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As dores e delícias brasileiras da Libertadores

Lúcia Oliveira 30 de janeiro de 2021

Muitos sul-americanos, principalmente aqueles que são amantes do futebol, certamente já ouviram falar ou assistiram a um jogo da famosa Copa Libertadores da América. Uma das competições mais relevantes da América do Sul, a Libertadores já consagrou 24 campeões, dentre sete países, e teve sua primeira edição realizada em 1960, com sete equipes e com o Peñarol campeão.

Palmeiras e Santos decidem a Libertadores 2020 e escrevem mais uma página na história da competição. Foto: Reprodução/CBF.

O Palmeiras foi o primeiro clube brasileiro a chegar numa final de Libertadores, em 1961, no segundo ano da competição. O Santos de Pelé ganhou a edição de 62 e foi a primeira equipe do país verde e amarelo a comemorar tal título e repetiu a dose, sagrando-se bicampeão de modo consecutivo, em 63. A “época do Brasil” na disputa, no entanto, só foi notável entre os anos de 1992 e 2000.

Hoje, 60 anos depois, Palmeiras e Santos protagonizam mais uma final de Libertadores e, dessa vez, um contra o outro, no Maracanã, palco da terceira final brasileira da história da competição. Porém, antes de relembrar quais foram os outros dois confrontos, passearei pelas recordações das atuações de times brasileiros que chegaram à final da Libertadores.

O Brasil na Liberta

Antes de 1992, o Brasil só foi à final da Libertadores nove vezes. Além das três que já foram descritas, o São Paulo chegou à decisão em 74, e perdeu o título para o Independiente, clube da Argentina que já era tri campeão, e ainda ganharia no ano seguinte, tornando-se uma equipe tradicional, depois de levantar a taça três vezes consecutivas (73, 74 e 75).

Em 76, foi a vez do Cruzeiro sagrar-se campeão, única equipe que conseguiu o título para o Brasil na década de 70. O time mineiro, que tinha Joãozinho, Piazza e Raul Plassman em seu elenco, desbancou o River Plate de Roberto Perfumo e Fillol. Na edição seguinte, o Cruzeiro teve a chance do bicampeonato, porém, foi derrotado pelo Boca Juniors, clube argentino que mais tarde brilharia ainda mais na competição. No ano de 1980, o Internacional chegou à final, diante do Nacional, do Uruguai, mas ficou com o vice campeonato.

O Flamengo de Zico, que muitos torcedores sentem falta atualmente - principalmente da qualidade daquele elenco –, foi campeão em 1981, depois de superar o intenso - para não dizer violento e desleal - , estilo de jogo do Cobreloa. Já em 83, foi a vez do Grêmio erguer a taça, depois de desbancar o Peñarol, campeão da edição anterior e que àquela altura, contava com quatro títulos e era considerado favorito. No ano seguinte, o tricolor gaúcho teve a chance de ser bicampeão da América, mas não jogaram bola o suficiente para impedir que o Independiente ganhasse sua 7ª taça de Libertadores e eternizasse seu nome na história da competição.

Flamengo supera o Cobreloa e ganha sua primeira Libertadores, em 1981. Foto: Reprodução/CBF.

Um time brasileiro só voltou à decisão da Libertadores em 1992, e até 1999, uma hegemonia verde e amarela reinou, isso porque das sete edições em que esteve na final, o Brasil comemorou seis - apenas em 96, nenhum representante verde e amarelo esteve na decisão da competição.

Naquele ano, o São Paulo de Raí e Cafú deteve o Newell’s Old Boys, da Argentina, e conquistou seu primeiro título internacional e também sua primeira Libertadores. Em 93, os comandados de Telê Santana repetiram a dose e sagraram-se bicampeões da América. No ano seguinte, o tricolor paulista até chegou na final, mas o título ficou com o Vélez Sársfield, clube argentino do famoso Chilavert, grande goleiro que ficou conhecido por suas cobranças de falta e pênalti, além das confusões em campo.

O bicampeonato do Grêmio veio em 1995, quando Paulo Nunes e Jardel comandavam o ataque do tricolor gaúcho. No jogo de ida, o placar de 3 a 1, no Estádio Olímpico Monumental, em Porto Alegre, diante do Atlético Nacional, da Colômbia, deu a vantagem para os brasileiros. O Grêmio, que teve uma boa campanha naquela edição da Libertadores, confirmou o título no jogo da volta, na casa do adversário, depois de empatar em 1 a 1, e conquistou o bicampeonato.

Diante do Sporting Cristal, do Peru, em 97, o Cruzeiro também conseguiu seu bicampeonato, com a ajuda de nomes como Dida e Palhinha, este que já havia sido artilheiro do São Paulo na Libertadores de 92.

A vez do Vasco erguer a taça aconteceu em 98, contra o Barcelona de Guayaquil. Depois de vencer em casa por 2 a 0, com gols da dupla Donizete e Luizão, a equipe carioca foi recebida pelo clima hostil que os torcedores equatorianos proporcionaram: ônibus apedrejado, fumaça no estádio e até mesmo nos vestiários. Entretanto, nada impediu o cruzmaltino de ganhar aquela Libertadores, que até hoje é o seu único título na competição, depois que aquela mesma dupla repetiu o feito do jogo de ida, mas na casa do adversário.

No ano seguinte, o Palmeiras teve sua terceira chance de título, isso porque havia amargado o vice em 1968 contra o poderoso Independiente. Em 1999 a história foi diferente e o alviverde não desperdiçou. 

Elenco palmeirense do título de 1999. Foto: Reprodução/palmeiras.com.

Diante do Deportivo Cáli, no antigo Palestra Itália - hoje Allianz Parque -, o clube paulista precisava de uma vitória por, pelo menos, dois gols de diferença, isso porque o jogo de ida havia sido 1 a 0 para o time colombiano, assim, qualquer empate o favorecia. Felipão, técnico palmeirense, havia moldado o elenco “a sua maneira” e deu certo. 

No tempo normal, a equipe brasileira venceu por 2 a 1, mas com o agregado, o jogo precisou ser decidido nos pênaltis. Apesar da tensão e do ar dramático que se dissipou pelo estádio, a confiança no Palmeiras era grande e, por fim, foi confirmada, depois de ser superior ao Deportivo por 4 a 3 nas cobranças. Enfim, a primeira taça foi erguida. 

Essa é a única conquista palestrina até os dias de hoje, mas logo em no ano seguinte, em 2000, num Morumbi lotado com 75 mil palmeirenses e depois de empatar em 2 a 2 em La Bombonera, o Palmeiras empatou sem gols no tempo normal, foi derrotado nos pênaltis e acabou com o vice campeonato diante do Boca Juniors e de um Maradona ensandecido nas tribunas.

Em 2002, por pouco não se viu o que seria a primeira final brasileira. O Olímpia, do Paraguai, eliminou o Grêmio e impediu a busca do time brasileiro pelo tricampeonato. No entanto, do outro lado gramado, estava o São Caetano, equipe paulista que venceu o jogo de ida por 1 a 0, mas no Pacaembu não conseguiu administrar sua vantagem, perdeu na partida de volta por 2 a 1 e foi vice campeão nas penalidades.

O Santos enfrentou o Boca Juniors na final de 2003, mas a tradição do time argentino não permitiu que o Brasil comemorasse o título. No famoso estádio La Bombonera, os donos da casa venceram por 2 a 0. Na volta, no Morumbi, a América ficou amarela e azul pela quinta vez, depois do Boca confirmar o título com mais uma vitória, daquela vez por 3 a 1. O hexa do Boca Juniors veio em 2007, diante do Grêmio. Antes disso, porém, outro brasileiro chegou à decisão e foi para conquistar o tri, mas vamos falar de São Paulo x Internacional mais a frente.

Já em 2008, o Fluminense teve sua chance de erguer a taça da Libertadores. Porém, a equipe brasileira - depois de perder a partida de ida por 4 a 2 e vencer o jogo da volta por 3 a 1, contra a LDU - viu o sonho do título parar nas defesas do goleiro equatoriano e o placar final das penalidades marcar 3 a 1 para os adversários.

A campanha do título do Internacional, em 2010, começou nas quartas de final da Libertadores. Depois de bater o Chivas Guadalajara por 2 a 1 no jogo de ida, o colorado ergueu a taça no Beira-Rio, depois de mais uma vitória, pelo placar de 3 a 2, com a torcida eternizando as atuações de Rafael Sóbis e Leandro Damião.

Santos e Peñarol revivem a final de 62. Porém, em 2011, o time brasileiro ergueu a taça da competição. Foto: Reprodução/Wikipedia.

Santos e Peñarol reviveram a final de 62, agora em 2011. Com a dupla Neymar e Paulo Henrique Ganso, o time brasileiro empatou em 0 a 0 na partida de ida, venceu o jogo da volta por 2 a 1, no Pacaembu, e sagrou-se tricampeão da Libertadores, o que até hoje é o título mais recente do clube paulista, que em 2021, novamente tem a chance de ficar com a taça.

Em 2012, o Corinthians fez uma campanha invicta: seis empates e oito vitórias. Um desses empates aconteceu no jogo de ida da final, contra o Boca Juniors. O 1 a 1 não deixou claro quem seria o campeão, havia o notório favoritismo do “time sem estrelas” de Tite de um lado e do outro, o tradicionalíssimo Boca, dono de seis títulos. O Pacaembu, palco do duelo da volta, foi o cenário onde Emerson Sheik brilhou e com seus dois gols, deu ao time paulista seu primeiro e único título de Libertadores.

A melhor campanha da edição de 2013 foi do Atlético Mineiro, não a toa o time de Ronaldinho Gaúcho ergueu a taça de campeão, único título da Libertadores até hoje. No entanto, o caminho até à comemoração foi árduo, pois perdeu o jogo de ida, diante do Olimpia, no Paraguai, por 2 a 0. Na volta, no Mineirão, Jô e Léo Silva marcaram e levaram a decisão aos pênaltis. A tensão só se dissipou depois que o placar marcou 4 a 3 nas penalidades para os mineiros.

Os comandados de Renato Portaluppi garantiram o título de tricampeão em 2017, diante do Lanús, da Argentina. Com uma vitória em cada jogo - 1 a 0 na ida e 2 a 1 na volta - ergueram a taça no estádio La Fortaleza, casa do adversário.

O Flamengo de Jorge Jesus, que muitos sentem saudades principalmente no atual momento do time, ficou com o título em 2019. Em seu bicampeonato, diante do River Plate, Gabigol (agora só Gabi) marcou os dois tentos que deram a taça ao rubro-negro carioca. Naquele ano, o time brasileiro fez uma temporada dos sonhos e venceu a tríplice coroa - Campeonato Carioca, Campeonato Brasileiro e Libertadores - , um time que marcou uma era.

Decisões brasileiras

A Libertadores nunca havia sido decidida por dois clubes do mesmo país até que entre 2005 e 2006, o Brasil ensaiou uma hegemonia continental: São Paulo e Atlético Paranaense protagonizaram a primeira final de times do mesmo país da história da competição, e no ano seguinte o Internacional disputou o troféu com o tricolor paulista.

Em 2005, na primeira final brasileira, no jogo de ida, o empate em 1 a 1, no Beira-Rio, não deixou claro quem seria campeão. Essa partida, na verdade, foi mais marcada por confusões, isso porque o Atlético foi impedido de jogar na Arena da Baixa pela Conmebol, que alegou que o estádio atleticano não tinha a capacidade exigida para que pudesse abrigar o jogo.

Em 2005, na primeira final brasileira da história da Libertadores, o São Paulo sagrou-se campeão diante do Atlético Paranaense. Foto: Reprodução/Wikipedia.

Apesar de instalar as arquibancadas tubulares para cumprir o regulamento e de conseguir a aprovação de todas as autoridades necessárias, a entidade não voltou atrás de sua decisão - determinação no mínimo incoerente quando se considera o status de “arena moderna” que o estádio atleticano historicamente ostentou..

Já no Morumbi, rodeado de muita polêmica devido ao imbróglio que se alongou durante o intervalo de tempo entre as partidas, o jogo da volta consagrou o time de Rogério Ceni e rendeu ao tricolor paulista seu terceiro título de Libertadores, depois de bater o Atlético PR por 4 a 0.

No ano seguinte, mais uma final brasileira: novamente o São Paulo, agora diante do Internacional. No jogo de ida, o colorado venceu por 2 a 1, no Morumbi, o que forçava o clube paulista a tentar uma vitória por dois gols de diferença fora de casa. Porém, isso ficou apenas nos planos são paulinos. Qualquer empate favorecia ao Inter, e foi justamente o que aconteceu. No Beira-Rio, o placar acabou em 2 a 2 e em festa do lado gaúcho, que marcou o primeiro título de Libertadores do colorado.

Mais história

Quem será o novo campeão da América? Foto: Reprodução/Conmenbol.

Hoje, às 17h, a terceira final brasileira da história da Libertadores terá Palmeiras e Santos como protagonistas, buscando o título da competição, em jogo único. Ambas as equipes fizeram uma boa campanha nas fases da disputa e, agora, uma delas terá a chance de ser campeã continental.

Ao olhar um pouco mais adiante, a história da competição também mostra que o campeão de uma final brasileira foi também vencedor do Mundial de Clubes. Em 2005, o São Paulo comemorou esse título diante do Liverpool e, no ano seguinte, o Internacional viveu a mesma glória, depois de vencer o Barcelona. 

Agora, Palmeiras e Santos vivem essa mesma expectativa. Os times que consagraram e foram consagrados por Pelé e Ademir da Guia, que protagonizaram uma decisão eletrizante de Copa do Brasil e que fazem um dos clássicos mais tradicionais do país terão título mais cobiçado das Américas decidido em 90 minutos. 

Mais uma página do livro Libertadores será escrita, pela torcida de santistas, o capítulo contará o tetra em preto e branco, já entre a torcida palmeirense, o desejo é por colorir as páginas da Liberta 2020 de verde e branco com o bicampeonato.


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Lúcia Oliveira

Amante da comunicação, da escrita, da fotografia, do futebol, da literatura, do jornalismo, entre outras coisas. Escrevo para eternizar e vivo para escrever.

Como citar

OLIVEIRA, Lúcia. As dores e delícias brasileiras da Libertadores. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 56, 2021.
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