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‘Baba de Saia’: as dimensões esportivas de um ritual de masculinidade em um feriado religioso

Lucas Maroto Moreira 2 de maio de 2022

É “tradição” no bairros populares de Salvador, na Bahia, que, na véspera e no feriado da Semana Santa, diversos torneios de futebol amador, conhecidos como baba do vinho ou baba de saia, tomem lugar nas quadras esportivas, terrenos baldios, campos de várzea ou no asfalto. Os babas são práticas de sociabilidade desportiva comuns nestes territórios e realizam-se, geralmente aos domingos, com times formados através da associação de amigos, conhecidos, vizinhos de rua ou de localidades próximas. O baba de saia é, no entanto, uma transgressão às normas comuns do futebol, sobretudo porque, como anuncia no nome, um dos objetivos é que o jogo aconteça desde que os rapazes estejam “vestidos de mulher”.

 Os preparativos para o baba de saia, no qual jogam exclusivamente homens, sobretudo jovens, iniciam-se na quinta-feira à noite, quando já acontecem os primeiros jogos. O baba de saia, no entanto, só encontra seu ápice na manhã da sexta-feira santa, no dia do feriado da Páscoa, também denominada “Sexta-feira da Paixão”. Antes do início das partidas de futebol, os jovens buscam as peças de roupa com suas mães, irmãs, namoradas, esposas, vizinhas e tias que, em alguns casos, os vestem efetivamente. Saias, vestidos, biquínis, colares, pulseiras, anéis, maquiagem e, em alguns casos, perucas são os signos estéticos da paramentação que torna-se elemento central do evento neste dia.

Ainda na porta de suas casas, na praça ou nas proximidades do campo, os rapazes já “montados” encontram-se em pequenos grupos, estimulam interações jocosas uns com os outros e com aqueles e aquelas que cruzam o seu caminho, transeuntes e vizinhos que, em alguns casos, também fazem piada das vestimentas improvisadas, apertadas, curtas e menores que o corpo dos rapazes. Nesse sentindo, antes de chegar no campo de futebol os times iniciam, às vistas deste público local e dos seus “amigos de baba”, uma série de encenações que buscam mimetizar estereótipos da feminilidade, através de gestos, atitudes e comportamentos que compreendem como técnicas corporais das mulheres.

As roupas curtas e apertadas tornam-se elementos chave da performance, são constantemente manipuladas, ajeitadas, esticadas e colocadas no lugar, fazendo com que o rapaz assuma, a seu modo, o personagem feminino que primeiramente encontra-se expresso naquilo que veste. Dessa vez não usam as camisas dos times e os bermudões esportivos, mas a saia. O jogador amador pode sentir-se “feminino” porque as roupas estão impregnadas simbolicamente da feminilidade. No entanto, todo o seu corpo busca adequar-se a essa nova e temporária atuação. Para que possa encenar com mais veracidade o corpo da mulher eles “desmunhecam” — flexionam a mão para baixo, reclinando o pulso —, tornam-se mais sinuosos nas posturas e requebram a cintura para os lados enquanto andam. Em alguns momentos exageram nos gestos, tornando-os uma paródia da delicadeza ou da fragilidade que supõe existir no corpo feminino.

Do ponto de vista do baba, o jogo de futebol desenrola-se como de costume, embora em alguns momentos a zombaria tome o lugar da seriedade das regras do jogo e interfira na sua duração e em seu andamento. É justamente o fato de estarem “vestidos de mulher” que constituirá a principal novidade, além do uso da bebida alcoólica que já se inicia antes do jogo, no processo de vestir-se. Os próprios rapazes envolvidos no jogo dizem que a “resenha” e  a “putaria” nesse dia é mais importante que jogar.

Baba de Saia
Foto: Rafael Caribé

Desse modo, assim que se inicia a partida, nota-se que o excesso de gesticulação e a ênfase na performance do gênero são estimuladas em detrimento da performance esportiva e habilidade para o jogo de futebol em si. Os mais interessados em seguir o jogo à risca reclamam do excesso da galhofa e dos jogadores que já chegam no baba “mamados” (bêbados) e “sem chuteira”. Ao lado do campo encontram-se algumas mulheres que gritam palavras engraçadas e crianças que, de maneira igualmente descontraída, imitam os gestos dos seus pais. Das caixas e carros de som estacionados próximos ao campo, manam músicas ritmadas e os rapazes, enquanto jogam o futebol, dançam mexendo os quadris, empinando as nádegas com as mãos sobre os joelhos e balançando-as com ênfase. Embora o jogo de futebol seja o motivo do encontro, tendo alguns troféus reservados aos times vencedores, é no “travestimento” que concentra-se o principal interesse dos jovens rapazes.

Assim que a primeira partida termina, outros times, geralmente organizados em torno da faixa etária, entram em campo e assim segue-se um revezamento entre os grupos que dura cerca de duas ou três horas. Assim que as partidas principais acontecem, o jogo termina, ficando no campo apenas as crianças. Os jogadores dos times saem do campo e caminham pelas ruas principais do bairro ao som de carros automotivos em um fervoroso cortejo, que recebe a denominação de “arrastão” e remete aos dias de carnaval. Nesse momento, muitos dos jogadores já concluíram a etapa esportiva do evento e podem agora voltar-se plenamente para a atividade que mais lhes suscita interesse no baba de saia: mostrar-se feminino e desfrutar da sociabilidade prazerosa, impulsionada pela embriaguez do álcool — especialmente do vinho e da cerveja — e pela música emitida das caixas de som.

Baba de Saia
Foto: Rafael Caribé

Nos últimos anos se multiplicaram em Salvador a quantidade de babas no interior dos bairros populares no feriado da Páscoa. A longa temporalidade com que os eventos acontecem, por vezes há mais de 15 anos, e as eminentes transformações políticas e urbanas permitiram o surgimento de novas modalidades de torneios. Por exemplo, nos últimos anos, os babas de ‘short’ (realizado por mulheres) ou baleô da diversidade (realizado por gays, transexuais e travestis) têm emergido no cenário do feriado. Estas iniciativas recentes surgem em contraposição ao protagonismo dos homens nos jogos, que acabam por impor um modelo único de interação através dessa prática esportiva, uma vez que a tradição das partidas constitui-se em ter os homens jovens como principais jogadores, que, embora “vestidos de mulher”, acabam reforçando dimensões da masculinidade dominante.

O baba de saia, nesse sentindo, faz surgir no bairro um ritual, com dia, hora e tempo de duração, no qual os jovens rapazes podem dar vazão a um interesse em viver no corpo aquilo que, por meio da socialização masculina, lhes parece excluído, restrito ou sujeito à penalidade. Não à toa, escolhem o futebol, fenômeno esportivo carregado de sentidos que remetem à masculinidade do trabalhador urbano e à identidade nacional, pois assim podem explorar a feminilidade barrada e interditada pela homofobia que compõe o processo de socialização dos homens, sobretudo nos espaços esportivos futebolísticos.

Outra dimensão ainda interessa aos jovens rapazes do baba: desfazer as regras do jogo de futebol, modificá-las, implantar no seio do seu acontecimento a ambiguidade, a sexualidade e a feminilidade, que por outra via não poderiam ser expressas em seus corpos. O baba de saia sintetiza em um só evento três dimensões exclusivas: o futebol, o carnaval e o feriado religioso, dando a cada um dos fenômenos uma interpretação renovada.

Roberto da Matta sugere que entre as muitas brincadeiras da socialização masculina, constitutivas da identidade nacional do “macho” brasileiro, encontra-se a pergunta dirigida ao sujeito que  apresenta-se, no cotidiano, com roupas contendo algum traço de feminilidade: “lá onde você comprou essa roupa, tem para homem?” Esse antropólogo dá assim indícios da maneira como as roupas e o vestir constituem-se fundamentalmente enquanto um vetor de identificação da masculinidade viril. O ritual do baba de saia, visto por este prisma, parece revelar uma dupla via interpretativa: por um lado, torna evidente a binaridade de gênero que compõe o núcleo duro das interações esportivas; por outro, deixa entrever o desejo latente dos homens em despojar-se, ao menos temporariamente, dos pesados encargos que devem pagar pelo exercício inquestionável de sua masculinidade.

Baba de Saia
Foto: Rafael Caribé

Notas

Os dados utilizados na escrita deste ensaio etnográfico é fruto da observação dos Babas de Saia, que acontecem anualmente no fim de linha de Cajazerias 11, periferia da cidade de Salvador, bairro em que  nasci, vivi minha infância e onde moram parte dos meus familiares na atualidade. As fotos foram feitas em 15 de abril de 2022, por Rafael Caribé, um dos muitos rapazes que fazem do baba de saia um ritual de masculinidade em pleno feriado religioso.

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Lucas Maroto Moreira

Doutorando em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia. Mestre em Arquitetura e Urbanismo e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia. É membro do grupo de pesquisa Poder, Abjeção e Ética (EPA). Tem experiências nas áreas de Antropologia das Práticas Esportivas, Antropologia do Gênero e Antropologia Urbana. A tese doutoral aborda práticas corporais fitness e sociabilidades esportivas no contexto dos bairros populares em Salvador-Bahia, focalizando temas como masculinidade, juventude, moralidade, espaço urbano, sexualidade e socialização.

Como citar

MOREIRA, Lucas Maroto. ‘Baba de Saia’: as dimensões esportivas de um ritual de masculinidade em um feriado religioso. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 2, 2022.
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