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Cartão Vermelho para a violência contra a mulher no futebol

Lídia⁩ Ramires 10 de maio de 2022

Aconteceu mais uma vez. E de novo. Profissionais são agredidas, em exercício de suas atividades profissionais, no futebol. Em 20 dias, duas árbitras foram vítimas da misoginia que ainda persiste no futebol brasileiro. Chamam a atenção o descontrole e a agressividade dos profissionais, nos dois casos. E as perguntas que nos chegam são: “até quando?”, “por que?”, “o que se deve fazer?”.

No Recife, durante a final do Campeonato Pernambucano entre Náutico e Retrô, no dia 30 de abril, o meia Jean Carlos foi para cima da árbitra Deborah Cecília após ser expulso. O árbitro de vídeo alertou para a necessidade de rever pelo VAR quando o meia do Náutico acerta uma cotovelada em Yuri Bigode, do Retrô, em lance sem bola. A decisão foi pela expulsão de Jean Carlos, no 1º tempo. A reação de Jean Carlos foi partir para cima de Deborah Cecília, no que foi contido por atletas do Retrô, em um primeiro momento, pelos árbitros assistentes e por seus próprios colegas que – com algum esforço – conseguiram levar o atleta para o vestiário.

Jean Carlos
Fonte: Reprodução / TV Globo

O Náutico venceu nos pênaltis e conquistou o título. Mas a festa foi ofuscada pela atitude do jogador e por sua tentativa de justificar, em rede social, o ocorrido: “fiquei chateado e perdi a cabeça”; “jamais encostaria a mão nela”; “não falei palavrão nenhum para ela”; “a reclamação foi num tom excessivo”…

No Campeonato Capixaba, duas semanas antes, no intervalo do jogo contra o Nova Venécia, uma confusão foi iniciada quando a arbitragem foi cercada por alguns jogadores e membros da comissão técnica da Desportiva Ferroviária. O então técnico da equipe (foi demitido após a agressão), Rafael Soriano, recebeu do árbitro da partida Arthur Rabello, cartão amarelo por reclamação. Soriano seguiu discutindo com a árbitra assistente Marcielly Netto, em quem, na sequência, deu uma cabeçada, registrada pela TV Educativa (ES) que transmitia a partida. Soriano foi expulso e saiu de campo negando a agressão e ameaçando a assistente: “tá querendo aproveitar de uma situação [por] que é mulher”.

Rafael Soriano
Fonte: Reprodução/TV Educativa

Os pedidos de desculpas vieram em sequência e apelam para o histórico pessoal de cada um, para a má-interpretação de suas condutas, para a impossibilidade de (os conhecendo) acreditar que são capazes de agredir mulheres. Além do fato de terem mães, irmãs, filhas, namoradas, esposas… Enfim, terem em suas vidas outras mulheres – numa tentativa de atenuar o que fizeram.  

Os dois casos foram testemunhados por muitas pessoas e estão registrados pelas TVs que cobriam os jogos. Os lances de agressão foram reprisados centenas de vezes, em câmera lenta. Mas, mesmo assim, há a tentativa de desdizer os fatos, de tentar fazer acreditar numa dita normalidade (violenta) nos atos praticados.

Lugar de mulher

Fato é que estádios de futebol permanecem como ambientes inóspitos para mulheres. Quer sejam torcedoras (preferencialmente acompanhadas por homens – há até promoções com redução/isenção nos valores dos ingressos), quer sejam profissionais, nas diversas atividades que mulheres exercem nesses ambientes. Entre jogadoras profissionais, a comparação quanto às oportunidades, condições e faturamento para o futebol masculino é perversa. Com dados de 2018, mostrou-se que, mesmo seis vezes eleita a melhor do mundo, Marta recebia menos de 1% do faturamento de Neymar. No jornalismo esportivo, a pesquisa de Renata Cardoso Nassar aponta que 86,65% afirmam já terem sofrido preconceito em algum momento da carreira. E na arbitragem, espaço de poder decisório do esporte, o quadro se repete em discriminação, preconceito e violência. Mas porque mulher no futebol incomoda tanto?

Marta
Foto: Bruno Domingos/Mowa Press

Parte da explicação pode estar no fato de a prática do futebol por mulheres ter ficado proibida entre 1941 e 1979, depois do decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941, durante o Governo Vargas, que declarou: “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

Mesmo após quatro décadas terem se passado, o “saudosismo” parece permanecer. O funcionamento patriarcal da sociedade faz parecer ser permitido negar às mulheres os direitos de acesso, prática, trabalho e progressão nas carreiras, dentro do futebol. Os estereótipos de gênero e a divisão sexual do trabalho são reforçados num ambiente em que persiste a ideia de que não é “lugar de mulher”. Mas é. E cada vez mais.

Em dez anos, segundo a CBF, o número de mulheres na arbitragem do futebol brasileiro aumenta anualmente. Em 2011, o número total delas era de 73, com 20 árbitras e 53 assistentes. Já em 2021, os dados apontaram para 114 no geral, com 30 árbitras e 84 assistentes. Os números divulgados pela Confederação apontam ainda o Brasil com 38 árbitros FIFA, da relação total, seis mulheres são árbitras e seis assistentes.

Assim, os demais espaços do futebol precisam acompanhar a mudança que já é real. As mulheres estão nesses lugares – que também as pertencem e de onde não pretendem sair. E as punições para agressões a essas profissionais no ambiente de trabalho precisam ser rediscutidas para que não haja a naturalização dos casos, nem a culpabilização das vítimas, sob pena de repetirmos os números assustadores que a sociedade brasileira reproduz, com oito mulheres sendo agredidas a cada minuto, durante a pandemia (2021).

O direito das mulheres à igualdade passa pela equidade salarial, pelo acesso a postos profissionais, por condições de vida, saúde e trabalho, sim, mas começa no direito básico à segurança de seus corpos e de suas vidas. O assédio acontece com palavras, violência física e também pela internet, e coibir essas agressões é mais que urgente.

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Como citar

RAMIRES, Lídia⁩. Cartão Vermelho para a violência contra a mulher no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 11, 2022.
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