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Brasil, o país do futebol… americano: a indústria cultural e o soft power na difusão do esporte yankee em terras tupiniquins

 

O futebol americano é o esporte mais popular dos Estados Unidos, país com grande tradição também no beisebol, basquete e hóquei e considerado a grande potência olímpica da contemporaneidade. Cem anos após a organização do primeiro campeonato, o esporte da bola oval se consolidou no gosto do cidadão estadunidense, tornando-se um ativo econômico de grande relevância no cenário esportivo, levantando cifras consideráveis e gerando grande audiência televisiva ao redor do mundo, atraindo uma legião de novos fãs.

 

NFL
Audiência televisiva do Super Bowl nos EUA, 1967-2021. Elaborado por Rafael Freitas Bezerra. Fonte: Nielsen

Essa grande audiência tem no Brasil um dos seus maiores públicos fora do país de origem da National Football League (NFL). Segundo dados do Sponsorlink, a parcela da população brasileira que se declara fã do esporte vem crescendo cada vez mais nos últimos anos. Em 2016, 15,2 milhões de pessoas se declararam fãs, enquanto em 2021 esse número mais que dobrou para 33 milhões.

Esse processo de popularidade tem no fenômeno da globalização, “período histórico no qual a ciência, a técnica e a informação vêm comandar a produção e o uso dos objetos, ao mesmo tempo que impregnam as ações e determinam as normas” (SILVEIRA, M. L., 2003, p. 408), um dos seus alicerces principais. Seus efeitos ultrapassam o debate econômico, tornando-se uma constante nas esferas políticas, culturais e sociais da sociedade contemporânea.

Com a midiatização do esporte, os jogos começaram a ser transmitidos para mais de 160 países ao redor do globo, se popularizando no Brasil nos finais da década de 1990 (BUENO e JUNIOR, 2020). Em 2022, o Super Bowl[1] voltou a ser transmitido em tv aberta no Brasil após nove anos, provando o crescimento do interesse brasileiro pelo esporte.

O interesse “verde e amarelo” pelo “futebol alternativo” é evidenciado também na formação de times nacionais, além da consolidação da liga em território brasileiro, com a difusão de equipes em todas as regiões do país, fazendo com que uma modalidade consolidada no cenário estadunidense comece a criar fortes raízes no sul do continente americano.

Sendo assim, o esporte se apresentou, assim como o cinema, como um meio de difusão da cultura estadunidense pelo mundo. O modelo de uma das grandes potências econômicas mundiais é difundido amplamente, ditando costumes a serem seguidos. Essa difusão pode ser interpretada a partir de conceitos como indústria cultural e soft power, que elucidam o processo de dominação de uma cultura a partir de métodos sutis.

Indústria Cultural e Soft Power

Durante o século XX, o planeta presenciou duas guerras em escala mundial, onde grandes conflitos bélicos foram protagonizados, além da chamada Guerra Fria, onde os Estados Unidos e a União Soviética polarizaram dois grandes blocos com ideologias distintas. Porém, com o bloco soviético entrando em colapso no final do século, o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos, passa a deter a hegemonia ideológica do globo. Ideologia esta já “trabalhada” durante o século.

Por mais que a ideia de Indústria Cultural tenha seu início ligado ao século XIX, onde a ideia de cultura de massa surge a partir do contexto da Revolução Industrial, é durante o século XX que essa vertente tem papel fundamental na difusão dos ideais estadunidenses, diluindo o “estilo de vida americano” de maneira cada vez mais categórica pelo mundo. Em um contexto em que a disputa ideológica era a grande batalha vivenciada, uma propaganda de um determinado estilo de vida foi apregoada pelo país.

O cinema e o esporte surgiram como duas esferas desta Indústria Cultural, funcionando como canais de difusão dessa cultura capitalista. Mensagens e imagens de filmes passaram a influenciar e legitimar projetos políticos e ideologias, carregando consigo uma forte carga simbólica. Outras mídias como o rádio, animações, histórias em quadrinhos e folhetins também participaram desse processo.

Um dos exemplos mais clássicos dessa ação é a excursão de Walt Disney à América Latina, em 1941. O produtor, endividado pelo impacto do conflito bélico sobre o cinema, queria trabalhar e obter ideias para futuros projetos. Ao mesmo tempo, o então presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt buscava aliados na América do Sul para conter o avanço da Alemanha nazista.

Da expedição foram gerados dois filmes: Alô, amigos (1942) e Você já foi à Bahia? (1944). Os longas, além de mostrarem aspectos paisagísticos e culturais do continente americano, traziam novos personagens ao universo de Disney, como o galo pistoleiro mexicano Pancho Pistolas, o avião mensageiro chileno Pedrito e o papagaio brasileiro Zé Carioca. Há ainda menções a países como Argentina, Uruguai, Bolívia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras e  Guatemala. A viagem à América Latina foi benéfica tanto para Roosevelt como para Disney, já que o ex-presidente dos Estados Unidos conseguiu o que queria: a atenção da América do Sul e o produtor conseguiu encontrar uma saída criativa para a crise.

 

Zé Carioca
Cartaz do filme Alô, Amigos (1942) com Donald e Zé Carioca, em uma mesa de bar. Fonte: reprodução RKO RADIO PICTURES INC

Adorno e Horkheimer (1985) lançam o conceito de Indústria Cultural a partir de uma ideia de acriticidade por parte dos consumidores do mundo, onde uma cultura de subserviência a um determinado padrão é elaborada e um consumo acrítico promove uma felicidade ilusória. É contando com essa falta de crítica atrelada a uma propaganda ideológica, que a Indústria Cultural se tornou um poderoso instrumento estadunidense durante o século XX.

Como outro nítido exemplo desse uso do cinema na propaganda capitalista temos o filme “Rocky IV” de 1985. No filme em questão, o protagonista, um lutador profissional de boxe, vai até a União Soviética lutar contra o vilão da trama, um russo que acaba de espancar até a morte o amigo do protagonista. 

Enquanto nas telonas os EUA se aproveitavam de Hollywood como mais um quartel-general para seus ganhos, as telinhas também apresentaram uma função importante durante a segunda metade do século. Com o advento da televisão, a indústria cultural enxergou nos esportes uma grande oportunidade para ampliação da sua cultura pelo mundo.

A televisão, inclusive, foi um fator determinante para a difusão do futebol americano no próprio território estadunidense. Em 1958, o Super Bowl teve sua primeira transmissão televisiva para todo o país, sendo assistido por 45 milhões de pessoas, 25% da população na época (DUNAISKI, 2017).

O esporte, para Adorno, era mais um aspecto utilizado por essa indústria, embora o autor reconhecesse as virtudes que o esporte traz para o esportista, ele alertava para a intenção dos organizadores e difusores televisivos em não transformar seus consumidores em esportistas e sim em “ululantes torcedores de arquibancada” (ADORNO, 2020, p.196).

Com o fenômeno da globalização, a velocidade técnica passa a ser um grande chamariz do contexto, onde o esporte se beneficia das telecomunicações e seu ganho em velocidade, para assim adentrar em diversas localidades pelo mundo. A disseminação do esporte estadunidense pelo mundo se valeu desse cenário, onde no final da década de 80, a tv bandeirantes transmitiu pela primeira vez para o público brasileiro uma partida da National Basketball League (NBA). Já a NFL encontrou na extinta TV Tupi, ainda na década de 1960, um local de transmissão de jogos, sendo esses jogos cedidos pela emissora estadunidense CBS e reprisados. Após curta temporada na Tupi, a NFL voltaria às telas brasileiras também na década de 80 através da bandeirantes.

Essa difusão esportiva estadunidense também pode ser lida pelo conceito de soft power. Nye (2004) aponta a utilização do esporte como meio de propagar ideais políticos e culturais, a fim de manusear a percepção exterior sobre determinado país. Assim sendo, o futebol americano se apresentou como mais um elemento de propaganda estadunidense para o mundo.

Essa propaganda, atrelada ao processo de globalização e as transmissões nos canais televisivos brasileiros, fizeram o esporte cair no gosto de uma parcela considerável da população brasileira,[2] encontrando nessas primeiras décadas do século XXI, números expressivos não só de audiência, mas também de prática, sendo organizados campeonatos de maneiras regulares, além de contar com uma confederação nacional do esporte.

O futebol americano também é brasileiro

Com o avanço da globalização e o aumento da audiência televisiva que o futebol americano encontrou no Brasil no final da década de 90, o esporte ganhou, ano a ano, mais espaço no gosto brasileiro, chegando ao ponto onde assistir não bastava para esses fãs. Eles queriam também praticar, competir.

Em 2009, ocorreu a primeira competição a nível nacional no país: o Torneio Touchdown. Contando com oito clubes, a competição foi um grande marco para prática do esporte em solo nacional. Em 2010, o Torneio Touchdown reuniu sete clubes, sendo um deles o Vasco da Gama Patriotas. Era o primeiro sinal de uso de clubes de futebol para a expansão do esporte, onde essa apropriação do futebol mais popular no Brasil pelo futebol americano foi seguida por diversos clubes.

Ainda em 2010, a LBFA organizou a Liga Brasileira, com o acréscimo de mais equipes (14 no total) e organização similar a da NFL. Dentro dessas 14 equipes, destacam-se três que carregavam nome e escudo de clubes de futebol: o Coritiba Crocodiles, o Fluminense Imperadores e o Corinthians Steamrollers. Nota-se uma tentativa de unir a paixão nacional pelo futebol com a febre do futebol americano, onde as nomenclaturas na língua inglesa são uma constante no nome das equipes.

Em 2012, após a oficialização da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), a liga brasileira passou a ser intitulada como Campeonato Brasileiro, ocorrendo anualmente junto com o Torneio Touchdown. Em 2016, a CBFA anunciou a unificação dos campeonatos a nível nacional, aumentando ainda mais a organização dos certames, sendo intitulada de Liga Brasileira de Futebol Americano.

A prática de alinhar o futebol americano com os clubes de futebol foi se alastrando, onde a cada ano que se passava, a quantidade de equipes “licenciadas” aumentava. Em 2016, das 30 equipes que participaram da competição, 11 tinham seus nomes e identidade visual ligadas a clubes de futebol.[3]

Após dois anos de hiato por conta da pandemia da Covid-19, o campeonato 2022 da Liga BFA está confirmado. Para a temporada, até o final de 2021, era prevista a participação de 44 equipes, somando as modalidades masculina e feminina. Ao todo, 32 municípios de 18 estados diferentes serão representados nesta edição. Destas equipes, 14 tem ligação direta com clubes de futebol (conforme o mapa abaixo) [4]. 

Brasil (2021): Equipes da Liga BFA ligadas a clubes de futebol. Elaborado por: João Paulo Rosalin. Fonte: Liga BFA.
Brasil (2021): Equipes da Liga BFA ligadas a clubes de futebol. Elaborado por: João Paulo Rosalin. Fonte: Liga BFA.

 

Da Região Norte estão representados o Remo (PA) e o Manaus (AM); Ceará (CE) e Santa Cruz (PE) são as equipes do Nordeste. Do Centro-Oeste o único panteão futebolístico presente é o do Gama (DF), assim como é o do Coritiba (PR) no Sul. No Sudeste temos o Rio de Janeiro como maior expoente da “mistura de futebóis” trazendo América, Bangu, Flamengo e Vasco para o campo das 100 jardas.  Em Minas Gerais, América e Atlético Mineiro tem delegações da bola oval, assim como Palmeiras e Portuguesa, em São Paulo. 

Essa representatividade não configura, de fato, um investimento dos clubes na modalidade, mas sim uma cessão de uso da marca às agremiações. Como no caso da expedição de Disney, nos anos 1940, essa prática tem gerado benefícios mútuos aos envolvidos no processo: Por um lado, atrai, através da imagem do clube, uma nova leva de torcedores ao futebol americano (gerando atração da mídia e de patrocinadores) dilatando a prática e a exibição do esporte no Brasil e; por outro, aumenta a gama de produtos a serem comercializados promovendo maior renda e atratividade aos clubes, gerando uma “diplomacia” com públicos diversos.

Considerações finais

Como dito anteriormente, a expansão do futebol americano no Brasil fez uso da paixão nacional pelo soccer e se apropria da identidade cultural enraizada na sociedade pela modalidade. Após o Vasco em 2010, diversas outras equipes tiveram seus nomes associados aos plantéis do esporte americano. São exemplos o América Locomotiva (MG), o Juventude FA (RS), o Palmeiras Locomotives (SP) e o Ponte Preta Gorillas (SP). O curioso é que esse uso, em muitos casos, só se restringe ao aspecto simbólico, onde o apoio financeiro dos centenários clubes de futebol inexiste. 

Tal prática, no entanto, torna-se um artifício de expansão de marcas por esses clubes, uma vez que o nome ou escudo de uma agremiação tem uma forte dimensão simbólica nesse sentido por estarem ligados a lugares, pessoas ou objetos que associam o torcedor (consumidor) a um apelo emocional, ao patrimônio cultural da localidade e também a nostalgia. 

Notas

[1] Super Bowl é o nome que se dá para a grande final da NFL.

[2] Importante ressaltar que não será feito juízo de valor sobre a adesão ou não do esporte por brasileiros, e sim uma análise dessa difusão nos últimos anos;

[3] Em 2019, ano do último campeonato nacional, das 33 equipes, 7 eram ligadas a clubes.

[4] Até o fechamento deste artigo, novas equipes vinham sendo adicionadas a LBFA. Para a listagem completa e atualizada da temporada 2022, acesse: https://www.ligabfa.com/. 

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor. Indústria Cultural. tradução de Vinícius Marques Pastorelli. São Paulo. UNESP, 2020.

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. tradução de G.A. de Almeida. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 1985.

BUENO, Igor Alexandre Silva; JÚNIOR, Wanderley Marchi. A influência da globalização na inserção do futebol americano no Brasil. Novos Olhares Sociais, v. 3, n. 1, p. 127-151, 2020.

DUNAISKI, Rafael. Como o futebol americano se tornou o esporte número 1 dos EUA? Lance! 2017. Acesso em: 23 fev. 2022.

NYE JR, Joseph S. Soft power: The means to success in world politics. Public affairs, 2004.

RODRÍGUEZ, Andrés. A visita de Disney à América Latina. in: El País Brasil. 10 abr. 2016. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/07/cultura/1460044 858_011138.html. Acesso em: 01 abr. 2022.

SILVEIRA, M. L. A região e a invenção da viabilidade do território. In:  SOUZA, M. A. A. (Org.). Território Brasileiro: Usos e Abusos. Campinas: Edições Territorial, 2003.

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João Paulo Rosalin

É professor substituto bolsista no Departamento de Geografia e Planejamento Ambiental e doutorando do Programa de Pós Graduação em Geografia da UNESP (Rio Claro), onde desenvolve sua tese intitulada "Usos do território, solidariedades institucionais e especificidades produtivas: as indicações geográficas para produtos agropecuários no estado de São Paulo". Graduado em Geografia (Bacharelado e Licenciatura) em 2016 pela UNESP - Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", campus de Rio Claro e Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da mesma instituição (2019). É integrante da Red Latinoamericana de Investigadores sobre Teoría Urbana (RELATEUR), do Laboratório de Investigações Geográficas sobre os Usos do Território (LUTe) e do Grupo de Estudos: O Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas (GEMDF4L).

Rafael Freitas Bezerra

Licenciando em Geografia pelo Instituto Federal Fluminense  (IFF) campus Campos Centro. Componente do Núcleo de Estudos Geográficos (NEGEO) no IFF, realizando pesquisas sobre dinâmicas socioespaciais no Estado do Rio de Janeiro, além de membro do Grupo de Estudos: Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas, que abarca pesquisadores de diversas universidades, onde são realizadas reuniões e produções que discutem a relação geografia e futebol.

Como citar

ROSALIN, João Paulo; BEZERRA, Rafael Freitas. Brasil, o país do futebol… americano: a indústria cultural e o soft power na difusão do esporte yankee em terras tupiniquins. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 36, 2022.
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