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Às vezes mocinho, às vezes vilão: o acaso do jogo também deixa suas lições

Gustavo Dal'Bó Pelegrini 16 de setembro de 2022

Foco total no Brasileirão.

Com a eliminação para o Athlético na semifinal da Copa Libertadores, as atenções palmeirenses se voltam totalmente para a competição nacional. A queda veio em um jogo difícil, com polêmicas de arbitragem e um roteiro que se mostrava ser mais um dia de grande superação, mas acabou em grande decepção para toda a torcida palestrina.

A passionalidade do torcedor tende a transformar qualquer derrota em verdadeira caça às bruxas, da mesma forma que as vitórias levam a crer que tudo se encontra na mais absoluta perfeição. Nem oito e nem oitenta, nem ao céu nem ao inferno: assim as análises devem se iniciar, colocando em perspectiva não só os resultados alcançados, mas também o que leva a tais resultados e as consequências dos mesmos. Isso tudo porque o futebol é um esporte altamente episódico.

O ex-treinador Carlos Alberto Parreira afirmou certa vez que o gol é apenas um detalhe. Sem dúvidas o mais importante dos detalhes. Mas ainda assim, um detalhe. Quase um acidente. Existe estranhamento nessa frase, mas existe também uma ponta de razão. E são esses acidentes (ou a falta desses acidentes) que decidem jogos e títulos.

A caoticidade de um esporte disputado com os pés no qual 22 jogadores interagem entre si de forma cooperativa e opositiva ao mesmo tempo faz com que todas as ações tenham em si mesmas uma certa dose de aleatoriedade. Não é sorte, e sim um pouco de acaso. É um pouco de acaso uma bola ser mal cortada pelo zagueiro e sobrar limpa, rasteira, quase na linha da pequena área para Scarpa finalizar com sua perna boa. É um pouco de acaso um lateral arremessado na área acabar em gol de cabeça de costas de Goméz. É um pouco de acaso um chute da entrada da área desviar em Piquerez e, podendo ir para qualquer direção, morrer no fundo das redes de Wéverton. Em todos os lances coexistem o mérito e o acaso. Às vezes para uns, às vezes para outros.

Nesses dois últimos anos, mérito e acaso andaram de mãos dados conosco na competição continental. Seja nas semifinais contra River Plate e Atlético MG ou nas finais contra Santos e Flamengo. Todos foram jogos nos quais o Palmeiras demonstrou grande competência, fez grandes exibições, e contou com uma pequena ajuda do acaso para conquistar as vitórias e classificações. O mesmo aconteceu nesse ano, novamente contra o Atlético MG, agora nas quartas de final. E quase aconteceu também na semifinal contra o Athlético. Mas num certo momento, o acaso decidiu mudar de lado e abraçar a competência athleticana.

Palmeiras Rony
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Vida que segue pois, apesar da derrota, temos muito mais a celebrar na competição continental do que a lamentar. A rotina de títulos dos dois últimos anos talvez faça parecer a conquista mais fácil do que realmente é. O Palmeiras disputou seis finais de Libertadores em sua história: duas nos anos 1960, duas entre 1999 e 2000 e duas com Abel Ferreira. Chegou às semifinais 10 vezes: quatro delas nos últimos cinco anos. A título de comparação, o Flamengo tem apenas quatro finais e seis semifinais; o Santos, seis finais e nove semis; o São Paulo, as mesmas 6 finais e 10 semis que nós; o Corinthians, uma única final e duas semis em sua história.

Mas toda derrota e eliminação também tem que deixar lições. A primeira, sem dúvidas, é quanto às numerosas expulsões que aconteceram nesse mata-mata da Libertadores. As entradas de Danilo nas quartas de final e de Murilo na semi são totalmente desproporcionais e não podem acontecer de forma alguma, apesar de entendermos que de vez em quando elas aconteçam. A expulsão de Scarpa, também nas quartas, foi mais acidental do que outra coisa. De qualquer forma, são três expulsões em dois jogos em casa na competição, em situações favoráveis ou, no mínimo, equilibradas do confronto. Episódios que moldam a partida e fazem total diferença na classificação ou não. A cabeça parece estar menos fria do que precisa e costuma estar.

A segunda é quanto ao elenco, que continua sendo muito bom, mas que parece talvez ser menos bom do que já foi. É compreensível que o esforço maior seja na manutenção da base da equipe titular, valorizando os jogadores multicampeões que já se encontram na equipe. Porém, a falta de soluções no banco de reservas é um fator limitante nas pretensões de disputa de títulos de uma equipe que enfrenta, além de adversários qualificados, um calendário insano.

Ao recorrermos, precisando da vitória, a jogadores como Atuesta, Wesley e Merentiel, vemos como a estratégia de mercado da equipe tem suas falhas claras. Os três jogadores citados tem suas qualidades e bom potencial, assim como Flaco Lopez e outros nomes do elenco, mas são jogadores ainda em desenvolvimento, seja por idade ou adaptação, e que dificilmente podem ser colocados para resolver os problemas que a equipe tem hoje. Trazer jogadores pensando em desenvolvê-los e valorizá-los para obter retorno técnico e financeiro é uma estratégia importante e correta. Mas a equipe precisa também trazer soluções, inclusive com jogadores mais experientes, algo que foge do perfil atual do clube.

No fim das contas, a participação palmeirense na Libertadores deve ser vista como altamente positiva, mesmo sem chegarmos à grande final. O sarrafo da equipe hoje é muito alto, fruto do trabalho mais do que competente da equipe técnica e desses mesmos jogadores, o que faz com que as cobranças sejam, também, muito altas. Com a vantagem que temos no Brasileirão e o foco exclusivo na competição nacional, as expectativas são altas para a busca do Hendeca, coroando, quem sabe, com o terceiro título no ano, mais uma temporada histórica.

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Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Professor de Educação Física e mestrando na área de Educação Física e Sociedade. E um pouco palmeirense. @camisa012

Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó. Às vezes mocinho, às vezes vilão: o acaso do jogo também deixa suas lições. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 18, 2022.
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