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César Luis Menotti (5.xi.1938 – 5.v.2024)

Em 1986, a vitória da seleção argentina na Copa do Mundo realizada no México entronizou Diego Maradona como gênio da bola. Não era para menos, ele fez um torneio maravilhoso, destacando-se sobremaneira na épica partida contra o selecionado inglês: foram dois gols, um deles o mais bonito já visto em um Mundial, em que avança com a bola dominada antes da linha central do campo para, depois de vencer seis adversários seguidamente, concluir para a meta, e outro que foi pura picardia, o com la mano de Dios. O desempenho do camisa 10 foi ainda mais marcante porque Argentina e Inglaterra estavam, por causa da Guerra das Malvinas, de quatro anos antes, com relações diplomáticas rompidas. Considerando tudo isso, aqueles tentos foram, como eu mesmo já escrevi aqui no Ludopédio, o encontro máximo entre tragédia e comédia no futebol.

O título no México foi o segundo dos hermanos, oito anos depois da conquista da Copa disputada em seu próprio país. Entre um e outro triunfo, os argentinos não foram bem no Mundial da Espanha, sendo, inclusive, superados pelos brasileiros por 3 x 1. A derrota no verão europeu selou a despedida do selecionado e, com ela, a de César Luis Menotti de seu comando, ele que estivera à frente do time também em 1978. O bicampeonato no torneio seguinte, o de Maradona, teve no banco de reservas um novo selecionador (como os técnicos da seleção são, acertadamente, chamados na Argentina), Carlos Salvador Bilardo. O contexto daqueles anos fez com que se estabelecesse o conflito entre o menottismo e o bilardismo.

Segundo a mitologia criada no país vizinho, o futebol de Menotti seria ofensivo, livre, com ênfase no jogo, enquanto o de Bilardo se caracterizaria por ser defensivo, esquemático, resultadista. Não é fácil sustentar essas ideias com purismo, já que, como o próprio campeão de 1986 destacou, a Copa de 1978 foi vencida com jogadores fortes, como Leopoldo Luque, mas sem Norberto Alonso, 10 do River Plate, que mal entrou em campo, e Ricardo Bochini, craque do Independiente, que sequer foi convocado (El Bocha atuaria durante uns poucos minutos contra os belgas, em 1986, um desagravo para o futebolista que antes jogara apenas no Mundial de 1974, na Alemanha). E sem Maradona, que, aos 17 anos, foi considerado muito garoto. Para um evento tão complexo, em casa e sob ditadura, era preciso ter hombres, disse El Flaco, mesmo que já tivesse convocado El Pibe no ano anterior, 1977, para as disputas de preparação.

Menotti
César Menotti como gerente do FC Barcelona. Foto: Rob Bogaerts/Anefo.

A Copa de 1978 foi uma guerra futebolística. Não por acaso, o encontro entre Argentina e Brasil, em 18 de junho, pela segunda fase da competição, é conhecido como A batalha de Rosário. Na capital da província de Santa Fé, às margens do rio Paraná, a noite fria de domingo viu a pancadaria correr solta no campo de jogo. Menotti (que, aliás era rosarino) sempre reclamou muito dos brasileiros, principalmente do volante Chicão, pela deslealdade na disputa. Ele tinha razão, embora seus comandados, liderados por Daniel Passarela, não fossem exatamente um exemplo de candura em relação aos adversários. Eu era criança, mas me lembro que circulava a informação que o selecionador da Argentina consumira 72 cigarros durante a jornada. É claro que a imprensa daqui atribuiu isso ao nervosismo que o teria acometido por enfrentar a seleção verde-amarela que ele, aliás, sempre admirou. Mas também é fato que ele simplesmente fumava muito, deixando-se ver com el cirarrillo e la mano em entrevistas e até em sessões de treinamentos. O tabaco e a nicotina só foram deixados de lado em 2013, quando já completava 75 anos de idade.

As relações de Menotti com o Brasil sempre foram intensas, cheias de admiração pelo futebol nacional e seus jogadores, especialmente Pelé, que ele considerava muito melhor que Maradona. Aliás, como jogador, ele atuou pelo Santos, tendo estado em campo com o grande camisa 10 uma mísera vez, em 1968. Suplente do centroavante Toninho Guerreiro, compôs o elenco que foi campeão paulista. Nele estavam ainda seu compatriota Ramos Delgado, e os colegas que seriam tricampeões mundiais dois anos depois, no México: Joel Camargo, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Edu e, claro, o Rei. Na temporada seguinte, o argentino jogou pelo Juventus e, sem saber, presenciou a estreia profissional do arqueiro que seria durante uma década e meia o melhor do Brasil: perto da metade de uma partida contra o Palmeiras, no Parque Antártica, o jovem Emerson Leão entrou em campo pelo anfitrião e o ajudou a golear o Moleque Travesso por 6 x 1.

Menotti e Pelé
Cesar Menotti e Pelé no Sheraton Hotel de Buenos Aires, em 1979. Foto: El Gráfico.

Os últimos anos de Menotti foram de muitas leituras, conversas, brincadeiras com o neto, caminhadas pela cidade de Buenos Aires e, finalmente, vividos como coordenador de seleções da Federação Argentina. Deve-se a seu trabalho a escolha de Lionel Scaloni como selecionador durante o ciclo que culminou com a conquista do tricampeonato mundial, no Qatar. Diz seu filho que ele foi muito feliz naquela função. A presença do maestro nesses anos todos em que eu acompanho futebol também me trouxe uma discreta felicidade, alimentada por uma grande dose de admiração pelo personagem e por suas ideias. Gracias, Flaco, ¡por todo lo que nos regalaste!

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. César Luis Menotti (5.xi.1938 – 5.v.2024). Ludopédio, São Paulo, v. 179, n. 20, 2024.
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