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Calendário brasileiro de futebol: principais críticas e uma proposta bem possível

Marcel Diego Tonini 24 de abril de 2012

Quem acompanha futebol sabe que o calendário brasileiro carece de muitas mudanças, e não é de hoje. Nos programas de rádio e televisão, ou mesmo na internet, os jornalistas esportivos expõem as suas críticas a respeito e propõem alternativas diversas e, por vezes, contraditórias. Tentarei aqui sintetizar os principais argumentos e, em seguida, sugerir um calendário possível que seria melhor para todos, ao menos para clubes, jogadores e torcedores.

Digo isto porque, do jeito que está o calendário, com um grande número de datas mal distribuídas, ele só beneficia, teoricamente, a mídia esportiva e, certamente, os dirigentes de futebol. Em tese, quantos mais jogos, maior serão o consumo dos torcedores e, consequentemente, o lucro por quem emite ou noticia tais partidas. No entanto, se o espetáculo (“o produto”, como dizem alguns jornalistas) deixa a desejar, seja pela qualidade técnica ou pela organização do evento, o consumo diminui. É o que vem ocorrendo há muitos anos, sobretudo nos campeonatos estaduais. Basta ver a crescente queda de público e de prestígio desses certames, não só por parte dos torcedores mas também pelos principais clubes, os quais cada vez mais escalam reservas para a disputa dos jogos.

O que era para ser bom passou a ser ruim até mesmo para a mídia esportiva, cujos jornalistas – excetuando obviamente os “globais” – estão recorrentemente tecendo suas inúmeras críticas. Embora pague pelo direito de transmissão dos principais campeonatos do país, a Rede Globo prefere um calendário “recheado” a um qualificado. A preferência, suponho, deve-se à garantia de audiência (até quando?), mesmo que mediana, ao longo de toda a temporada, ao invés de se arriscar por prováveis altos índices em um número menor, porém mais atraentes, de partidas. Afinal, o que fazer se os clubes grandes forem sendo desclassificados nos torneios com fases eliminatórias? A meu ver, esse é outro problema. Como diz o ditado do futebol, “quem tem medo de ganhar, perde”.

O presidente da CBF José Maria Marin fala durante coletiva na sede da CBF. Foto: Mowa Press.

Contudo, os maiores beneficiados com o calendário que está posto são as federações estaduais ou, melhor dizendo, os seus dirigentes. Com a permanência dos campeonatos estaduais, eles mantêm o que sobrou de poder sobre os clubes da sua região. Essa é uma das maneiras que a CBF, por sua vez, barganha apoio político. Outra é oferecer cargos na própria instituição ou fazer convites para acompanhar a delegação brasileira em partidas oficiais, como foi feito nesses últimos dias ao André Luiz de Oliveira, à Patrícia Amorim e ao Delfim Pádua Peixoto Filho, numa clara troca de favores.

Feitas essas considerações, vamos aos pontos mais criticados do calendário brasileiro de futebol:

1. Pré-temporada maior: é fundamental para que os atletas façam os exames médicos necessários e se preparem fisicamente para toda a temporada, diminuindo as chances de sofrer lesões.

2. Campeonatos estaduais, regionais ou o que fazer com o início da temporada? Esse é um dos pontos mais polêmicos. Uns defendem que os campeonatos estaduais têm tradição e que por isso não devem acabar. Outros acham que torneios regionais atrairiam mais os torcedores e representariam maior dificuldade aos grandes clubes, os quais disputam os títulos de seus estados apenas entre si. A meu ver, 23 datas para os mesmos é desperdiçar oportunidade de organizar um calendário melhor para todos: clubes, jogadores, torcedores e mídia esportiva. Se a ideia é manter tais competições, ao menos poderiam diminuir o número de participantes e de jogos, além de estabelecer formatos mais atraentes, como o de Copa (grupos e finais). Caso contrário, haveria tempo suficiente para uma preparação adequada para a disputa de campeonatos (Brasileiro e Copa do Brasil), os quais poderiam ser disputados ao longo de toda temporada. Aqui, aliás, está outro erro grave cometido pelos nossos dirigentes: os melhores clubes brasileiros de um ano são penalizados por suas campanhas de destaque e deixam de participar da Copa do Brasil do ano seguinte, este que deveria ser o segundo campeonato mais importante do país. Afinal, o título desse certame vale muito mais do que a vaga na Copa Libertadores do ano vindouro, se não para clubes grandes como Grêmio, Cruzeiro e Corinthians, ao menos para agremiações menores como Sport, Paulista e Santo André, para os quais isso representa, e representou, um feito na sua história.

3. Adequação ao calendário do futebol europeu: infelizmente, em virtude do poderio econômico, a Europa controla o calendário do futebol mundial. Isso é um fato que já foi aceito e encarado pela maioria das federações nacionais de futebol, tais como Argentina, Uruguai e México. Nesses países, são disputados dois campeonatos nacionais por ano, um em cada semestre. Com um calendário pari passu, as competições e os clubes desses países sofrem menos com a saída dos seus principais jogadores ao longo do certame. No Brasil, ao contrário, as janelas de transferências internacionais estão abertas em boa parte do ano justamente por conta do descompasso nos calendários, acarretando na venda de jogadores durante o Campeonato Brasileiro e, consequentemente, em grandes alterações na tabela de classificação. Dessa maneira, os nossos clubes ficam num dilema: realizar bons negócios no meio da competição ou tentar melhores posições na classificação mantendo seus atletas? Como futebol não é uma ciência exata em que se pode calcular e prever tudo, as agremiações geralmente optam por vendê-los, e quem sai perdendo é o nosso ludopédio. A adequação ao calendário do futebol europeu permitiria ainda a intertemporada em algumas semanas de junho-julho. Com essa pausa no calendário, os clubes brasileiros poderiam disputar amistosos ou torneios internacionais, valorizando suas marcas e gerando renda. Nos últimos anos, esse tem sido um desejo externado por alguns dirigentes.

4. Adequação às datas FIFA: nas últimas décadas, como os jogadores da Seleção Brasileira geralmente atuavam no exterior, o calendário daqui acabou não respeitando as datas FIFA, uma vez que não prejudicaria os clubes brasileiros. Acontece que, com o fracasso nacional nas duas últimas Copas do Mundo, os treinadores da Seleção optaram por uma “renovação” do grupo de jogadores e passaram a convocar atletas jovens que atuam, ou atuavam até então, nos clubes daqui. Essa seria uma medida, inclusive, para que o “povo brasileiro”, como foi dito algumas vezes, se identificasse mais com o selecionado de compatriotas que jogam no exterior – afinal, um dos efeitos dessa convocação de brasileiros-estrangeiros é uma identificação muito mais intensa com os clubes do que com a Seleção. Enfim, o desrespeito às datas FIFA prejudica aqueles clubes brasileiros cujos futebolistas são agraciados com a convocação. O Santos talvez seja hoje o maior exemplo disso. O que os nossos dirigentes não percebem é que essa atitude é um “tiro no pé”, pois desprestigia não só os campeonatos que continuam em disputa aqui como a própria “amarelinha”, que anda cada vez mais “desbotada”, como ironicamente diz o jornalista José Roberto Malia.

Penso que, embora existam outras, essas são as principais críticas levantadas por aqueles que acompanham o nosso futebol. Cabe agora, mesmo sabendo que tudo pode ser melhorado ou sugerido de outra maneira, propor um calendário com os campeonatos que estão postos, a saber: estaduais, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro (turno e returno), Copa Libertadores da América, Copa Sul-Americana, Recopa Sul-Americana e Mundial de Clubes. É o que tentei fazer a seguir:

Como podem notar, ao lado da sigla de cada campeonato, há um número que corresponde às datas ou rodadas. Assim, os estaduais teriam 12 dias de jogos. Por exemplo, o Campeonato Paulista, cujos dirigentes dizem possuir o maior número de clubes de interior dentre todos os estaduais (embora com baixíssima qualidade técnica), poderia ter 16 deles (diminuindo em apenas 4 em relação ao modelo atual) divididos em 4 grupos (um grande em cada chave), com turno e returno, classificando-se os 2 melhores. Seria seguido de quartas de final, semifinal e final, todos com jogos de ida e volta. Esse formato pode não ser o melhor, mas, certamente, é muito mais atraente e justo.

Outra forma de organização, por exemplo, seria dividir 12 times em duas chaves, com turno e returno, classificando-se apenas os primeiros de cada grupo para a final, a qual seria disputada em 2 jogos. Provavelmente, nesse formato, os clubes pequenos participariam de modo figurativo, tendo pouquíssima chance de classificação. Convenhamos, a disputa ou eleição de um campeão do interior, como é feito desde 2006 (sendo que em alguns anos houve equipes do interior com classificação melhor do que os “campeões” do interior), é um atestado de que o certame é feito para que os grandes vençam.

A Copa do Brasil manteria 12 datas, continuando o formato atual: 1ª fase, 2ª fase, oitavas de final, quartas de final, semifinal e final. A diferença é que seria disputada ao longo da temporada e contaria com a presença dos clubes que se classificam para a Copa Libertadores da América. O Campeonato Brasileiro também ocorreria no decorrer do ano e poderia tanto ser dividido em dois títulos, turno e returno, do mesmo modo que acontece nos países sul-americanos vizinhos (apertura e clausura), como preservar as 38 rodadas, definindo apenas um campeão. O calendário proposto poderia até retomar – talvez no mês de julho ou no início da temporada – uma competição esquecida, a Supercopa do Brasil, que reunia o campeão da Copa do Brasil e o campeão Brasileiro, sendo disputada nos anos de 1990 e 1991. Certamente, proporcionaria grandes jogos.

Torcida presente no jogo entre Ipatinga x Grêmio em jogo válido pela Copa Kia do Brasil 2012. Foto: Wolmer Ezequiel – VIPCOMM.

Tanto a Copa Libertadores da América quanto a Copa Sul-Americana manteriam os respectivos formatos, a primeira competição com 14 datas (sem contar a fase preliminar), a segunda com 12. A diferença, tal como na Copa do Brasil e no Campeonato Brasileiro, é que seriam disputados ao longo da temporada. Para quem acha inviável, tais competições, a exemplo da Liga dos Campeões da Europa e da Liga Europa, poderiam iniciar suas atividades no 2º semestre e terminá-las no 1º semestre do ano seguinte, adequando-se melhor talvez ao calendário europeu. Caso seja mantido o que foi proposto nesse cronograma, ou seja, com os campeões sendo definidos no mês de outubro, provavelmente o campeão da Copa Libertadores da América chegaria confiante e manteria a base vencedora para disputar o Mundial de Clubes da FIFA. Esta competição, assim como a Recopa Sul-Americana, exigiria os mesmos dois dias de jogos que na atualidade.

Da maneira como foi sugerido, um clube brasileiro faria no máximo 80 partidas por ano, disputando 6 títulos. Como essa é uma façanha raríssima de acontecer, a menos que se tenha num mesmo time Messi, Xavi e Iniesta, algumas rodadas do Campeonato Brasileiro poderiam ser rearranjadas, de modo que a temporada terminasse antes, permitindo aumentar o tempo tanto da pré quanto da intertemporada. Entre 2008 e 2009, o Barcelona, daqueles jogadores citados, venceu todos os 6 campeonatos que disputou, realizando ao todo 67 jogos (38 do Campeonato Espanhol, 9 da Copa do Rei, 2 da Supercopa da Espanha, 15 da Liga dos Campeões da Europa, 1 da Supercopa da UEFA e 2 do Mundial de Clubes da FIFA).

Já o Santos, no ano passado, competiu em 4 certames, sagrando-se campeão em dois deles (Campeonato Paulista e Copa Libertadores da América), porém totalizando 77 partidas (38 do Campeonato Brasileiro, 23 do Campeonato Paulista, 14 da Copa Libertadores da América e 2 do Mundial de Clubes da FIFA). Isso porque ainda não foram contabilizadas 2 partidas referentes à Recopa Sul-Americana. A meu ver, não resta dúvida qual torneio está sobrecarregando a temporada brasileira, sem trazer, contudo, grandes benefícios ou glórias aos seus participantes.

O número de jogos disputados por aqui é tamanho que, ao longo das competições, os clubes são obrigados a poupar seus jogadores, por vezes em clássicos ou em partidas importantes devido à má organização na combinação de certames. Afinal, no calendário atual, não há uma definição clara dos dias de jogos. Não são raras as partidas atrasadas. Não à toa, embora saiba que o calendário proposto pode e deve ser melhorado, tenho convicção de que ele é melhor do que o que está posto, até porque, convenhamos novamente, para isso não são necessárias grandes alterações. Da maneira como foi sugerido, a maioria dos clubes, conforme fosse afunilando as competições de meio de semana, teria mais tempo para recuperar os seus atletas e treinar tática e tecnicamente. Espero que os argumentos expostos tenham sido suficientes para escancarar as fragilidades do calendário brasileiro de futebol e mostrar como não é nada difícil reelaborá-lo de uma maneira muito mais benéfica para o nosso ludopédio.

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Marcel Diego Tonini

É doutor (2016) e mestre (2010) em História Social pela Universidade de São Paulo, sendo também bacharel (2006) e licenciado (2005) em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP - Campus de Araraquara). Integra o Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO-USP) e o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS-USP). Tem experiência nas áreas de Ciências Sociais e História, com ênfase em Sociologia do Esporte, Relações Étnico-raciais, História Oral e História Sociocultural do Futebol, trabalhando principalmente com os seguintes temas: futebol, racismo, xenofobia, migração, memória e identidade.

Como citar

TONINI, Marcel Diego. Calendário brasileiro de futebol: principais críticas e uma proposta bem possível. Ludopédio, São Paulo, v. 34, n. 7, 2012.
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