféricos, uma certa “sociabilidade popular” (Toledo & Souza Junior, 2020). Ou seja, um conjunto de práticas cotidianas que independem da atuação do Estado ou de normatividades e regras, pois se constrói justamente na informalidade e na maleabilidade do se (sobre)viver na quebrada. O que também é bastante comum entre torcedores organizados e sambistas, pois também vivem nas periferias e às margens das amarras estatais (Toledo & Souza Junior, 2020).

Apesar da construção do contexto periférico sob esta tríade (funk, religião e crime) ser muito bem construída em Sintonia, de uma forma a valorizar e visibilizar o orgulho de cada um dos personagens nessas caminhadas, ela nos parece fechada demais apenas nesses nichos. O que aqui buscamos problematizar.

Tem que vencê na vida: a ascensão social nas quebradas

Na série os três amigos possuem trajetórias um tanto distintas, mas um elo nos parece comum a todos eles, projetar seus sonhos e corres visando a ascensão social de uma caminhada melhor para si e para os seus. Seja como MC do funk, pastora da igreja evangélica da quebrada, ou chefão da lojinha e grandão no mundo do crime. E a série faz muito bem esta construção narrativa, os três personagens apresentam traços complexos de conflitos internos, histórias de vida e subjetividades, coisas que costumam aparecer pouco nas telinhas quando o assunto é juventude preta e periférica.

No entanto, a ausência de outros fios narrativos ou da presença de outras possibilidades contextuais nos acende um certo alerta, afinal, o caminhar periférico é muito mais múltiplo do que as essencializações que recaem sobre ele, e é nesse contexto que para nós entraria também as torcidas organizadas, como uma forma de pertencimento coletivo e ascensão social para além da tríade proposta pela série.

Para muitos de nossos interlocutores, torcedoras e torcedores organizados, a ida e consequentemente a associação a torcida representa bem mais do que um caminho no qual percorrerem apenas para torcer para os seus times. Para muitos deles as TO’s se tornaram um caminho alternativo para a partilha de vivências de lazer comunitário, mas também de pertencimento coletivo e estilo de vida, inclusive como um caminho de ascensão social e, por vezes, até profissional.

Diferente do que se vê na mídia, estar numa torcida organizada é também participar de todo um plano de carreira do torcer, onde muitas vezes quanto mais se faz e se aprende, mais se sobe na hierarquia interna e passa a ser admirado coletivamente. Seja na trajetória de bandeirar (ser um dos responsáveis por manusear as bandeiras da torcida), ou de batucar instrumentos na bateria da torcida (e por vezes da escola de samba, se esse for o caso), de adentrar as esferas administrativas e decisórias, participar das ações sociais e das atividades abertas a toda a comunidade (futsal, boxe, festas, ensaios de carnaval, etc.).

Participar de cada uma dessas coisas são formas de crescer dentro da torcida e em meio a comunidade, o que muitas vezes, sobretudo para pessoas racializadas das periferias, não é tão comum assim de se encontrar fora de ajuntamentos populares e autônomos como as TO’s no interior das comunidades.

Priferia
Foto: Roberto Souza Junior/@fotoperifa
Torcida
Foto: Roberto Souza Junior (@fotoperifa)

 

 

 

 

 

 

 

 

Enquanto para o senso comum a entrada às TO’s parece representar uma certa rebeldia juvenil, um desvio moral ou mera forma de lazer e alienação, nossas pesquisas apontam exatamente para o movimento oposto. Percebemos que para os integrantes, sobretudo periféricos, estar numa torcida organizada é uma caminhada séria, com possibilidades abertas a outras formas de convívio e conduta, que caminham paralelamente associadas a responsabilidades e imposições, que não raro passa de geração em geração, como uma espécie de herança familiar.

Futebol
Foto: Roberto Souza Junior (@fotoperifa)
Torcida
Foto: Roberto Souza Junior (@fotoperifa)

Caminho este que costuma começar mais cedo do que se pensa, muitas mães, torcedoras organizadas, optam por exemplo, por criarem seus filhos na torcida, pois segundo elas, “lá dentro” é muito melhor do que “nas ruas”, pois eles crescerão com senso de coletividade, disciplina e trabalho, princípios comuns às práticas cotidianas no interior das TO’s, que se tornam, portanto, uma alternativa de construção da pessoa periférica.

Torcida
Foto: Roberto Souza Junior (@fotoperifa)
Torcida
Foto: Roberto Souza Junior (@fotoperifa)

Essa vida em busca da ascensão social não é uma exclusividade dos personagens da série ou dos torcedores organizados. Neusa Santos Souza (2021) nos demonstra como esse caminho de ascender socialmente, para pretos e periféricos, não é uma escolha ou um sonho, mas sim uma necessidade que os atravessa. Ter que vencê na vida é a única saída para os periféricos numa sociedade classista e estruturalmente racista como o Brasil.

A autora demonstra como historicamente em nosso contexto desigual essa trajetória de ascensão social esteve, e de certa forma ainda está atrelado a um ideal de vida branco, como por exemplo, ter uma carreira de sucesso numa grande empresa e morar no centro da cidade. Em resumo: na maioria das vezes a caminhada de ascensão social imposta, é também se afastar ao máximo de sua identidade racial e periférica.[2]

E é exatamente nesse movimento que Sintonia nos parece apontar para possibilidade outras, que permitem ao mesmo tempo subir na vida e se manter em si mesmo como jovem periférico, seja por meio do funk, da religião ou do crime. No entanto, colocamos também as torcidas organizadas como um desses caminhos marginalizados encontrados pelos jovens periféricos de crescer na vida sendo eles mesmos. Caminho este que nos parece ainda mais coletivo e abrangente do que os abordados na trama, afinal, ser MC, pastora ou chefe do morro talvez seja um caminho mais excepcional do que um padrão periférico.

Os perigos de uma sintonia neoliberal

A ideia transmitida pela série, em que cada um dos três personagens alcançam seu progresso em caminhadas e carreiras estritamente individuais, é algo bastante comum ao imaginário que se tem das pessoas racializadas e periféricas. O que de certa forma também atravessa a própria produção cultural nas periferias que, também sob o guarda-chuva neoliberal de culto as individualidades, propaga a ideia de “jogador caro”, ou seja, uma pessoa (in)vestida de agência para ser protagonista, como um jogador de futebol de sua própria história a jogar esse jogo da desigualdade contra tudo e todos.

“(…) por todas as quebrada estampa o brasão preto e branco/ cada corre na rua eu me sinto dentro de campo/ atacante do asfalto sem ter tempo pra ser banco/ e pelo meu time eu luto, sofro, choro e canto”. (Tropa do Corinthians. Dfideliz & Jé Santiago, 2021).

No entanto, por mais que essa busca por ascensão social seja de fato, na maioria das vezes, um caminho que se trilha sozinho, é inegável perceber que os corres periféricos são infinitamente mais múltiplos e coletivos do que a mera visão neoliberal de “a favela venceu” quando um ou alguns conseguem ascender social e economicamente.

E talvez seja aqui que mora o maior perigo da série Sintonia. Mais do que a não representação de torcidas organizadas e escolas de samba em seu enredo narrativo, a série sequer demonstrou a existência de projetos comunitários e coletivos que, como sabemos, são fundamentais para ampliar os caminhos e alternativas para uma vida desigual trilhada sob a ausência do Estado e de políticas públicas.

Ao focar, apenas, no progresso individual do Nando, do Doni e da Ritinha, a série acabou por contribuir com a essencialização neoliberal de que para pretos e pobres periféricos só se pode vencer sozinho.

Mas, como diz Baco Exu do Blues (2022): “Quem vive na margem não se afoga nessa água”, e diferente das trajetórias neoliberais do viver fora das periferias, a vida na quebrada impõe desde muito cedo um senso de coletividade e respeito pelo seu lugar no mundo, o que, como vimos no texto anterior, tem se traduzido em orgulho racial, cultural e também socioespacial. Fazendo com que quando se ascende social e economicamente, o lembrar de quem se é e de onde se veio seja quase sempre o primeiro movimento.

“(…) progresso, vitória, sucesso / o gueto foi o berço de onde eu vim / por isso eu represento 100% a quebrada onde eu nasci (…)”. (Quebradas. MC Paulin da capital; MC Lipi & DJ GM, 2021).

Notas

[1] O que, vale destacar, não deixa de ser um caminho perigoso, visto que as periferias são também atravessadas por uma multiplicidade religiosa muito maior do que sugere a série. Inclusive a constante relação entre religiões ocidentais, como o catolicismo e o cristianismo, com religiões de matriz africana é bastante comum e é também uma característica da ancestralidade negra presente nas periferias.

[2] “Numa sociedade de classes em que os lugares de poder e tomada de decisão são ocupados por brancos, o negro que pretende ascender lança mão de uma identidade calcada em emblemas brancos, na tentativa de ultrapassar os obstáculos advindos do fato de ter nascido negro. Essa identidade é contraditória; ao mesmo tempo que serve de aval para o ingresso nos lugares de prestígio e poder, o coloca em conflito com sua historicidade, dado que se vê obrigado a negar o passado e o presente: o passado no que concerne à tradição e cultura negras e o presente no que tange à experiência da discriminação racial”. (SANTOS, 2021, p. 112-113).

Referências

BIONDI, Karina. Junto e misturado: uma etnografia do PCC, São Paulo, Editora Terceiro Nome, 2010.

FELTRAN, Gabriel de Santis. Fronteiras de tensão: Um estudo sobre a política e violência nas periferias de São Paulo. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/Unicamp, 2008.

FELTRAN, Gabriel de Santis. Sobre anjos e irmãos: cinquenta anos de expressão política “crime” numa tradição musical das periferias. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 56, p. 43-72, jun. 2013.

SANTOS, Neusa Souza. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

TOLEDO, Luiz Henrique de & SOUZA JUNIOR, Roberto. Redes populares de proteção: Torcidas Organizadas de futebol no contexto da pandemia da COVID-19, Ponto Urbe [Online], 26 | 2020. DOI: https://doi.org/10.4000/pontourbe.8706.

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Marianna Andrade

Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tem experiência na área da Antropologia e estuda as torcidas organizadas e as relações de gênero no futebol.  Compõe o Grupo de Estudos sobre Futebol dos Estudantes da EFLCH (GEFE) e o LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e Sociabilidade). Contato: [email protected]

roberto souza junior

Doutorando e mestre em Antropologia Social no PPGAS da UFSCar, onde também é bacharel em Ciências Sociais. Pesquisador associado ao LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade). Trabalha, a partir de etnografias urbanas e fotografias, com torcidas organizadas de futebol que são também escolas de samba do carnaval paulistano. E-mail: [email protected]

Como citar

ANDRADE, Marianna C. Barcelos de; SOUZA JUNIOR, Roberto A. P.. As torcidas organizadas e a série Sintonia (parte 2): a ascensão social para além do crime, da religião ou do funk. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 27, 2022.
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