A bola vai para a lateral do campo de ataque da seleção da Argentina, que não tem pressa, já que vence a partida final da Copa América de 2004, contra os brasileiros, em Lima. Com ela está Carlos Tevez, que frente ao lateral Maicon, pisa-a, espera o marcador, gasta o tempo. Não demora para que os adversários se irritem e Luís Fabiano atravesse o campo para derrubar o atacante argentino, que a seguir será substituído. Não terá, portanto, a possibilidade de ser um dos cobradores de pênalti na contenda que seguirá à partida – o Brasil empatará o jogo no último minuto, com Adriano, e vencerá a disputa subsequente, com um show de penalidades mal batidas pelos hermanos. Lembrei-me dessa partida, uma das primeiras em que acompanhei Carlitos como protagonista, ao ler há algumas semanas na imprensa, que ele gostaria de fazer uma série de partidas de despedida do futebol, vestindo a camisa de cada um dos clubes em que atuou.

Carlos Tevez
Fonte: Wikipédia

Quando disputou sua primeira Copa América, mesmo muito jovem, Tevez já era um astro do Boca Juniors, onde se formara jogador depois de passar a infância no All Boys, também de Buenos Aires. Naquele mesmo 2004 da competição, liderara a seleção olímpica na conquista da medalha de ouro nos Jogos de Atenas e, no final do ano, para a surpresa geral, se transferiria para o Corinthians. No Boca colecionou títulos, situação que não foi diferente nos outros clubes que representou ao longo da carreira. Campeão da Libertadores em 2003, venceu também a Champions League pelo Manchester United, em 2007-2008. Na competição sul-americana fez o primeiro gol da segunda partida final, contra o Santos Futebol Clube, no Morumbi, uma revanche xeneize da derrota frente ao Peixe, quarenta anos antes. Pelé afirma, aliás, que a partida de 1963, em La Bombonera, vencida por 1 x 0, foi a mais difícil que jogou na longa carreira. Com o Boca, foi campeão também da Copa Intercontinental, disputada no Japão. Com o 9 às costas, entrou no segundo tempo, no empate frente ao poderoso Milan de Dida, Cafú, Maldini, Pirlo, Kacá, Shevchenko, Costacurta, Gattuso, Seedorf e, na direção, Carlo Ancelloti. Os argentinos venceram nos pênaltis, sem precisar cobrar o último. Anote-se que o responsável pela derradeira cobrança seria o brasileiro Pedro Iarley, que vestia a épica 10, a de Diego Maradona e de Román Riquelme, a mesma que viria a ser de Carlitos.

A carreira muito exitosa de Tevez, que passou pelo West Ham, Manchester City, Juventus Turim e Shanghai Shenhua, além da presença em duas Copas do Mundo (2006 e 2010), inclui um ano vencedor no Corinthians Paulista. Junto com Javier Mascherano e Sebá Domingues, chegou para formar o forte time que seria campeão em 2005. A juventude do argentino aproximou-o dos mais meninos do elenco, muitos oriundos da própria base do time, como o zagueiro Betão, ainda hoje em atividade no Avaí Futebol Clube. Com Nilmar fez uma dupla de ataque que rapidamente se entrosou e ganhou, além do título nacional, a Bola de Ouro da Placar, como melhor jogador do torneio.

Carlos Tevez
Fonte: Wikipédia

No Timão, Tevez logo caiu nas graças da fanática torcida, tanto pela qualidade técnica, quanto pela disposição em disputar cada jogada. O ímpeto às vezes exagerado levou o jogador, em sessões de treinamento, a brigas com colegas. A primeira com Marquinhos Souza, zagueiro formado no Terrão, e que teve que deixar o clube, sendo emprestado ao Atlético Mineiro; a segunda, com Carlos Alberto, atacante que aos vinte anos fora contratado ao Futebol Clube do Porto, com uma Champions League e uma Copa Intercontinental no portfólio, além da admiração profunda que José Mourinho nutria por ele.

Tevez se destacou no Corinthians entre as quatro linhas, mas não apenas com a bola. O time liderava o Brasileiro de 2005 quando o técnico Márcio Bittecourt, auxiliar promovido ao posto após a saída de Daniel Passarela, foi demitido. A diretoria o considerava muito noviço para liderar o elenco estelar de então. Vários jogadores elogiaram o trabalho de Márcio, mas se isentaram da questão, dizendo que fora uma decisão que cabia apenas acatar etc., no típico posicionamento dos profissionais brasileiros de futebol. Carlitos, no entanto, não se furtou de dizer que nunca vira um treinador ser mandado embora quando na liderança da tabela de classificação.

Meses antes, demonstrara sua solidariedade ao jovem lateral-esquerdo Vinícius Fininho, que, ao ser vaiado após uma substituição, fez gestos obscenos para a torcida. No mesmo jogo – contra o Sampaio Corrêa, pela Copa do Brasil – o argentino fez o segundo gol da vitória por 3 x 0, compondo um 6, com as mãos, ao dirigir-se para comemorar o tento junto a la hinchada.  O número era o que o amigo levava às costas. Não são todos os que têm coragem de enfrentar uma torcida, menos ainda a do Corinthians.

Carlos Tevez
Foto: Divulgação/Corinthians

No ano seguinte, acabaria atritando-se com parte das Organizadas, ao fazer-lhes o sinal de silêncio logo após marcar um gol. Terminado o jogo – empate com o Fortaleza, pelo Brasileiro –, teve o carro amassado, pediu desculpas e aceitou conversar com as lideranças, mas criticou o vandalismo que assustara sua família. Vaticinou que deixaria o clube, caso voltasse a ocorrer algo semelhante. Não precisou, e pouco depois foi para o West Ham junto com Mascherano, ambos orientados pelo empresário Kia Joorabchian. A diretoria do Timão especulou que Carlitos forçava a saída, o que pode ter lá seu momento de verdade. Leão assumira o cargo de treinador e nunca escondeu sua preferência por trabalhar com atletas brasileiros, destituindo Tevez da função de capitão porque, segundo disse, não conseguia entender o que ele falava. Ademais, o time já não era o mesmo e El Apache precisava progredir na carreira.

Este último apelido Tevez recebeu em referência à comunidade de origem, Fuerte Apache, bairro populoso de Buenos Aires. É para lá que regressa, de tempos em tempos, para jogar bola, encontrar os amigos antigos e mostrar ao filho de onde veio – ato sempre importante, ainda mais para ele, que só recebeu o nome do pai aos dois anos, por via judicial. Aos trinta e oito recién cumplidos (seu aniversário foi há uma semana) já não joga pelos Xeneizes, mas admite voltar à ativa nas próximas semanas, desde que por um clube com o qual não corra o risco de enfrentar o Boca. Parabéns, Carlitos.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Carlitos Tevez, aos 38. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 14, 2022.
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