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Bita: artilheiro, ídolo do Náutico e sucesso infantil

Quem tem uma criança por perto, na família ou entre amigos, já deve ter ouvido falar o nome de Bita, uma simpática animação que atrai a atenção da meninada. O que quase ninguém sabe, porém, é que muito antes do desenho animado dominar o imaginário infantil, o apelido fácil de falar era o som dos gritos de gols da torcida timbu.

A década de 1960 guarda grandes times do futebol brasileiro, que eram reconhecidos além da qualidade do conjunto, por um líder técnico. São dessa época, entre outros, o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras de Ademir da Guia, e o Náutico de Bita.

Bita, o Garoto de Ouro

Esse Náutico de Bita chegou à decisão da Taça Brasil de 1967, competição atualmente considerada como Campeonato Brasileiro, e foi vice-campeão contra o Palmeiras. Porém, faturou também um hexacampeonato pernambucano — 63, 64, 65, 66, 67 e 68.

Foto: Reprodução

Era um time vencedor, técnico e que tinha um craque como líder. Bita era o apelido de Sílvio Tasso Lasalvia, o Garoto de Ouro, que surgiu para o futebol nas categorias de base do Náutico e se transformou no maior artilheiro da história do clube com 223 gols em 295 jogos com a camisa do Alvirrubro.

Nascido em 11 de agosto de 1942, irmão do também jogador Nado, Bita foi revelado no Náutico. Prestes a completar 20 anos, estreou no profissional em 1962 e no ano seguinte, como titular absoluto, foi fundamental na campanha do título pernambucano, que seria apenas o primeiro na sequência do hexa.

No auge da forma técnica, Bita foi artilheiro em três edições do campeonato estadual —19 64 com 24 gols, 65 com 22 gols e 66 com 20 gols — e outras duas artilharias na Taça Brasil —19 65 com 9 gols e em 1966 com 10 gols.

Na Taça Brasil de 1966, aconteceu aquele que pode ser classificado como o grande momento da carreira de Bita. No confronto com o Santos de Pelé, em pleno Pacaembu, Bita anotou quatro gols e o Náutico venceu por 5 a 3. A atuação de gala valeu elogios e reconhecimento até de Pelé, que elencou o Náutico como um dos times mais fortes e difíceis para jogar contra no país.

Sofrendo com lesões, Bita entrou na fase descendente da carreira muito jovem. Em 1967, com apenas 25 anos, as primeiras lesões passaram a incomodar o atleta, que desfalcou o Náutico em diversas competições.

O polêmico decacampeonato

Entre 1963 e 1968, o Náutico conquistou todas a taças do Campeonato Pernambucano. A partir de 1969, a maré virou para o lado do Arruda, assim, o Santa Cruz passou a dominar o futebol pernambucano e ficou com todos os troféus entre 69 e 72, um tetra.

Há uma espécie de lenda urbana que levou Bita diretamente do Náutico em 1968 para o Santa Cruz em 1969, no entanto, não foi bem assim. As lesões fizeram Bita sofrer nos últimos anos no Timbu e o Santinha começou a sondar o jogador. Fato é que apenas após muito namoro, e alguns anos do atacante encostado no departamento médico foi que o Santa Cruz pôde, enfim, contar com o artilheiro em 1972, ou seja, no Santa, Bita foi campeão somente uma vez. 

Basta uma rápida pesquisa nos registros dos jogos da época e, principalmente, nas imagens – raras – que existem dos times campeões pelo Santa Cruz entre os anos de 1969 e 1972, para constatar que Bita só figura no último ano do tetra coral. 

Após o término do campeonato em que não teve a participação brilhante que se esperava dele, Bita não conseguiu renovar o contrato com o Santa Cruz e decidiu encerrar a carreira prematuramente, aos 30 anos de idade.

A aposentadoria lhe rendeu uma homenagem e não foi pelos gols, mas sim pela lealdade, em 10 anos de carreira, Bita nunca foi expulso e, por isso, recebeu o Troféu Belfort Duarte. Bita morreu em 27 de outubro de 1992, vítima de câncer, com apenas 50 anos.

E o desenho que é sucesso com a criançada?

Foto: Equipe agência Mr. Plot/Divulgação.

Se você tem criança em casa ou convive com alguma, com certeza conhece “O Mundo Bita” e os números astronômicos de audiência do rechonchudo personagem entre os pequenos. Depois de conhecer a história do atacante timbu ficou evidente que o Bita desenho animado se trata de uma homenagem ao Bita jogador.

O xis da questão é entender como um jogador dos anos 1960 batizou uma atração infantil que conta com quase 4 bilhões de visualizações e mais de 5 milhões de inscritos em seu canal do Youtube, sem sombra de dúvidas, um dos produtos audiovisuais para o público infantil mais bem sucedidos no Brasil.

A resposta está com o criador da animação, Leandro Chaps Melo. O cantor e compositor pernambucano Chaps Melo contou, em entrevista ao UOL, que o Bita animado surgiu como decoração do quarto da filha e o nome veio da admiração que seu pai tinha pelo ídolo timbu. O próprio criador empresta a voz para as canções que embalam a legião de pequenos fãs da animação 100% brasileira desenvolvida em conjunto com a agência pernambucana Mr. Plot. Com o “Mundo Bita”, o nome do ídolo timbu saiu do Recife, ganhou o país, se expandiu no continente com episódios veiculados em outros países da América do Sul e, agora, recebe até adaptações para o inglês.

Imagem: Mundo Bita / Reprodução Youtube

A frase de Pelé, quando perguntado sobre os melhores times que enfrentou na carreira: “O Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras de Ademir da Guia e o Náutico de Bita.”; já era definitiva quanto ao jogador, mas o sucesso de “Mundo Bita” é uma grande homenagem ao ídolo e artilheiro que agora, quase 30 anos após sua morte, faz os gols mais bonitos conquistando os troféus mais valiosos, os corações dos pequenos que adoram o Bita.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Bita: artilheiro, ídolo do Náutico e sucesso infantil. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 27, 2020.
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