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Clubismo não é AUTORITARISMO!

Felipe Damasceno 27 de julho de 2021

O Clube do Remo passava por um momento difícil ao ocupar a lanterna da série B do campeonato brasileiro e disputava uma partida dentro de casa contra o Brusque-SC, que também não se encontrava bem no campeonato, porém, assim mesmo em situação bem mais cômoda na tabela que a do Leão Azul de Belém do Pará.  Ao contrário dos últimos jogos onde o time da casa perdia até em posse de bola, dessa vez o Leão dominava o jogo, faltando apenas a bola entrar no gol. Até que, aos 61 minutos, a bola foi cruzada na área e o zagueiro Rafael Jansen e ao tentar cortá-la fez um gol contra em favor do Brusque. Minutos depois, o capitão Lucas Siqueira foi substituído e entregou a braçadeira de capitão à Rafael Jansen em sinal de solidariedade.

Remo
Jansen recebe o apoio de Gedoz após o gol contra diante do Brusque. Foto: Samara Miranda/Remo/reprodução Facebook

A partir de então o desânimo e desespero tomaram conta de muitos torcedores/as do time da casa, mas graças as boas substituições do técnico estreante Felipe Conceição, o Clube do Remo conseguiu a virada, com gols de Felipe Gedoz (78 min.) e Marcos Junior (83 min.) O time adversário bem que tentou reagir, mas já era tarde. Após o apito final, o ânimo se espalhou entre os jogadores e comissão técnica em campo, e torcedores/as pelas redes sociais. Há rumores que Rafael Jansen chorou bastante no vestiário em agradecimento a Nossa Senhora de Nazaré – santa padroeira católica dos paraenses – pelo seu elenco ter conseguido reverter o placar do jogo, sendo afagado pelos demais jogadores em demonstração de que o grupo está fechado e motivado em colocar o Clube do Remo em posições cada vez melhores na tabela da série B.

Apesar das emoções, tudo parecia terminar bem para o elenco e torcida do Leão Azul naquela noite, porém, ainda no vestiário Rafael Jansen, por conta do gol contra, recebeu mensagens de um perfil fake em uma rede social contendo ameaças à sua vida, de sua esposa e filha. No texto, dizia pra ele ir embora urgente de Belém com a sua família, pois sabiam onde ele morava e sua filha estudava, detalhando os endereços citados. Coisa de gente covarde que se esconde atrás de perfil falso em rede social. Algum tempo depois, o Clube do Remo lançou uma nota repudiando tal ato e dizendo que irá apurar os fatos para punir os/as responsáveis. A maior torcida organizada do Clube também lançou nota repudiando o fato, bem como afirmando que tal ato não partiu de suas fileiras.

Não é de hoje que precisamos discutir sobre os sentidos do clubismo, esse sentido de pertencimento que temos com o time que torcemos, e as atitudes que tomamos por conta dele, pois o amor que temos por uma instituição futebolística não pode se manifestar através do ódio ao que não corresponde às nossas expectativas. O futebol, como qualquer esporte, é feito de sucessos e fracassos. E clubismo não é autoritarismo!
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Felipe Damasceno

Cientista Social; Mestrando em antropologia (PPGA/UFPA).

Como citar

DAMASCENO, Felipe. Clubismo não é AUTORITARISMO!. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 54, 2021.
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