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Camisas de futebol: mais que um pedaço de pano

Rodrigo Marciel 14 de fevereiro de 2021

Enquanto a Espanha debatia se era uma ofensa ou não usar o roxo/azul na camiseta do último Mundial, ficava claro que a discussão não era nova. As seleções e os clubes transformaram o pedaço de pano em uma questão de Estado ao longo da História. Visitamos algumas dessas anedotas. 

Celtic

O mundo do futebol vive momentos repletos de intensidade política. E nem o material esportivo passa ileso, como no caso do Barça, com a senyera, que sempre gera discussão, ainda que não seja algo novo. Se olharmos para trás, encontraremos histórias que definem um clube, uma cultura, e em alguns casos, um país. O cinza, por exemplo, foi alvo de perseguições na Inglaterra. Quando o futebol voltou para a sua casa (na Eurocopa de 1996, na Inglaterra), a seleção inglesa vestia sua clássica camisa branca e calção azul-marinho, e o uniforme reserva passou a ser em vermelho, com detalhes discretos em cinza. O desfecho da Euro viu a Inglaterra cair nos pênaltis em Wembley, usando aquela cor que nunca mais deu sinal de vida. Foi uma ousadia jogar na catedral do futebol com um fardamento tão distante do glamour da seleção nacional.

A maldição do cinza não era mais do que uma histeria coletiva, por mais um fracasso do seleção inglesa, ainda mais em casa. É claro que o uniforme não influencia em nada, mas motiva fetichismos radicais de um lado e de outro. Esse cinza havia suscitado conversa na Inglaterra alguns meses antes de disputar a Euro. No dia 13 de abril de 1996, o Manchester United viajou para o antigo campo do Southampton (The Dell). Os “Saints”, guiados pela magia de Le Tissier, saíram com um retumbante 3 a 0 no intervalo, uma das mais pesadas humilhações sofridas pelo clube de Old Trafford. Quando o United entrou no terreno de jogo, após o intervalo, com os jogadores vestindo o terceiro uniforme (um azul com listras brancas com calção e meias azuis) O que aconteceu com o cinza? Por que essa mudança?

Com aquela combinação de cores, o United não havia vencido um jogo naquele ano. Além do mais, dos cincos jogos disputados, perdeu quatro e empatou um. Com a mudança, o United melhorou em Southampton, embora só conseguiu diminuir a distância, com um gol de Giggs no final. Dois dois depois, a marca esportiva Umbro acabou com aquela combinação de cores malditas, um pedido do próprio Manchester United.

Camisa Manchester United

Lee Sharpe, jogador do United daquela época, confessou que as primeiras palavras de Fergunson no intervalo foram: “Get that kit off, you’re getting changed” (“Tire essa camisa, vocês vão trocar!”). O United ganhou a Premier League e jamais voltou a usar aquelas cores na ilustre camisa dos red devils. Independentemente do gosto ou das maldições, o que define os laços de um clube e sua cultura são as cores da sua camiseta. O verde sempre identificará o Celtic pelos seus laços irlandeses, enquanto que o azul, branco e vermelho (cores da bandeira britânica) simbolizam o caráter “unionista” do Rangers. 

A camiseta da Internazionale, com a cruz de São Jorge, provocou muitas críticas, embora nada seja mais curioso do que aquilo que distinguiu o Celtic por muito tempo. Até 1960, não se usavam os números nas costas, e só introduziram a numeração no calção, para manter a tradição da camiseta “limpa”. Esse sinal de respeito às origens foi impulsionado pelo mítico Robert Kelly (presidente do Celtic entre 1947 a 1971), famoso por suas decisões inovadoras que levaram os católicos aos seus melhores anos.

Camisas futebol

Na Europa, o Celtic pode manter essa tradição até 1975, quando a UEFA obrigou a inserir a numeração nas camisas. Na Escócia, a Scottish FA permitiu as camisas “limpas” até 1994, quando adotou a numeração pela primeira vez. Até então, os números nos calções foram uma marca registrada dos uniformes do Celtic.

Na temporada 1994-1995, o Celtic foi forçado pela SFA a usar numeração na camisa, depois que um árbitro se confundiu na hora de dar um cartão para um jogador. O árbitro culpou a “singularidade” do uniforme do Celtic e que, segundo ele, o número enorme no calção não era suficiente para identificar os jogadores.

O fato irritou tanto o clube, que a resposta veio com numeração nas mangas, e não nas costas. No final, o Celtic teve que ceder e romper com uma tradição, que hoje muitos pedem a volta em sua homenagem. Além disso, há grupos no Facebook que pedem a volta daquela camisa tão característica que identifica a equipe campeã da Europa em 1967. Venceram com os números no calção, e depois de 1994 nada foi como antes.

As marcas também se destacaram e desempenharam um papel fundamental, e muitas vezes levaram à obsessão. Seleções como a da Dinamarca, sempre vestiram a Hummel, enquanto a Alemanha veste Adidas, e isso parece uma fixação. Em 2017, a federação alemã recebeu uma oferta assombrosa da Nike, que estava disposta a pagar seis vezes o que a Adidas pagava. No entanto, os alemães decidiram continuar com os seus uniformes clássicos antes de romperem com uma tradição que havia iniciado em 1954. Depois da recusa da oferta da Nike, nada parece separar o país de Merkel de sua marca.

 

Tradução: Victor de Leonardo Figols


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Como citar

MARCIEL, Rodrigo. Camisas de futebol: mais que um pedaço de pano. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 30, 2021.
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