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Clubes Colombianos

Fabio Perina 19 de agosto de 2021

O ‘mundo’ Colômbia tem particularidades únicas no continente no âmbito dos clubes como os muitos clássicos municipais (também chamado ‘rival de patio’) e nacionais (principalmente entre América x Millonarios x Nacional). E mais particular ainda é um alto número de 7 clubes grandes (com seus “apodos” em parêntesis a seguir): Em Cali, Deportivo (“azucareros”) e América (“escarlatas”). Na capital Bogotá, Millonarios (“gallinas”) e Santa Fé (“cardenales”). Em Medellín: Nacional (“verdolagas”) e Deportivo Independiente ou DIM (“decanos”). E em Barranquilla apenas o Junior (“tiburones”). Desses 7, apenas o América já foi rebaixado, ficando recentemente cerca de meia década na segunda divisão. E não há como evitar falar de um ‘intruso’ entre os grandes: o Once Caldas (“blanco-blanco”), de Manizales. Bastante conhecido no Brasil principalmente por Santos e São Paulo quem deixou pelo caminho na Libertadores de 2004 e se tornar o segundo clube colombiano a atingir a façanha.

Once Caldas
Once Caldas. Foto: Reprodução Facebook

Em um país profundamente regionalizado é fundamental apresentar sua estrutura de clubes conforme cada cidade. Pois sua primeira liga nacional, na virada da década de 40/50, estabeleceu que participariam preferencialmente dois clubes por cidade e dividindo um mesmo estádio. Dentro de campo, o futebol praticado era tão primitivo e ‘experimental’ que muitos placares com mais de sete gols eram frequentes! Fora de campo, ao longo da história os vários clubes colombianos de todos os escalões tiveram muitas experiências de interrupções, (re) criações e falências. Mas nessa meia década da liga ‘el dorado’ foi a que mais concentrou falências e trocas de nomes para a maioria dos clubes: vide os clubes de Manizales (a região mais destacada no café e na ‘aguardiente’) que tanto trocaram de nome até se fundirem no atual Once Caldas.

Mas a característica fundamental desse torneio é que os jogadores estrangeiros migravam em bloco para tentarem manter um estilo de jogo o mais homogêneo possível ao que estavam acostumados: para Bogotá e Medellín primeiro se concentraram os argentinos, em Cali os peruanos, em Pereira os paraguaios, em Cúcuta os uruguaios e em Barranquilla os brasileiros.

E é justamente nessa última zona caribenha (ou “costeña”) que começamos nosso “recorrido”. Região que pelo transporte marítimo foi a porta de entrada do futebol no país trazido pelos ingleses. E depois o clima praiano foi o mais propício para a adaptação de craques brasileiros, principalmente botafoguenses, todos com passagens pelo Junior (que jogava no tradicional estádio Romelio Martinez antes do atual e moderno estádio Metropolitano). Primeiro o veterano Heleno de Freitas no final dos anos 40. E depois no final dos anos 60 com o jovem PC Caju e o veterano Garrincha. Caju, quem também esteve no rival Unión Magdalena da cidade de Santa Marta (terra do craque Carlos “Pibe” Valderrama, quem ironicamente só foi campeão pelo rival Junior duas vezes), nessa época chegou a receber convite para se naturalizar colombiano. Já Garrincha em sua curta passagem por Barranquilla, em 68, foi ainda mais folclórica por envolver um contrato de produtividade e aproveitando a viagem de sua companheira Elza Soares para cantar no país. Sua chegada foi “por la puerta grande”, com ovação popular no aeroporto, hotel e centro de treinamento. No entanto, a aventura turística (em que mais bebeu do que treinou!) de um mês durou apenas uma partida. Na terra do tradicional carnaval colombiano, a seguir uma lista com outras anedotas bem ‘aleatórias’ de diversas épocas dentro e fora de campo que fazem certamente o Junior ser o clube mais folclórico! 

Contar a história do clássico capitalino de Bogotá, que jogam no tradicional estádio Nemesio Camacho (“El Campín”), exige remeter ao episódio do “el dorado” já mencionado. Dentro de campo, o Santa Fé foi o primeiro campeão, mas o Millonarios foi o que acumulou mais títulos na curta experiência da liga. E principalmente o que alcançou projeção internacional ao derrotar o Real Madri em pleno estádio Chamartin (antes de existir o Santiago Bernabéu) no amistoso festivo do cinquentenário do clube, dando para aquela equipe o apelido de “balé azul” pela qualidade do toque de bola. Assim como o apelido de “embajador” por divulgar com prestígio o futebol colombiano (embora recheado de argentinos como já comentado). Tanto é que o craque argentino Di Stefano logo foi contratado pelo clube merengue. Nos anos 50 e 60 o clube era um dos preferidos no mundo a ser convidado para amistosos e torneios de exibição. (Obs: o “el dorado” foi tão experimental e improvisado que houve uma insólita partida em 1961 em que se formou um combinado de jogadores estrangeiros de Millonarios e Santa Fé para enfrentar outro combinado de jogadores colombianos da dupla capitalina!)

Santa Fé
Torcedores do Santa Fé no Estadio El Campín. Foto: Wikipédia

Infelizmente toda a agitação popular que o Millonarios despertou também contrastava com uma liga de clubes atrativa, porém na impossibilidade de se formar uma seleção nacional minimamente competitiva, diante da falta de oportunidade a jogadores locais. Já fora de campo a rivalidade entre as camisas azul e vermelha dos clubes se misturou com a rivalidade das mesmas cores de conservadores e liberais, os partidos políticos que travaram a guerra civil nos anos 40. O estudo de Racines (2011) alerta que não se deve confundir que houvesse um alinhamento automático do vermelho dos liberais coincidir com toda a torcida do Santa Fé, tampouco o azul dos conservadores com o do Millonarios, pois cada facção política tinha representação homogênea em cada hinchada. A projeção internacional do Santa Fé veio apenas nos últimos anos com a conquista da Copa Sul-americana de 2015. É até hoje o único clássico jogado em décadas seguidas sem interrupções.

O clássico caleño é o segundo mais longevo, sendo jogado no tradicional estádio Pascual Guerrero, somente interrompido com o recente rebaixamento do América. O Deportivo Cali foi o primeiro clube colombiano a ser fundado, em 1908, e também o primeiro em uma final de Libertadores, de 78, perdendo para o Boca Juniors. No início dos anos 80 foi quando o clássico esteve em seu momento mais quente. Fora de campo com um dos maiores desastres nas arquibancadas com um grande número de mortos e feridos em um agônico empate de 3 a 3, desatada por uma correria de torcedores querendo entrar e sair ao mesmo tempo do estádio. E dentro de campo com disputas diretas pelo título em 85 e 86 (ambas vencidas pelo lado vermelho, se somando aos três títulos seguidos anteriores que já tinha) isso permitiu ao clube se “ilusionar” com conquistas maiores, foi então quando alcançou um histórico tri-vice da Libertadores , contra Argentinos Juniors em 85, River Plate em 86 e Peñarol em 87. (Obs: o treinador Gabriel Ochoa Uribe é o maior vencedor do futebol colombiano com 4 títulos no Millonarios como jogador, mais 4 também lá como treinador e depois 6 títulos no América, sendo 5 consecutivos).

Algumas anedotas insólitas pouco conhecidas daquelas finais. Em 86, nos bastidores, o América preparou uma armadilha de belas mulheres no hotel do River em Cali para tirar o foco e a energia dos jogadores! Para a partida da volta no Monumental se precaveu esperando o mesmo, porém a surpresa foi a agressão que receberam da barra “Borrachos del Tablon” durante o reconhecimento do gramado horas antes da final! Já em 87, na partida de desempate em Santiago, o América estava a poucos segundos de comemorar o inédito título. Foi quando ocorreu um duplo “apagão”: na defesa colombiana que após chutão da defesa uruguaia não conseguiu parar o gol agônico de Diego Aguirre; e na transmissão de televisão colombiana que quando retomou as imagens já era com o resultado surpreendente e frustrante da vitória uruguaia. O saldo que fica daquela época que muitos fazem uma fácil associação entre o sucesso do América com o dinheiro farto do narcotráfico, porém é preciso levar em conta que cerca de 2/3 dos seus títulos nacionais vieram depois dos anos 90 quando essa fonte já não era abundante.

No final dos anos 90, uma nova grande fase dos clubes “caleños” disputando os principais títulos e novamente foram vices continentais: em 96 o América perde de novo para o River Plate e em 99 o Cali perde para o Palmeiras em agônica decisão nos pênaltis. Por fim, fora de campo vale mencionar algumas curiosidades dos clubes: com o Cali tendo duas singularidade em relação a todos os demais grandes, sendo o único clube associativo do país (ao invés de clube-empresa) e com estádio próprio com o moderno Coloso de Palmaseca na zona metropolitana de Palmira. E com o America nos tempos que passou pela segunda divisão durante a década de 2010 tendo uma crise além de esportiva também identitária, pois temporariamente retirou o tradicional mascote de diabo de seu escudo (trocado por apenas uma letra A) por considerar “ofensivo” aos cristãos. Vide o antigo ídolo dos anos 80, Anthony De Ávila, que era o único a entrar em campo com uma fita preta cobrindo o diabo! Atualmente o América retomou o diabo e também retomou os títulos sendo recente bicampeão. Embora as polêmicas entre tirar e devolver o diabo a tua camiseta sempre se alternam…

Torcedores do Atlético Nacional do Atlético Medellín no clássico “paisa”. Foto: Wikipédia

Já o clássico “paisa”, assim chamado pelos habitantes do departamento de Antióquia onde está Medellín, jogam no estádio Atanasio Girardot. O DIM por um lado se orgulha de ser um dos primeiros clubes do país, por isso o apelido de “Decano”. De todos os grandes é o que tem menos títulos (6), porém ao menos os dois últimos (2009 e 2016) podem ser destacados pelo treinador Lionel Alvarez, craque contemporâneo de Valderrama na seleção na ‘geração dourada’ da virada dos anos 80/90. Alvarez possue a proeza de ser ídolo e campeão nos dois rivais da cidade. Destaque também ao ter sido semifinalista da Libertadores 2003 perdendo para o Santos.
Por outro lado, o Atlético Nacional carrega desde 89 o orgulho de ser o “rey de copas” do país, tendo jogado pelo menos a final de várias competições continentais: Libertadores, Sul-americana, Intercontinental e até mesmo as pouco conhecidas Interamericana e Merconorte. Para os rivais fica um estigma permanente de somente vencer quando favorecido: primeiro pelo “velho capitalismo” de Pablo Escobar (quem por ironia supostamente era torcedor do rival DIM!) e depois durante o “novo capitalismo” por se tornar o primeiro clube empresa do país de propriedade do principal grupo de comunicação RCN/Caracol. Além de receber o mesmo patrocínio do campeonato pela marca de bebidas Postobon. O que levanta nos rivais várias acusações de conflitos de interesses por patrocinadores dos torneios serem os mesmos de um clube além de coincidir com ter sido beneficiado por arbitragens duvidosas.

Após apresentar as principais rivalidade regionais, ao longo dos anos 80 se estabeleceram e se consolidaram as rivalidades inter-regionais: Millonarios x América x Nacional. (Obs: vale registrar uma “broma” de uma famosa bandeira da hinchada do Junior que afirma ser o único grande que não teve ajuda de narcotraficantes naquela década, como era o caso de “Gacha” no Millonarios, dos irmãos Orejuela no América e do famoso Pablo Escobar no Nacional). O Millonarios pode ser considerado o “velho grande”, pois foi quando iniciou seu maior jejum de títulos (durando de 1988 a 2012). O América foi sem dúvida a equipe sensação pela maior parte da década, porém marcado pelo azar de um tri-vice consecutivo da Libertadores. Já o Nacional pode ser considerado o “novo grande”, pois em 89 alcançou a Glória Eterna continental, que o América tanto sonhou e por pouco lhe escapou das mãos, e desde então disparou na conquista de títulos nacionais e internacionais.

Simbolicamente, uma das grandes partidas dessa campanha do Nacional foi nas quartas-de-final ao eliminar o Millonarios em partidas bem polêmicas quanto a arbitragem e simbolicamente sacramentar o jejum do rival capitalino! Partida que começou a ser ganha fora de campo com Pablo Escobar meses antes “atravessando” transferências de jogadores que o Millonarios sonhava e levando-os ao Nacional (Com alguma “broma”, a eliminação traumática do clube bogotano coincide com o ano da morte de seu patrono “Gacha”, e por isso surge essa fácil associação que o clube ficou sem forças nos bastidores!). Foi um momento culturalmente significativo pela aposta do treinador Maturana no Nacional em usar jogadores e um estilo de jogo tipicamente nacional (“los puros criollos”), “virando a página” da maioria dos clubes em usar jogadores estrangeiros (principalmente o América com o treinador Gabriel Ochoa Uribe com seus jogadores argentinos). O que virou uma identidade própria do clube de Medellín que durou por quase duas décadas.

Atlético Nacional
Patrocínio Leona na camisa do Atlético Nacional. Foto: Reprodução

Por fim, avançando uma década para tratar do vínculo dentro e fora de campo, a breve experiência da Copa Merconorte (1998 a 2001) comprovou a força dos clubes colombianos naquela época, pois em suas 4 edições, dos 8 finalistas eles eram 7, e levando todos os títulos. Foram as finais: Nacional x Cali, América x Santa Fé, Nacional x Millonarios e Millonarios x Emelec (Equador). O que comprova uma força dentro de campo proporcional à seleção ter jogado três Copas do Mundo seguidas (90/94/98) e fora de campo com intensos investimentos de duas décadas para cá nos clubes, na seleção e nos torneios nacionais pelas grandes empresas de bebidas de refrigerantes e cervejas. Vide no final dos anos 90 os patrocínios na maioria das camisas eram Colombiana e Leona, enquanto na década de 2010 os torneios se chamam Liga Postobón e depois Liga Aguila. Mesmo sem condições de aprofundar a questão da atual mercantilização dos clubes colombianos, ao que parece o caminho vem sendo bem semelhante ao processo anterior dos clubes chilenos pelos seguidos fracassos recentes em fases de grupos de Libertadores sem conseguirem se classificar.

Aguila Millonarios
Equipe do Millonarios que venceu o Torneo Finalización 2017. Foto: Wikipédia

Leituras de Apoio

RACINES, Rafael Jaramillo. El fútbol de El Dorado: “el punto de inflexión que marcó la rápida evolución del ‘amaterismo’ al ‘profesionalismo’”. Revista da ALESDE. Curitiba, v. 1, n. 1, p. 111-128, 2011.

https://www.elcincocero.com/noticias/detalle/19-liga-aguila/3761-los-apodos-de-los-equipos-colombianos-y-la-razon-por-la-que-lo-tienen

https://www.elcincocero.com/noticias/detalle/19-liga-aguila/2357-los-verdaderos-clasicos-regionales-del-futbol-colombiano

https://www.elcincocero.com/noticias/detalle/19-liga-aguila/3441-las-veces-que-america-no-uso-el-diablo-en-su-camiseta?fbclid=IwAR1i8iqXOdFPk5qpo1l1xEdZTPyq0sFfeWwpLk6ALpIXNpyDXYjC1VJtkrY

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Clubes Colombianos. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 36, 2021.
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