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Atleta intercultural

José Paulo Florenzano 11 de agosto de 2022

Em janeiro de 1988, data de nascimento de Nadia Nadim, as forças de ocupação da URSS no Afeganistão emitiam sinais de esgotamento, prenunciando o fim próximo da aventura imperialista. De fato, pouco depois elas empreendiam o caminho de volta, vencidas e humilhadas, restituindo ao país da Ásia Central o direito à autodeterminação.[1] Mas nem bem as tropas soviéticas bateram em retirada, os grupos rebeldes que haviam combatido pela emancipação política mergulharam o Afeganistão em uma brutal guerra civil. Em setembro de 1996, por fim,  o grupo extremista Talibã adentrava a capital, Cabul, inaugurando uma nova era de opressão, refletida, em especial, na rígida segregação imposta às mulheres, excluídas doravante dos postos de trabalho, das instituições de ensino e das práticas de esporte.

Determinado a depurar a vida social de todos os aspectos maléficos associados ao Ocidente, o Talibã decretava a proibição geral da prática do futebol.[2] A bola, dessa maneira, tornava-se um objeto interdito, revestido do poder mágico de desencaminhar as pessoas que se atreviam a manter contato com ela, notadamente, as mulheres. Foi nesse cenário que Nadia Nadim, filha de um general do Exército do antigo regime do Afeganistão, nascida na cidade de Herat, mas vivendo à época na capital, desfrutava, sem o saber, da transgressão representada pelo singelo ato de correr atrás de uma bola de futebol no jardim de casa, espaço protegido pelos muros que circundavam a residência da família, fora do alcance da vigilância exercida pelos funcionários do Ministério do Vício e da Virtude. “Ninguém podia nos ver jogando”, recordava Nadia Nadim, evocando as imagens de uma infância que nunca envelhecia, pois que guardava as lembranças do pai, admirador do esporte, com quem ela ensaiava os primeiros contatos com a bola.[3]    

O pai, porém, viria a ser morto no contexto do regime teocrático do Talibã, em 2000, em circunstâncias jamais devidamente esclarecidas. Sua morte deixava a esposa, Hamida, viúva com cinco filhas pequenas para cuidar em um contexto extremamente adverso para as mulheres. Conforme relembra Nadia Nadim: “Não havia escola nem trabalho para nós”. A rigor, elas não podiam sequer atravessar a rua sem contar com a presença de um membro masculino da família, cabendo à mãe, ademais, a obrigatoriedade do uso da burca. “Nossa vida estava caindo aos pedaços”.[4]

Contatos e recursos foram então mobilizados para levar a família para fora do país. A rota de fuga aberta por contrabandistas a quem a mãe recorrera para tirá-las do país possuía como destino a cidade de Karachi, no Paquistão. Em seguida, contando com passaportes falsificados, elas viajaram de avião para Milão. A última etapa previa uma viagem arriscada em um caminhão que deveria transportá-las para a cidade de Londres, na Inglaterra. Mas em vez disso, foram levadas para a cidade de Randers, na Dinamarca. Como ocorria com a maioria dos solicitantes de asilo, elas ficaram alojadas no campo de refugiados de Sandholm, um antigo quartel-general localizado a meia hora ao norte de Copenhague. Depois de permanecerem ali por algumas semanas, foram transferidas em maio de 2000 para outro centro de acolhimento, Visse, situado nos arredores da cidade de Aalborg, situada mais ao norte da capital dinamarquesa.[5]

Nadia Nadim
Fonte: reprodução

Ao lado do novo centro para refugiados, havia um clube de futebol denominado Gug onde também atuavam as meninas. Nadia Nadim, então com 11 anos de idade, as observava atentamente: “Foi aí que me apaixonei pelo jogo”.[6] Por essa ocasião ela teve a oportunidade de disputar o primeiro torneio de futebol, usando uma camisa que trazia a inscrição “Visse”, referência ao centro de acolhimento, e o número 9, escolhido por ela devido “à imagem do brasileiro Ronaldo”, o “jogador preferido” da então adolescente afegã.[7]  A prática do futebol revestia-se de múltiplos significados. Ela a conduzia ao passado no qual residia a memória das brincadeiras intramuros com a família, ao mesmo tempo em que descortinava no horizonte as possibilidades de realização pessoal, constituindo-se, além disso, em um ritual de integração na nova sociedade: “O futebol me salvou de ser uma pobre garota de fora e me fez ser aceita”. Mas, como ela própria revelaria em uma entrevista, pagando o preço de uma dura discriminação: “As crianças me chamavam de Perker, o equivalente dinamarquês de Paki, no pátio da escola e no campo de futebol”.[8]

Ao expor publicamente os insultos raciais que lhe eram dirigidos no contexto de sua inserção na sociedade de destino, Nadia Nadim foi acusada de ingratidão e duramente cobrada em mensagens de teor xenófobo nas redes sociais: “Envie-me o número de sua conta bancária para que eu possa enviar o dinheiro para o seu voo para casa”.[9] No livro biográfico ela adicionava novos episódios de racismo sofridos na escola em que se achava matriculada: “Vá para casa, macaca!” [10]  Não obstante as manifestações de intolerância, ela viria a se tornar a primeira atleta naturalizada a disputar uma partida oficial pela Seleção da Dinamarca (considerando-se também a modalidade masculina). Atleta intercultural, afegã-dinamarquesa, Nadia Nadim tornar-se-ia uma figura de destaque na modalidade feminina do jogo, com passagens pelo Portland Thorns (2016), Manchester City (2018) e Paris Saint-Germain (2019). Referência dentro de campo, ela também se destacava como modelo de resiliência para a população submetida ao deslocamento forçado.

Na condição de “embaixadora” do Conselho Dinamarquês de Refugiados, Nadia Nadim esteve no centro de acolhimento de Kakuma, no noroeste do Quênia, para onde africanos de várias partes do continente se dirigiam à procura de abrigo, fugindo de conflitos armados, guerras civis ou desastres ambientais. Instalado em 1992, o local reunia à época da visita cerca de duzentas mil pessoas. Ao entrar em campo para celebrar a fundação da equipe feminina do Kakuma Stars, Nadia Nadim completava um ciclo. Recém-formada pela Universidade de Aarhus, ela pretende exercer a medicina em favor de meninas e mulheres que buscam escapar dos regimes de terror que não cessam de renascer e se multiplicar pelo mundo, como ocorre mais uma vez no Afeganistão:

Na verdade, sou a imagem de tudo o que o Talibã não quer que as mulheres sejam.[11]

Atleta intercultural, Nadia Nadim teve de cruzar as fronteiras físicas das comunidades imaginadas; contornar as barreiras simbólicas das identidades nacionais; transgredir os interditos que lhe foram impostos por fanáticos religiosos e extremistas de direita, para se autoconstituir como uma mulher economicamente emancipada, profissionalmente realizada e politicamente engajada, deslocando-se continuamente na luta pelos direitos de imigrantes e refugiados.         


Notas

[1] As tropa da então URSS invadiram o Afeganistão em dezembro de 1979, no contexto da Guerra Fria, retirando-se em definitivo do país em fevereiro de 1989. Cf. Hobsbawm, Eric. “Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991)”. São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p.234.

[2] Conforme observa Nadia Nadim, os dirigentes do Talibã eram “imprevisíveis”. Com efeito, ao longo dos anos, a proibição do jogo viria a ser abrandada, mas, bem entendido, somente para os homens. Cf. Mon Histoire”. Par Nadia Nadim et Miriam Zesler. Hachette Livre, département Marabout, 2021, p.32

[3] Cf. “PSG contrata Nadia Nadim, afegã-dinamarquesa que teve o pai morto por talibãs aos 9 anos”, espnW.com.br 4 de janeiro de 2019. Ver sobretudo a biografia da atleta. “Mon Histoire”, op. cit.  

[4] Cf. “PSG contrata Nadia Nadim, afegã-dinamarquesa que teve o pai morto por talibãs aos 9 anos”, espnW.com.br 4 de janeiro de 2019. Cf. “Mon Histoire”, op. cit. pp. 33/34.

[5] Cf. “Mon Histoire”, op. cit. Em especial os capítulos 5 e 6, respectivamente: “Le pays silencieux” e “En piste!”.

[6] Cf. “Nadia Nadim: from Afghan refugee to football star”, Infomigrants, by Irene Caselli, 31 de dezembro de 2019.

[7] Cf. “Mon Histoire”, op. cit. p.64.

[8] Cf. “‘If You Give Refugees a Chance, They Can Make Society Better`: Meet Nadia Nadim, Refugee, Pro Footballer, Surgeon”, by Felicia Pennant, Vogue,  20 de junho de 2020.

[9] Cf. “‘If You Give Refugees a Chance, They Can Make Society Better`: Meet Nadia Nadim, Refugee, Pro Footballer, Surgeon”, by Felicia Pennant, Vogue,  20 de junho de 2020.

[10] Cf. “Mon Histoire”, op. cit. p. 74. Conforme salientava o filósofo Tzvetan Todorov. a sociedade dinamarquesa revelava-se então permeável aos “discursos e valores xenófobos e anti-imigrantes”. “O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações”, Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2010, p.162.

[11] Cf. “Represento tudo o que o Talibã não quer que uma mulher seja”, por Becky Anderson, Zeena Saifi e Jack Bantock, CNN Brasil,  11 de setembro de 2021.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Atleta intercultural. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 12, 2022.
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