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A cerveja nos estádios brasileiros: A volta da tradição ou agravamento da violência?

Felipe Vinícius de Paula Abrantes 26 de outubro de 2015

A relação entre o torcer no futebol e o consumo de bebidas alcoólicas, não é nenhuma novidade para aqueles que acompanham os jogos nos estádios e também em outros locais onde torcedores se reúnem para ver os jogos de seus clubes. E esta prática se mostra recorrente desde os primórdios do esporte bretão no Brasil.

Podemos ver assim, que esta relação, vem sendo constantemente construída e reafirmada ao longo dos anos. Além desta presença nos espaços esportivos, o “casamento” futebol e cerveja também é sacramentado, nos comerciais em intervalos das transmissões televisivas, nos patrocínios que os clubes e os estádios ostentam e presente até mesmo, em cantos de algumas torcidas.

É bastante comum vermos que antes das partidas, principalmente aquelas de maior apelo para o torcedor, muitos deles optam por fazer um “esquenta” para o jogo, chegando muitas vezes, várias horas antes da partida em um bar ou nos arredores do estádio.

Contudo, com o fenômeno da violência no futebol ficando cada vez mais evidenciado pela mídia, e na tentativa de transformar o futebol em um produto cada vez mais atrativo, no início dos anos 2000, algumas cidades começaram a proibir a comercialização de bebidas alcoolicas nos estádios. Atitude esta, seguida por mais e mais cidades, e com o advento do Estatuto de Defesa do Torcedor (EDT), que traz em seu texto: “não portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência” houve a proibição da venda de bebidas se tornou realidade nos estádios de todo o país (artigo incluído no novo texto do EDT em 2010. Lei nº 12.299.).

Durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, a venda de cervejas foi liberada dentro dos estádios nas cidades sede da competição. Esta, foi uma das condições feitas pela FIFA e que fez com que a legislação brasileira (o EDT), fosse flexibilizado para o torneio. É interessante ressaltar que, durante a Copa, não foi flagrado (ou pelo menos televisionado), nenhum grande problema de violência nas cadeiras das arenas. Passado o torneio, a discussão sobre o retorno das bebidas dentro dos estádios voltou para a pauta. Não podemos esquecer que, assim como o torneio da FIFA, os campeonatos e clubes no Brasil contam com um considerável aporte financeiro de empresas que veem neste mercado, uma importante fatia em seus gráficos de lucro, e por isso, anseiam por recuperá-lo de forma definitiva.

CUIABA, BRAZIL - JUNE 13: Chile suppoters cheer prior to the 2014 FIFA World Cup Brazil Group B match between Chile and Australia at Arena Pantanal on June 13, 2014 in Cuiaba, Brazil. (Photo by Clive Brunskill/Getty Images for Sony)
Torcedores chilenos bebendo cerveja na Arena Pantanal para a partida contra a Austrália pela Copa do Mundo de 2014. Foto: Clive Brunskill – Getty Images for Sony.

Nesse contexto, o poder legislativo de várias cidades brasileiras começaram no ano de 2015 a apresentar propostas de projetos de lei que visam a regulamentação e a volta da bebida aos estádios. Recentemente as capitais, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e São Paulo já contam com o retorno da venda de cerveja em dias de jogos.

Os principais argumentos utilizados por aqueles que defendem a volta da bebida é que a violência não diminuiu no período em que a bebida ficou proibida nos estádios nos dias de jogos e consumo entre os torcedores continuou o mesmo antes de ir aos jogos muitas vezes com proibições também no entorno que não se mostraram efetivas. Em algumas cidades, vereadores que defendiam a volta da bebida alegam que com a venda dentro do estádio os torcedores passariam a entrar com maior antecedência (o que geraria menos tumulto no lado externo das arenas) e que com a venda dentro do estádio, é possível um maior controle do consumo, impondo, por exemplo, um horário para o término das vendas.

Se colocando contraria a volta da comercialização da cerveja nos estádios, a pesquisadora Heloisa Reis, se apoia em pesquisas recentes para criticar este movimento que visa a volta da cerveja aos estádios brasileiros. Segundo Reis, o uso de álcool, principalmente por torcedores jovens e do sexo masculino favorecem a ocorrência atos violentos entre torcedores. Incluindo entre estes torcedores jovens com idade inferior a 18 anos de idade.

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Durante a Copa do Mundo nos espaços da Fan Fest a cerveja também era vendida. Foto: César Ogata – Secom – PMSP.

De fato, o uso de bebidas e outras drogas pode gerar problemas, principalmente quando existe a aglomeração de um número muito grande de pessoas. Mas é verdade também que casos de violência (até mesmo com vítimas fatais) continuaram ocorrendo nos estádios e nos arredores, envolvendo torcedores de futebol, durante a proibição do consumo de bebidas nos estádios. Com o objetivo de atenuar este problema, é necessário que os sujeitos envolvidos em atos violentos, sejam responsabilizados individualmente e punidos como rege a lei. Qualquer medida que fuja disso (como por exemplo, culpar os clubes e as torcidas organizadas) será meramente paliativa.

Retomando o início deste texto, a presença da cerveja entre os torcedores é antiga e se coloca como uma importante parte no processo de sociabilidade entre eles, um momento para vivenciar o pertencimento clubístico, o seu tempo de lazer e as possibilidades que o torcer como uma prática de lazer podem propiciar. Nos resta continuar observando e estudando como se dará o retorno das bebidas nos palcos esportivos brasileiros e quais os impactos que esta volta irá gerar.

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Felipe Abrantes

Graduado em Educação Física, modalidade licenciatura, pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor do ensino básico na Prefeitura de Belo Horizonte. Mestre em Estudos do Lazer, tem interesse e realiza pesquisa na área de estudos do futebol e do torcer, no âmbito das ciências sociais e humanas, do lazer e da Educação Física escolar.

Como citar

ABRANTES, Felipe Vinícius de Paula. A cerveja nos estádios brasileiros: A volta da tradição ou agravamento da violência?. Ludopédio, São Paulo, v. 76, n. 12, 2015.
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