Há cerca de uma década tem havido polêmica no esporte de alto nível relacionado à presença de atletas que não se enquadrariam nas rígidas categorias binárias “masculino” e “feminino”, definidas pelo meio esportivo. Particularmente, um fato ocorrido com a corredora sul-africana Caster Semenya chamou muito a atenção pública mundial: ela teve excepcional desempenho nos 800 metros, do 12º Campeonato Mundial de Atletismo da IAAF, em agosto de 2009, em Berlim/Alemanha, mas, apesar de competir na categoria de mulheres, se parecia “homem” (aspas nesta designação discriminatória). Em que pese a própria Semenya não se reconhecer como pessoa transgênero ou intersexo (e, sim, lésbica), seu corpo apresenta uma anomalia chamada hiperandrogenia e, devido a isso, produz uma quantidade excessiva de testosterona, um hormônio vinculado a corpos de homens e à força e virilidade que apresentam. Por isso que, devido à quantidade de pelos e ao desempenho, recaiu sobre a atleta a desconfiança não apenas da mídia e do senso comum, como também das confederações esportivas.

Entretanto, o constrangimento da sociedade não deveria recair sobre o corpo da atleta, mas sobre o que tal “levante discriminatório” representa. Penso que, de um lado, o incômodo é gerado porque se baseia na afirmação de uma suposta vantagem que ela teria sobre outros corpos, o que a faria desempenhar melhor todas as funções relativas à corrida e a colocaria no conjunto de atletas que se utilizam de doping no esporte. De outro lado, e talvez a maior das queixas e sob a qual há discriminação velada, é que Semenya traz um corpo que não concorda em ser colocado num lugar de abjeção e de marginalidade. A inquietação geral a partir desta segunda acepção baseia-se exatamente na estrutura de dominação masculina edificada no campo esportivo, que, reproduzindo valores morais do patriarcado, invisibiliza, domina e inferioriza mulheres como sujeitos políticos.

Caster Semenya, Meeting de Paris, Stade Charlety, 30 jun. 2018. Foto: Wikipedia.

E isso afeta tanto corpos de mulheres cisgênero (que acatam sua fisiologia desde o nascimento), quanto de mulheres transgênero (que se identificam com outro gênero a partir de algum momento em suas vidas) e ainda causa transtorno a corpos intersexo (que nascem com características sexuais e reprodutivas específicas). Com o avanço nas pesquisas, sabe-se que, na história do esporte olímpico, alguns/mas atletas participaram nessa última condição, porém todos/as foram mantidos/as invisibilizados/as.

Foi o caso da polonesa naturalizada norte-americana Stella Walsh, medalhista nos Jogos Olímpicos de 1932 e 1936, que foi reconhecida como intersexo em 1980; de Dora Ratjen, alemã que competiu no salto em distância representando o país em Berlim-1936 (consta que Ratjen fora obrigado pelos nazistas a inscrever-se como mulher, quando em realidade era homem); de Tamara Press, atleta soviética do arremesso de peso e lançamento de disco, que estabeleceu recordes nos Jogos Olímpicos de 1960 e 1964, sendo mais tarde “acusada” de ser intersexo; da também polonesa, Ewa Klobukowska, competidora do revezamento 4 x 100 metros nos Jogos de Tóquio-1964, que em razão de um teste de verificação sexual aplicado três anos mais tarde, foi declarada possuidora de “cromossomos masculinos” em seu organismo.

O mais perverso disso tudo não são as “acusações” de ser de um sexo/gênero outro ou mesmo os horríveis testes de verificação sexual, mas a referencialização a um ideal corpo biológico normativo como padrão instituído. Obviamente que, por essa comparação terminal e pela lógica estabelecida, qualquer corpo que fisiológica ou fenotipicamente se desvie do modelo-padrão é considerado abjeto, anômalo, anormal. A acusação pública é apenas a ponta de um iceberg.

Tiffany Abreu, jogadora do Vôlei Bauru. Foto: Divulgação/Bauru.

O caso atual de Semenya e das outras atletas vêm de encontro a questões mal endereçadas no esporte midiatizado e ressalta que questões relativas a corpos, gêneros e sexualidades não normativas precisam ser melhor compreendidas em suas especificidades. Particularmente, corpos intersexo (e também transgêneros) ainda sofrem muito com preconceitos, invisibilização e violências simbólicas em arenas esportivas – vide o caso atual da jogadora brasileira de voleibol, Tiffany Abreu. Considerá-los, portanto, não apenas problematizaria o binarismo de gênero instituído no campo esportivo, como se abririam importantes discussões sobre a gestão política e técnica do corpo e da sexualidade no esporte de competição (e, por extensão, no esporte não competitivo, escolar, de lazer e recreacional).

Há alguns meses, uma aluna me perguntou porque é tão difícil descobrir quem foram as pessoas intersexo ou transgênero na história dos Jogos Olímpicos. E eu disse a ela que as respostas podem ser várias, mas é fato dado que a história de tais Jogos se esforça por “oficializar” nomes de pessoas que perfazem masculinidades e feminilidades hegemônicas, as quais reafirmam constantemente os valores heteronormativos (que tomam a heterossexualidade como norma). A partir dessa “diretriz”, digamos assim, o registro oficial das conquistas olímpicas se sedimenta na “história oficial do esporte olímpico” e qualquer dissonância que aparece no sistema não deve ser registrada, muito menos lembrada. O que funciona para a sociedade, também funciona para o esporte, ou seja, a história oficial ainda escreve o nome dos vencedores: homens, viris e masculinos. Por essa lógica, mulheres e outros sujeitos sexuais apenas orbitam perifericamente o sistema. Isso precisa mudar!

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Atletas intersexo em competições esportivas. Ludopédio, São Paulo, v. 117, n. 28, 2019.
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