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Capitão Cláudio Coutinho: símbolo da militarização do futebol

Miguel Enrique Stédile 3 de fevereiro de 2022

A militarização da seleção brasileira durante a ditadura empresarial – militar – ou seja, a incorporação dos princípios da Lei de Segurança Nacional ao futebol – foi um processo com múltiplos agentes, civis e militares. Entretanto, o Capitão Cláudio Pêcego Coutinho merece destaque por sua contribuição e presença nas distintas fases deste projeto.

O marco simbólico do início da militarização da Seleção é a audiência realizada em 3 de dezembro de 1968, quando o então presidente Costa e Silva exige da CBD a conquista do tricampeonato mundial, igualmente comprometendo o governo com o Projeto México. Para a sua execução, o preparador físico da Seleção Brasileira, Admildo Chirol recruta outros três preparadores – os capitães Cláudio Coutinho, Kleber Camerino e Benedito José Bonetti – na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx), a principal referência do país em estudos científicos e tecnológicos sobre o movimento do corpo.

Claudio Coutinho era filho do General Achilles Lima de Moraes Coutinho. Seu irmão, um primo e um sobrinho eram também oficiais de alta patente. Formado na Academia Militar dos Agulhas Negras (AMAN) em 1959, Coutinho cursaria a EsEFEx em 1965. Em entrevista para Placar, em maio de 1979, Coutinho relembraria que em 1964, “fiquei do lado da Revolução” diante de uma cisão na Escola de Paraquedismo do Rio. “Estavam planejando um atentado contra Carlos Lacerda, mas acabou falhando graças a nossa interferência”, relembrou. Como preparador físico, coube a ele introduzir e popularizar o método “Cooper” no Brasil. E foi Coutinho quem apresentou João Saldanha à Lamartine Pereira da Costa, responsável pela elaboração do projeto de preparação física e adaptação dos jogadores ao clima mexicano.

Carlos Alberto Parreira, Zagallo e Cláudio Coutinho. O núcleo da Comissão Técnica de 1970 e 1974
Carlos Alberto Parreira, Zagallo e Cláudio Coutinho. O núcleo da Comissão Técnica de 1970 e 1974. Foto: Reprodução Placar.

Em 1974, a comissão técnica vitoriosa na Copa anterior foi mantida, com o acréscimo de mais militares, e Coutinho promovido à supervisor técnico. A militarização era acentuada com a permanência do esquema de segurança rígido, afastando jogadores da imprensa e dos torcedores, a adoção de um toque de alvorada como nos quartéis e a prática da censura, adotada no “Manifesto de Glasgow”, redigido pelo próprio Cláudio Coutinho, quando os jogadores anunciaram que não falariam mais com a imprensa. Supostamente a decisão partia da irritação dos jogadores com notícias referentes ao comportamento extracampo, mas também blindava a seleção sobre os medíocres resultados nas partidas.

Após o fracasso brasileiro na Copa da Alemanha, Coutinho teve passagens por comissões técnicas na Seleção do Peru, no Vasco e Olympique de Marseille. Em 1976, dirigiu a Seleção Olímpica para os jogos de Montreal (1976), passando de Supervisor para Técnico, após a demissão de Zizinho às vésperas da competição, e conquistando o quarto lugar. Como técnico, Coutinho nem sequer havia completado um ano à frente do Flamengo, quando foi escolhido como substituto de Osvaldo Brandão para a Copa de 1978. O que lhe faltava em experiência, sobrava em confiança da CBD, agora sob o comando militar do Almirante Heleno Nunes, dirigente da ARENA fluminense.

Porém, Coutinho não era um burocrata ou um militar alçado à sorte ao comando da seleção. Partindo das avaliações da Copa anterior de que a arte e a habilidade do futebol sul-americano foram superadas pela força e técnica dos europeus, Coutinho estudou as equipes e os modelos táticos da Europa, procurando introduzir conceitos como “ponto futuro” e “overlaping”, que eram inclusive motivo de chacota da imprensa e torcedores.

Segundo Coutinho: o jogador deveria ser “capaz de desempenhar, no campo, diversas ou múltiplas funções. O jogador que se mexe, que procura espaços vazios, que procura cobrir um companheiro – enfim, o jogador polivalente. Exatamente o antagonismo de especialização” (PLACAR, n.º366, 29/04/1977,p.30). Incompreendida em 1977, esta definição é o padrão de organização do futebol contemporâneo.

Coutinho era alvo das charges de Laerte nas páginas de Placar (n.º376, 08/07/1977)
Coutinho era alvo das charges de Laerte nas páginas de Placar (n.º376, 08/07/1977)

Por um lado, a comissão técnica de 1978 era a menos militarizada em sua composição, em comparação com as duas copas anteriores, incluindo apenas os “veteranos” major Carlos Alberto Cavalheiro como supervisor, o Tenente Raul Carlesso como treinador de goleiros e o capitão Kleber Camerino.

Por outro, os princípios da Doutrina de Segurança Nacional seguiam regiamente aplicados aos jogadores. Durante a preparação para o Mundial, Coutinho acrescentou como critério para a convocação a “boa conduta dentro e fora do campo” e o regulamento da Seleção exigia ainda que os atletas se apresentem “sempre barbeados, com cabelos cortados e penteados”. O atacante Reinaldo, conhecido por suas posições políticas na imprensa, recebia vigilância especial, mas não era o único. O atacante Dirceu foi “ metido dentro de uma Kombi e remetido para o Rio de Janeiro. Mas exatamente a sede da C.B.D” para receber um sermão por ter criticado Coutinho e Rivelino em público (PLACAR, n. 420, p. 11). E jogadores como Paulo César Caju e Marinho Chagas sequer foram incluídos no grupo que disputaria a competição.

Reprodução Placar n.º 375 01/07/1977.
Reprodução Placar n.º 375 01/07/1977.

Apesar de uma classificação tranquila nas eliminatórias, as expectativas com a Seleção brasileira se dissiparam rapidamente na Copa disputada na Argentina. O Brasil estreou com um empate com a Suécia (1×1), seguido por outro sem gols com a Espanha. Os maus resultados foram suficientes para que a Seleção sofresse, literalmente, uma intervenção do presidente da CBD, ainda no vestiário da segunda partida, exigindo as escalações de Roberto Dinamite e de Jorge Mendonça nas posições de Reinaldo e Zico.

Durante a crise, Coutinho, primeiro, transferiu a responsabilidade aos jogadores, insinuando covardia dos atletas, e, em seguida, deixando de atender a imprensa estrangeira. Mais tarde, Coutinho não atenderia nenhum veículo, enviando em seu lugar um gravador com uma fita gravada com declarações.

Em campo, a intervenção do almirante Heleno surtiu efeito e o Brasil alcançou sua primeira vitória na competição, 1 a 0 contra a Áustria, justamente com o gol de Roberto, escalado pelo presidente da CBD. Na fase seguinte, com a vitória por 3 a 0 sobre o Peru, o otimismo ganha o vestiário da Seleção, com inúmeras declarações de confiança de que a equipe chegaria à final, apesar de um novo empate sem gols, agora com a Argentina. Na última rodada, apesar da vitória brasileira por 3 a 1 sobre a Polônia, a Argentina superou a diferença de gols com uma improvável goleada de 6 a 0 sobre os peruanos, classificando-se para a final.

Reprodução Placar n.º373, 17/06/1977.
Reprodução Placar n.º373, 17/06/1977.

A conquista do terceiro lugar foi considerado um fracasso e Cláudio Coutinho como o seu grande responsável. A interpretação presente em 1974, consolidada em 1970, é mais uma vez afirmada, em um inverso do “vira-latismo” da década de 1950: a potencialidade do Brasil encontra-se em sua identidade, em seu estilo de jogo, os portadores deste dom são os jogadores. A tecnocracia não é capaz de acessar ou compreender esta qualidade nacional. Ao contrário, tenta ordená-la, robotizá-la, cercear sua criatividade e limitá-la a um modelo exógeno, europeu. E a vitória de uma seleção sul-americana, a Argentina, comprovava esta tese para torcedores e jornalistas.

Soma-se a este diagnóstico um campeonato brasileiro notadamente inflacionado por motivos políticos, disputado em longas temporadas e com fórmulas excêntricas, cujos organizadores também foram responsáveis pela ostentadora e luxuosa delegação brasileira na Copa.

Coutinho ainda voltaria a dirigir a seleção durante a Copa América em 1979. Mas o fracasso da mais militarizada das seleções selaria tanto o seu destino, quanto do presidente da CBD e da própria militarização do futebol. A criação da CBF e o retorno do comando ao civil ao futebol antecipavam o fim da militarização do esporte.

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Miguel Enrique Stédile

Doutor e Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor de "Da Fábrica à várzea: clubes de futebol operário em Porto Alegre" (Prismas, 2015) e co-autor de "À sombra das chuteiras meridionais: uma História Social do futebol (e outras coisas...)" (Fi,2020).

Como citar

STéDILE, Miguel Enrique. Capitão Cláudio Coutinho: símbolo da militarização do futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 4, 2022.
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