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Brasil x Argentina: a politização dos anos 70/80

Fabio Perina 4 de novembro de 2021

Brasil e Argentina são como irmãos siameses do futebol. Com incríveis semelhanças nos destinos, que vão além de coincidências, mas possuem uma base concreta e histórica similar. Nesse breve texto irei apenas esboçar alguns temas dos caminhos que se cruzam entre os dois países, sem aprofundar nenhum deles no momento, mantendo a tendência ensaística que com frequência escolho. Tanto é que quase não mencionarei nem citações nem referências. E assim levantar algumas hipóteses que raramente vejo nessas discussões. Por falar em ensaio, as discussões sobre o fora de campo no contexto daquela década são ilustradas por duas grandes partidas com dois desfechos completamente distintos dentro de campo. Em 78, na chamada batalha de Rosário-ARG, um aguerrido 0 a 0 que para muitos representou o “futebol-força” daquela época principalmente da seleção brasileira com o treinador Claudio Coutinho e sua comissão técnica tão militarizada. Já em 82, no chamado baile do Sarriá-ESP, foi a melhor exibição do Brasil de Telê Santana vencendo por 3 a 1 a Argentina de Cesar Luis Menotti (o mesmo do encontro anterior) em seu breve reencontro com o “futebol-arte”.

Antes de entrar no contexto dos anos 70/80, é preciso apresentar uma hipótese mais profunda que tenho com base décadas anteriores por ser crucial para distinguir as subjetividades entre os dois países. No Brasil, a narrativa para cronistas e torcedores tende a ser mais lírica por conta do auge no futebol (58 e 62) ter coincidido com um momento positivo na política do desenvolvimentismo. Já na Argentina, a narrativa tende a ser mais dramática por conta do auge no futebol (78 e 86) ser tardio ao momento positivo na política com o peronismo (anos 40/50). A seguir uma amostra desses sentidos de “festa” para nós e de “guerra” para eles.

“O comportamento das torcidas espelha exatamente esses traços opostos: torcidas argentinas entoam cânticos incansáveis durante todo o jogo, empurrando a sua equipe independentemente do resultado, enquanto torcidas brasileiras partem de uma euforia prévia para incertezas e vaias assim que o seu time der mostras de não corresponder à idealização.” (WISNIK, 2008)

Copa 1978
Argentina x Brasil na Copa de 1978. Foto: reprodução

Em um sentido objetivo, falar do futebol nos anos 70 em ambos países é não somente sobre as conquistas de Copas do Mundo (1970 para o Brasil e 1978 para a Argentina) mas sobretudo a intensa militarização de cada seleção e sobretudo de cada sociedade após os golpes militares (1964 no Brasil e 1976 na Argentina). Em um sentido subjetivo, os caminhos de ambos países se assemelharam com os sociólogos hegemônicos Roberto Ramos e J.J. Sebreli, respectivamente. Era o momento em que uma parte do marxismo da Europa Ocidental (mas não plenamente hegemônico) encontrou uma transferência mecânica para nós aqui da América do Sul com a conhecida visão do “ópio do povo” (na verdade “ódio ao povo”) através desses teóricos. Uma visão preguiçosa a apontar o dedo aos jogadores como alienados, porém assim isentando que praticamente todos os demais setores sociais (até mesmo “esclarecidos” como médicos e advogados) estavam também incapazes em mobilizar uma oposição consistente às ditaduras. Diante de vários comentários preguiçosos e desonestos que tentam deslegitimar a conquista da Argentina em 78 pelos militares terem aproveitado isso para se legitimarem, também acrescento como hipótese que isso é querer exagerar em um caso pontual para respaldar uma suposta manipulação geral no futebol. Porém um olhar mais amplo deve sempre lembrar que nas duas décadas que Havelange foi presidente da FIFA isso coincidiu com resultados esportivos muito melhores para a Argentina do que para o Brasil, o que evidentemente desafia essa visão da manipulação ao descolá-la da realidade.

Para tratar dos anos 80, arrisco aqui uma ligação direta (ao invés de um toque de lado enfadonho) curiosa: nessa antítese entre Brasil e Argentina, a solução ou síntese veio de um terceiro elemento que é o Uruguai. Em uma licença poética, para o problema teórico anterior a solução apontou vinda de dentro de campo. Pois durante o torneio Mundialito de seleções o povo uruguaio ao comemorar o título invadiu o gramado do Centenário e pela primeira vez vaiou a ditadura com um épico “se va a caer…”. Uma lição que ficou desse episódio que os poderosos apostam no grande efeito de legitimação de uma partida a partir de sua manipulação, porém não contam que sempre pode sair do planejado alguma ação dos próprios jogadores, dos adversários ou até mesmo dos torcedores. Em suma, fazendo um importante jogo de palavras, foi um momento em que se experimentou uma substituição da negação total do futebol para entrar em campo a negação parcial.
Longe de pensar que a nova democracia tenha sido o que merecemos, a qual a cada ano revela cada vez mais seus limites, mas ao menos o futebol anunciava tempos menos obscuros com a saída de cena dos militares do governo (embora não totalmente do poder): em 1983 na Argentina e em 1985 no Brasil.

Em termos subjetivos, a réplica à antiga hipótese de “ópio do povo” (que hoje temos mais claro ser o vira-latismo e elitismo de sempre de “ódio ao povo” mas com uma roupagem intelectual) veio com os antropólogos Roberto DaMatta e Eduardo Archetti, respectivamente. Na medida em que os dois pesquisadores acompanhavam uma tendência dessa área de conhecimento de tirar o foco nas estruturas e olhar para as margens da sociedade. Futebol, carnaval e malandros aqui. Futebol, tango e polo lá. (O que são os títulos dos livros mais sugestivos de cada um deles). Estereótipos que hoje são fáceis de se questionar cientificamente, mas é preciso resgatar a enorme importância que tiveram politicamente esses ensaios naquele contexto. Ao invés de manipulação, para ambos o futebol é um importante instrumento de compensação para o povo atenuar as mazelas sociais e revigorar suas forças.

Copa 1982
Brasil x Argentina na Copa de 1982. Foto: Divulgação.

Sempre acusados de utopismo ou idealismo, esses ensaios não eram apenas idéias descoladas da realidade. Vide também nunca se esquecer que no início dos anos 80 foi quando o futebol brasileiro teve certamente o seu contexto mais progressista. Não somente dentro de campo com um brevíssimo resgate da alegria com o ‘futebol arte’ com a seleção de Telê de 1982, embora logo derrotado no Sarriá (e logo depois a tristeza da morte de Garrincha). Mas fora de campo com uma conjuntura muito singular (e essencial de ser mais difundida) da alta sindicalização dos jogadores (tendo como fortes lideranças Reinaldo, Sócrates, Vladimir e vários outros). Além da alta mobilização dos torcedores organizados paulistas e cariocas com boicotes para reivindicar uma redução nos preços dos ingressos diante de uma época de recessão econômica e perda do poder de compra do trabalhador. Em suma, recuperando objetivamente aquela correlação de forças, naquele início de década foi quando os sujeitos dominados do futebol (jogadores e torcedores) mais tiveram condições de desafiar os sujeitos dominantes (sobretudo dirigentes) quando a profunda crise na economia repercutiu também na modalidade. Até onde pude apurar algo de significativo também ocorreu na Argentina com uma greve de jogadores em 1985 motivada pela polêmica transferência do zagueiro Oscar Ruggeri e do atacante Ricardo Gareca do Boca para o River se livrando do ‘passe’. Uma das inúmeras greves (a maior delas justamente na década peronista na virada dos anos 40/50) de uma categoria bastante unida e politizada por lá ao longo das décadas. Vide ser comum que jogadores bem pagos dos clubes grandes se solidarizem com outros jogadores de clubes pequenos quando reivindicam melhores salários e outras condições de trabalho. E claro a alegria suprema de 86 com a vingança sobre os ingleses logo após a guerra das Malvinas.

Por fim, após essa réplica à hipótese falida da manipulação do futebol, acrescento como hipótese que não deveria surpreender que a direita (com o recorrente discurso que “futebol e política não se misturam”) busque tanto na prática uma politização do futebol em relação à esquerda (com o recorrente discurso do “ópio do povo”), Pois é sua tentativa desesperada de sair dos gabinetes e corredores do poder e forjar algo de ‘popular’ que ela não possui! A ela a resposta de brazucas e hermanos é que o futebol pertence a sua gente!

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Brasil x Argentina: a politização dos anos 70/80. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 6, 2021.
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