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Brasil “redescobriu” o racismo no futebol. O que faremos dessa vez?

Ricardo Pinto dos Santos 24 de maio de 2023

Foi preciso, mais uma vez, um episódio dantesco de racismo no exterior, para o Brasil “redescobrir” o racismo no futebol. Porém, sabemos todos (ou deveríamos saber), seremos atropelados pelo movimento ininterrupto da nossa vida cotidiana e, consequentemente, os ânimos serão amansados e as estruturas racistas se manterão intactas.

Digo isso porque: o movimento se repete. As bananas atiradas em Neymar, Daniel Alves e Richarlison, geraram, também, uma grande rede de apoio aos jogadores e manifestações por todo mundo. De imediato, dirigentes de clubes e federações, gritaram aos quatro ventos que as agressões racistas são inadmissíveis e que, para a nossa tranquilidade, seriam tomadas medidas enérgicas para que os fatos não se repetissem.

Claro está que, dia a após dia, eles se repetem. Em maior ou menor escala, alcançando muita ou pouca visibilidade, a violência racial persiste, avança e segue atingindo os corpos pretos. Nesse processo, alguns pontos deveriam chamar atenção pela sua, de certa forma, obviedade. Vejamos: se os casos de racismos se repetem e, mais do que isso, estatisticamente, se eles vêm aumentando, devemos concordar que a chamada luta antirracista produzida pelas instituições esportivas está fracassando. Diante deste fato, uma outra pergunta se impõe, o que as instituições esportivas estão fazendo de errado para não alcançarem um bom resultado na sua (dita) luta antirracista, já que “todos” concordam que o racismo precisa ser combatido.

Para ajudar nesse nosso bate-papo, busquei alguns pontos que acredito serem importantes para o tema. Primeiramente, vale a pena dizer que os afastamentos, prisões (quando ocasionalmente ocorrem), multas, perda de mando de campo e tantas outras punições previstas e/ou criadas para coibir esse tipo de crime fazem parte da solução. No entanto, insisto, como elas não funcionaram até hoje como agentes de qualquer redução deste tipo de crime ou mesmo de uma mudança profunda nesse cenário, precisamos rever toda a nossa percepção sobre o processo. E é sobre isso que quero tratar.

Vinícius Jr.
Vinícus Jr. em ação pelo Real Madrid. Foto: vitaliivitleo/Depositphoto.

Se queremos realmente mudar esse quadro, ou ao menos fazer com que haja um movimento eficaz que gere a redução desses crimes, precisamos mudar as estruturas, pois são elas que fazem todo o processo falhar miseravelmente. Formadas majoritariamente por homens brancos que se protegem e, sobretudo, que não possuem nenhum letramento racial ou de qualquer outra natureza, dado que sempre foram vistos e reproduzidos como modelos de corpos e ações, eles precisam abrir espaços para novos personagens. Homens e mulheres pretos, mas não somente, e tantas outras minorias constantemente agredidas, precisam fazer parte, efetiva, desse debate. O caminho, a meu ver, está no escancaramento desse diagnóstico tão ruim.

Uma nova estrutura deve ser pensada e constituída a partir do reconhecimento de que os agentes de hoje falharam. Pautar as questões, ações e possíveis soluções para essas violências não pode seguir sendo privilégio de apenas um grupo. Proponho, diante disso, que as Instituições esportivas formulem novas políticas que possam, concretamente, trazer resultados. Mais do que isso, proponham práticas que incluam nos órgãos diretivos novos corpos e pensamentos.

Precisamos reverter questões básicas, por exemplo: em caso de racismo, são os racistas que devem ser questionados diante das telas (constrangimento pedagógico), são as Instituições que devem responder pela sua incompetência em solucionar um problema tão antigo. Não são as vítimas que devem dar conta do racismo.

Podemos iniciar esse processo, propondo a criação, dentro dos clubes e ligas, de centros permanentes de letramento racial e de gênero. Podemos, para além de punir, formular ações que busquem educar todas as gerações de torcedores. Podemos, com o mesmo propósito, investir na inclusão de dirigentes e técnicos negros/gays/ trans etc. que façam desse cenário mais adequado e realista aos novos tempos.

Enfim, a violência escancarada e nefasta sofrida por Vinícius Junior fez o mundo “redescobrir” o racismo, o mesmo que todos os dias e a muito tempo atinge os corpos pretos. Diante disso, o que faremos agora? A resposta para essa questão deverá vir de ações estruturais e será determinante para descobrirmos se realmente eles querem mudar alguma coisa. Do contrário, seguiremos, como dizia Renato Russo, mentindo para si mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Ricardo Pinto

Doutor em História Comparada - PPGHC - UFRJ - autor de diversos livros, dentre eles: ENTRE RIVAIS - Editora MAUAD.

Como citar

SANTOS, Ricardo Pinto dos. Brasil “redescobriu” o racismo no futebol. O que faremos dessa vez?. Ludopédio, São Paulo, v. 167, n. 25, 2023.
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