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Até quando carreiras esportivas serão edificadas sobre o silenciamento e sofrimento de mulheres?

Casos de violência contra mulheres que se envolvem afetivo-sexualmente com jogadores de futebol frequentemente tornam-se ponto de discussões judicializadas e ganham notoriedade. Partindo da compreensão de que esse é um assunto complexo, pensamos em contribuir com a discussão refletindo sobre temas que têm sido colocados em pauta sempre que novos casos (ou fatos novos de casos antigos) aparecem.

De antemão, vale dizer que, especificamos a violência contra as mulheres, não por ignorarmos que existam outras populações atingidas pela violência no futebol – como, por exemplo, pessoas negras e/ou pertencentes à comunidade LGBT –, mas pelo fato das mulheres serem alvo de situações que, com maior frequência, viram casos de polícia e vão parar na justiça. Dito isso, relembramos cinco casos de notoriedade, que recentemente estiveram sob os holofotes, ou que ressurgem de tempos em tempos por estarem judicializados e por sinalizarem atos extremos que compõem um conjunto recorrente de situações de violência contra as mulheres.

A partir deles, questionamos: por que é tão difícil reconhecer a dor de uma mulher violentada? Como a luta por justiça e pela quebra de um sistema estrutural de violência, se choca com os direitos à ressocialização e à presunção de inocência? Qual é a relevância dos atores sociais na forma como lidamos com questões dessa natureza? 

Não temos a pretensão de oferecer uma resposta simples para acontecimentos complexos, mas esse texto é um convite para pensarmos as relações de poder que nos colocam diante de acontecimentos como esses, de violência contra mulheres.

As situações em questão

O jogador – hoje prestigiado técnico – envolvido em uma situação de estupro de uma adolescente de 13 anos. Juntamente com dois amigos, a garota havia ido até o quarto do hotel da delegação da equipe do então jogador, para pedir souvenirs aos atletas vindos do exterior. Os brasileiros expulsaram os garotos do quarto e cometeram atos de violência sexual contra a adolescente e, como resultado, ficaram presos por cerca de um mês na Suíça. No ano de 1989, tiveram a condenação consumada pela justiça local. Apesar disso, os jogadores nunca chegaram a cumprir a pena e as condenações acabaram prescrevendo em 2004.

O goleiro que mandou matar a amante com a qual teve um filho, já há mais de dez anos, condenado a 22 anos de prisão. Com parte da pena cumprida em regime semiaberto, esse caso volta e meia vem à tona, em virtude das tentativas mais ou menos bem sucedidas do autor de retomar sua carreira como goleiro. Defendido por uns, execrado por outros, e por outros ainda reconhecido no valor de sua imagem, ainda que desmonetizada pelo ato brutal.

O jogador que usou o corpo de uma moça inconsciente para obter prazer e não reconhece nisso mal nenhum, inclusive dizendo isso em rede nacional num programa de domingo de uma grande emissora, como se o eventual interesse de uma mulher justificasse qualquer ato sem o seu consentimento. Apesar do caso ter ocorrido em 2013, poucos foram os empecilhos para que esse homem desse sequência à sua vida como atleta. Apenas mais recentemente, as pressões vindas de determinadas parcelas da sociedade, principalmente de mulheres torcedoras, têm reverberado nas decisões dos clubes, sobretudo pelo temor de perder patrocinadores ao firmar contratos com esse jogador.

O caso dos jovens que foram expulsos das categorias de base de um notório clube portoalegrense, por um deles assumir em um vídeo – e o outro concordar – que drogaram e mantiveram relações sexuais com uma mulher. Ato de expulsão que eximiu o clube de lidar com as questões educativas pelas quais também são responsáveis na formação desses jovens.

Recentemente, a denúncia de assédio sexual contra um dirigente esportivo. Alçado ao cargo mais alto de uma instituição importante no futebol brasileiro, ele se sentia à vontade  fazendo insinuações e perguntas de cunho sexual a uma funcionária, que respondia constrangida às investidas e buscava, de forma explícita, cortar os assuntos com esse teor. Denunciado, o autor não se furtou ao padrão de negar os fatos e denominar de “brincadeiras” as violências documentadas em áudios gravados pela vítima. Entre seus pares e também em meio aos atletas homens que representam a confederação até então comandada por esse dirigente, nenhuma palavra específica sobre o assunto. No campo das ações tomadas, o interesse principal e manifesto de fazer algo para acalmar os patrocinadores e garantir a continuidade do negócio milionário.

Essas histórias estão nominadas em veículos de comunicação e vocês, leitores do Ludopédio, devem saber algo sobre as pessoas envolvidas. Não nos interessa aqui reverberar os seus nomes. Distantes no tempo, esses três casos não mantêm uma relação causal entre si. Mas têm alguns pontos em comum.

Rogério Cabloco
Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Fotos Públicas

Reflexões necessárias sobre o futebol e a violência contra as mulheres

Para começar, é preciso falar sobre o meio em que estão inseridos os atores que protagonizaram cada caso: o futebol. Esfera que demarca formas de vivenciar o lazer e que permeia as subjetividades de milhões de brasileiros e brasileiras, a história desse esporte em nosso país foi construída assentada sobre estruturas patriarcais, de afirmação e reprodução de uma hegemonia masculina e branca. Não por acaso, temos no jogo disputado por homens o predomínio dos recursos financeiros, da exposição midiática e do prestígio dedicados à modalidade.

Guardando proximidades com aquilo que ocorre de maneira estrutural na sociedade brasileira, na medida em que a reprodução do poder e dos privilégios masculinos – sobretudo quando atrelados à branquitude e à heterossexulidade – se fazem presentes em diferentes espaços de convívio social, o futebol tem sido um artefato que possibilita a manifestação, a visibilidade e a discussão de problemas atrelados a essas condicionantes. Os casos mencionados são, assim, a materialização de efeitos graves dessa constatação, culminando em ocorrências bastante presentes na vida social brasileira: a violência contra as mulheres.

Ao olharmos para esse fato, nos deparamos com características preocupantes que permeiam as narrativas, não apenas dos protagonistas dos casos mencionados, mas de autores de atos violentos contra mulheres em diferentes espaços sociais. Falamos, aqui, da negação e do silenciamento dos acontecimentos. Não importa se há evidências claras do ocorrido, se houve condenação ou até mesmo o transcurso atual de pena, a admissão da responsabilidade é fato quase que inexistente em casos do tipo. No futebol, onde os sujeitos envolvidos em atitudes dessa natureza podem se apresentar como homens brancos (ainda que não apenas), ricos, idolatrados e bem sucedidos, é ainda maior a dificuldade de assumir os atos e, eventualmente, tomar atitudes que demonstrem compromisso com a reparação do erro, para além das medidas penais.

Nesse contexto, pouco importa a dor da mulher violentada, de seus familiares e de várias outras mulheres que lutam diariamente pela reversão desse quadro estrutural. A defesa da reputação masculina parece falar mais alto, em uma sociedade onde homens predominam na ocupação de cargos de poder. Mesmo nas vezes em que há a condenação, a manutenção do prestígio desses sujeitos não é algo incomum de acontecer. Consequentemente, emergem sentimentos de inconformismo com a imagem de que, ainda que os preceitos legais sejam aplicados, isso parece ser insuficiente para reverter o quadro sistêmico de subjugação das mulheres.

Nos deparamos, então, com questões relativas às punições capazes de fazer justiça aos ocorridos. Diante de uma certa legitimidade social concedida aos homens para o exercício de força física e simbólica, qual deveria ser a atitude do Estado para deter a violência contra as mulheres, no que se refere às corrigendas destinadas aos seus agressores? Pensando especificamente nos casos que norteiam a relação desse texto com o futebol, como defender a necessidade de combater as violências praticadas por pessoas que possuem dinheiro e prestígio social, sem nos tornarmos, com isso, uma sociedade promotora de eternas caçadas a indivíduos que cometeram faltas – por mais graves que sejam – em algum momento de suas vidas?

Ao buscar respostas para essas indagações, lidamos com temas importantes e delicados. De um lado, encontramos a urgência de emergir contra as violências sistematicamente impetradas contra as mulheres – assunto sobre o qual nos dedicamos no início dessa discussão. Por outro, esbarramos no risco de contribuir para a ampliação do estigma negativo que recai sobre os detentos no Brasil – sujeitos que, em sua maioria, são retirados do convívio social e submetidos a condições subumanas de vida. Sobre essa segunda colocação, podemos nos perguntar ainda se, ao evocar tais questões, estamos falando motivados por uma preocupação genuína com todo o contingente carcerário – predominantemente composto por homens pobres, jovens e negros -, ou se fazemos ponderações a partir de afeições e identificações com ídolos ou figuras importantes do esporte.

Como em tantos outros assuntos, não esperamos que haja uma homogeneidade que seja capaz de representar, por si só, as motivações e os posicionamentos de cada pessoa que se coloca a falar sobre esses assuntos. Ao focalizar essas questões, tentamos abrir caminhos para expandir nossos próprios pensamentos, a partir de reflexões pautadas em discursos enunciados por diferentes atores sociais.

Nesse sentido, é evidente que existem conveniências e maior propensão em manifestar posicionamentos a favor da presunção de inocência de pessoas célebres ou em cargos de poder, quando comparamos esse cenário com as opiniões destinadas aos delitos cometidos, ou supostamente cometidos, por pessoas que não detêm essas características. Chama-nos a atenção, por exemplo, como grupos e entidades do meio esportivo, que habitualmente dispensam poucos caracteres para falar da violência contra a mulher, geralmente em ações de marketing que acontecem algumas vezes por ano, prontamente se posicionam em longas linhas para levantar a presunção da inocência do homem com prestígio, acusado da violência.

Nesse sentido, cabe o questionamento: a presunção da inocência de pessoas célebres ou em cargos de poder, é a mesma dispensada aos moradores em situação de rua que estão próximos ao local onde alguma propriedade foi depredada?

Entre o abolicionismo penal, o punitivismo, a impunidade e a banalização da violência contra as mulheres

Nas discussões desses casos, poucos são os discursos que os levam para fora dos acontecimentos, que se conectam com questões mais amplas sobre a violência contra a mulher ou com as discussões relacionadas ao abolicionismo penal, que em seu entendimento imediato justificariam a defesa da liberdade e da manutenção do emprego dos condenados, sem isentá-los da responsabilidade pela violência.

Toda vez que o caso do goleiro que mandou matar a amante é evocado, questões sobre a presunção de sua inocência, e abolicionismo penal também emergem. A todo movimento de Bruno, a ausência de objetividade das provas é oportunamente evocada para justificar qualquer situação que acontece com o mesmo fora do cárcere. Clubes que não estão nas grandes vitrines do futebol brasileiro o contratam para atrair mídia e investimentos para as suas equipes explorando a sua (má)fama.

O tema da ressocialização de pessoas presas, que ganha adeptos tão fervorosos quando tratando-se do goleiro citado, raramente reverbera em situações menos célebres. De forma similar, a presunção da inocência do dirigente, rapidamente defendida em Minas Gerais, aponta para a inconsistência das provas contra uma pessoa que, aos olhos dos pares, é um exemplo de bom gestor. O técnico a essa altura do campeonato já teria aprendido com o que fez e não mereceria mais ser punido pelos seus atos de mais de trinta anos.

Sem dúvidas, a ressocialização, a presunção da inocência, a ineficiência e a perpetuação da violência através do sistema penal são pontos de discussão importantes. A questão é que os debates gerados nas situações envolvendo pessoas famosas pouco reverberam na vida de pessoas privadas de liberdade anônimas. Pessoas são punidas e absolvidas, inclusive no “tribunal do Facebook”, por seu status, pelo lugar de poder que ocupam, por uma suposta má ou boa essência, e nesse jogo de espetacularização das punições, as mulheres violentadas (sexualmente ou de outras formas) quando não culpabilizadas pelo o que lhes aconteceu, acabam sendo esquecidas na história, junto com as violências sofridas. A pessoa que é agredida, violentada, tem essa violência repetida inúmeras vezes até conseguir (quando consegue) o reconhecimento do seu sofrimento.

Em comum, a não responsabilização pelo assédio, a negação do sofrimento do outro, quando não a imputação de que a mulher precisa estar sempre decidida e racionalizando o que faz, enquanto aos homens cabe confusão, o não saber o que está fazendo, a falta de intencionalidade. Tratadas muitas vezes como exceção, a violência contra a mulher é fruto do próprio curso da normalidade que educa homens como donos dos corpos alheios. Já a dor da mulher não pode “macular” o trabalho de um homem – sobretudo quando este é branco.

Sem a intenção de entender ou de responsabilizarem-se pelas violências arcaicas que perpetuam, esses homens, por vezes, sentem-se perseguidos por uma parcela da sociedade que aponta para a questão. Ocupam eles mesmos um lugar de vítima das circunstâncias, de imaturidade, da falta de consciência que cabe sempre ao homem branco e/ou rico, o lugar de eterno aprendiz que é negado aos jovens negros e/ou pobres na discussão da maioridade penal.

A solução é prender todo mundo? Até quando nomes e patentes serão mais respeitados do que o sofrimento? Não sabemos. Só podemos contribuir um pouco em fazer pensar essas questões.

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Marina de Mattos Dantas

Psicóloga (CRP 04/28.914). Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP (com estágio pós-doutoral em Estudos do Lazer na UFMG) e mestre em Psicologia Social pela UERJ. Professora substituta no Departamento de Fundamentos da Educação na Universidade Federal do Piauí e no Instituto de Educação Continuada da PUC Minas. Pesquisadora no Grupo da Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT/UFMG) e no Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social do Esporte (GEPSE/UFMG). Produtora  no Programa Óbvio Ululante na Rádio UFMG Educativa.

Mauro Lúcio Maciel Júnior

Bacharel em Educação Física - UFMG; Mestrando em Estudos do Lazer - UFMG; Membro do GEFuT - UFMG; Membro do Oricolé - UFMG; Editor Júnior da Revista Licere - UFMG.

Como citar

DANTAS, Marina de Mattos; MACIEL JúNIOR, Mauro Lúcio. Até quando carreiras esportivas serão edificadas sobre o silenciamento e sofrimento de mulheres?. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 34, 2021.
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