04.4

Brasil grande

Enrico Spaggiari 22 de outubro de 2009

Mais do que um artigo, elaboro esse texto como uma “dica de leitura” em forma de resenha, enfocando a tese de doutorado de Gilmar Mascarenhas de Jesus – A bola nas redes e o enredo do lugar: uma geografia do futebol e de seu advento no Rio Grande do Sul –, defendida no Departamento de Geografia da USP.

A tese divide-se basicamente em três capítulos, sendo que o primeiro discorre sobre o futebol moderno como uma inovação e seu surgimento na Inglaterra no século XIX, época sedenta de mudanças e transformações, principalmente nas universidades inglesas, como uma entre outras atividades de lazer que eram ensinadas aos jovens universitários, como instrumento disciplinador e ao mesmo tempo recreativo. Assim, conquistou jovens universitários, setores sociais ricos e poderosos, e, posteriormente, a sua popularização, de forma gradativa, aos poucos adotado pela população proletária inglesa.

No segundo capitulo, o autor nos traz os procedimentos metodológicos, propondo uma ampla teorização geográfica e histórica de diversas correntes. Antes de explicar a importância do lugar, o Rio Grande do Sul, na adoção do futebol, o autor definirá a geografia da difusão espacial de inovações. O autor direciona sua atenção à questão do papel da configuração espacial do lugar na introdução do futebol; um estudo objetivo sobre a geografia do lugar e suas singularidades, para assim entender como o futebol adquire ritmos diferentes de adoção em lugares diferentes, já que cada lugar se relaciona com o mundo de forma muito particular e atua como um importante condicionador do processo de difusão.

Enfim, no terceiro e longevo capitulo da tese, cuja proposta é definir os aspectos da configuração territorial e espacial do Rio Grande do Sul que auxiliaram no advento do futebol nos campos e planaltos riograndenses, o autor enceta descrevendo seu principal objeto de estudo: a formação geográfica do Rio Grande do Sul, a partir, principalmente, das cidades de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre; a cidade Rio Grande será privilegiada aqui, pois se tratava, no final do século 19, do principal centro urbano da Campanha e berço da grande indústria gaúcha. Seu movimento portuário era maior do que o de Porto Alegre.

O porto de Rio Grande era o principal exportador da produção do ciclo do charque. Através da exportação, pôde manter um contato direto com os ingleses. O ciclo do charque trouxe riqueza para a cidade, tornando-a uma região cosmopolita e proporcionando conexões intensas com a Europa, atraindo muitos imigrantes (principalmente alemães e ingleses), que desempenharam ativamente o papel de difusores do futebol: alemães, por exemplo, fundaram o primeiro clube de futebol em Rio Grande.

Mas o ponto que merece maior atenção é outro: a ligação riograndense com as metrópoles do Rio Prata. Em primeiro lugar, a região platina foi o centro pioneiro da adoção do football association na América do Sul. Em segundo, o Rio Grande do Sul, situado no extremo sul do país, esteve sempre espacialmente distante dos centros econômicos e das capitais brasileiras. Foi somente a partir do século 20 que surgiram os primeiros movimentos brasileiros de integração territorial, que buscavam unir o norte e o sul brasileiro com o resto do país. O descaso brasileiro fez com que o Rio Grande do Sul procurasse desenvolver fortes vínculos com os parceiros platinos, geograficamente mais acessíveis. Montevidéu e Buenos Aires se tornaram grandes metrópoles neste período e o sul do Brasil se beneficiou das suas intensas relações fronteiriças com os países platinos.

O crescimento econômico da cidade de Rio Grande foi essencial para o sucesso do clube local e durante anos o clube Rio Grande manteve-se superior aos outros times das cidades rivais (Pelotas e Porto Alegre). Porém, nas primeiras décadas do século passado, a cidade de Rio Grande não mais concentrava riquezas e poder.

Tanto o mapa sócio-econômico e o mapa futebolístico do Rio Grande do Sul sofreram alterações radicais. Assim, tanto a cidade quanto o clube Rio Grande foram sobrepujados pelo crescimento das cidades do planalto e de Porto Alegre, como também pelos principais clubes de futebol dessas cidades.

Portanto, o autor defende que certos aspectos de cada região foram importantes para uma boa aceitabilidade dessa inovação esportiva; ou seja, há um destaque para o papel do lugar no advento do futebol em novos territórios. Esta é a questão principal do texto. Uma Geografia do Futebol. As características e singularidades do espaço brasileiro foram decisivas para o sucesso do futebol no país, como também o papel da geografia inglesa no processo de integração social e cultural do futebol na Inglaterra e nas demais ilhas britânicas. O futebol é uma inovação (como o automóvel, o fogão) que depende muito das características intrínsecas à sociedade receptora, das peculiaridades e das atuações geográficas, históricas, políticas, econômicas, sociais.

Para finalizar, realço a importância de três pontos, levantados pelo autor: o fator lugar, as características da inovação e a rede de comunicação (que a ajude transmitir suas qualidades aos receptores). Ao se propor a investigar – a partir de inúmeros aspectos, como as conexões com o Império Britânico e o capitalismo, os laços com os países do Prata, a gradativa popularização do esporte bretão, o reconhecimento de outros agentes de difusão antes ignorados – as condições e bases geográficas do processo de difusão, adoção e para o sucesso particular do futebol nos campos e planaltos do Rio Grande do Sul, o autor elabora uma análise que pensa um processo que se relaciona com a estruturação da cidade moderna, da sociedade industrial, e com a organização do espaço brasileiro e riograndense.

Pensa, porém, um processo que apesar de ultrapassar a barreira da análise esportiva, não exclui o valor e as especificidades intrínsecas ao jogo, pois para adentrar numa sociedade e ser reconhecido, um elemento novo precisa demonstrar ter um grande valor.

Este novo elemento terá que superar alguns obstáculos, pois entrará em conflito com elementos já adotados e inerentes a ao corpo social receptor, que possuam características e finalidades semelhantes às suas. Deste conflito possivelmente sairá um vencedor, não eliminando o desfavorecido, pois os dois elementos podem coexistir. Então, é necessário que suas características e as redes de comunicação sejam aprovadas e absorvidas, articulando o maior número de pessoas. Portanto, o lugar soma-se a outros fatores, também relevantes, na concretização de uma difícil tarefa: introduzir o futebol em um novo espaço.

 

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Enrico Spaggiari

Mestre e doutor em Antropologia Social pela USP. Fundador e editor do Ludopédio.

Como citar

SPAGGIARI, Enrico. Brasil grande. Ludopédio, São Paulo, v. 04, n. 4, 2009.
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