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Colômbia e Argentina: muito além do eterno 5-0

Fabio Perina 5 de setembro de 2021

Em crônica anterior tratei de reconstituir as condições dentro de campo nas quais o resultado final de um ‘baile’ oculta uma partida bastante equilibrada em seu início. É preciso também uma breve menção a condições prévias fora de campo com a escolta policial negligente nos arredores do Monumental que permitiram que torcedores argentinos apedrejassem o ônibus visitante. A reação foi com as provocações de jogadores colombianos com gestos obscenos e balançando notas de dólares. Um clima bastante hostil em disputa direta por vaga em Copa do Mundo. Como já foi a regra nos melhores tempos das Eliminatórias 

ANTES DO 5-0

Um antecedente de longo prazo ao 5-0 no âmbito dos clubes é que os profissionais argentinos (jogadores e treinadores) foram durante décadas os principais reforços dos clubes colombianos. (Obs: dentre os 4 maiores artilheiros do torneio colombiano, 3 são argentinos, vide o principal ser o pouco conhecido Sergio Rey, principalmente pelo Cali na virada 90/2000). Principalmente na fase conhecida como “el dorado” no início dos anos 50, quando os argentinos foram a principal colônia migrante da verdadeira “torre de babel” que se instalou na maior liga clandestina do mundo. A formação dessa liga exótica somente foi possível pela confluência inusitada de dois processos que a primeira vista não tinham nada a ver: na Colômbia, havia a necessidade de levar entretenimento à população para tentar apaziguar uma guerra civil; e na Argentina, a intensa mobilização popular durante a década peronista (1946-55) movimentou diversos sujeitos sociais, inclusive os jogadores com uma greve geral durante 6 meses exigindo da AFA e do próprio governo Perón melhores direitos como um piso salarial. No fim das contas, o êxodo dos jogadores levou os clubes argentinos a dificuldades financeiras e até a seleção desistiu das Copas de 50 e 54 com receio de dar vexame sem seus principais craques! 

Millonarios campeão em 1951
Millonarios campeão em 1951, com Di Stéfano e Pedernera. Foto: Reprodução Twitter

Vide esse intenso intercâmbio que nos anos 60 o argentino Pedernera foi treinador das duas seleções, assim como Bilardo depois nos anos 80. Assim como ao longo dos anos 70 e no início dos 80 houve grande fluxo de treinadores argentinos para a Colômbia, e lá ganhando a maioria dos títulos na época. Vide além de Bilardo, Verón e Zubeldía, outros grandes vencedores do Estudiantes, tricampeão da Libertadores no final dos anos 60, por lá também se aventuraram como treinadores. Podemos dizer que essa chegada de vários treinadores argentinos abriu as portas para logo depois ao longo da década também chegassem mais jogadores. Bastante influenciados pelo contraste entre a crise econômica na Argentina e a abundância de recursos com o ‘narcofutbol’ na Colômbia. O sucesso do America de Cali na década de 80 muito se deveu ao treinador colombiano Gabriel Ochoa Uribe. Ele que quando goleiro do Millonarios disse que aprendeu muito jogando com os argentinos Di Stefano e Pedernera. O América já contava na década anterior com o argentino Jorge “Feria” Caceres, o 2º maior artilheiro do clube, então se encheu de outros argentinos como o goleiro Falcioni, o meia Batista e o atacante Gareca.

Adolfo Pedernera
Adolfo Pedernera. Foto: Wikipédia

DEPOIS DO 5-0

O balanço que fica posterior ao 5-0 é, no mínimo, paradoxal. Comparando os resultados globais de Argentina e Colômbia com os demais países ele foi sem dúvida revolucionário: colocou os argentinos na longa fila de quase 3 décadas sem títulos com a seleção principal; e colocou os colombianos algumas vezes no primeiro escalão do futebol: como as vagas seguidas em Copas do Mundo (1994/98 e 2014/18) e o título da Copa América (2001). Mas olhando apenas os confrontos diretos entre as duas seleções, o 5-0 não passou de um ponto fora da curva: a Argentina continuou vencendo a maioria das partidas, inclusive fora de casa na Colômbia. No âmbito de clubes também ninguém ousaria dizer que o futebol argentino estagnou e o colombiano decolou.

O que poucos sabem que ainda em 93 também se deram algumas das principais vitórias de clubes colombianos no Brasil: Atlético Nacional contra Inter e América de Cali contra Flamengo.

Um efeito imediato do 5-0 para o âmbito dos clubes foi um súbito interesse dos grandes clubes argentinos pela contratação de jovens promessas colombianas ao longo dos anos 90. Sendo que posteriormente na década seguinte a maioria dos citados tiveram carreiras sólidas no futebol europeu. Até aquele momento o único colombiano de destaque no futebol argentino era o goleiro “Mono” Navarro Montoya, no Boca Juniors, quem inclusive é naturalizado argentino. Quem teve a responsabilidade de assumir após a era do lendário Hugo Gatti no gol e teve sua própria era em boa parte dos anos 90, deixando sua marca registrada de uniformes coloridos e criativos.

Por falar no Boca, foi esse o clube que mais se empolgou com o “novo el dorado” de jovens promessas colombianas ao contratar o goleiro Oscar Córdoba e o zagueiro Jorge “Patron” Bermúdez junto ao América de Cali (logo após perderem a Libertadores de 96 para o arqui-rival River Plate). Junto também contrataram o volante Mauricio “Chicho” Serna, do Atlético Nacional. Peças fundamentais do título da Libertadores e Copa Intercontinental de 2000 pelo clube xeneize. (Obs: atualmente os colombianos seguem protagonistas no clube, com Bermúdez como dirigente e as intensas polêmicas com a falta de profissionalismo dos jogadores Cardona e Villa)

Boca Júniors
Boca Júniors Bicampeão Mundial 2000. Foto: Reprodução redes sociais

Já o River Plate foi buscar o atacante Juan Pablo Angel no Atlético Nacional e o zagueiro Mario Yepes no Deportivo Cali. O Cali, recém vice da Libertadores de 99 para o Palmeiras, completou seu desmanche para o futebol argentino ao vender para o Racing o volante Viveros e o lateral-esquerdo Bedoya (curiosamente quem detém o recorde mundial de expulsões com quase 50 em toda a carreira!). Ambos estiveram presentes no grande título de 2001 encerrando a fila de 35 anos. E Bedoya é bastante lembrado pelo gol agônico contra o River Plate na penúltima rodada impedindo que o rival lhes tomasse a liderança (Uma década depois a “Academia” teve juntos os colombianos Gio Moreno e Teo Gutierrez).

Já o arqui-rival do Racing em Avellaneda, o Independiente, também contou com um toque ‘cafetero’ ao ganhar a Supercopa e a Recopa Sul-Americana de 95 com o talentoso meia Albeiro “Palomo” Usuriaga e o seguro goleiro Farid Mondragon. Uma breve curiosidade de cada um: Usuriaga marcou o gol de classificação de Eliminatórias na repescagem contra Israel, porém não foi convocado para a Copa de 90! Já Mondragón, ao contrário, além de um dos melhores goleiros da Copa de 98, muito tempo depois na Copa de 2014 bateu o recorde como o jogador mais velho a entrar em campo!

Completando os cinco grandes clubes argentinos, o San Lorenzo teve no final dos anos 90 o zagueiro Ivan Córdoba, vindo do Atlético Nacional. Não foi campeão no “Ciclón”, porém pela forte amizade com o já citado zagueiro Mario Yepes o convenceu a encerrar a carreira no clube em 2014 quando venceu a inédita Libertadores, sendo o único clube grande que faltava ganha-la. E ainda é possível mencionar o bom atacante Jairo “Tigre” Castillo, campeão com a seleção da Copa América de 2001 e com passagens por Velez e Independiente na virada da década. Por fim, em 96 Boca e River disputaram por contratar a estrela Asprilla de saída o Parma-ITA pela porta dos fundos, porém o desfecho foi a contratação pelo Newcastle-ING. Em suma, uma década em que a paridade do peso argentino ao dólar permitiu essa condição de colocar os grandes clubes argentinos com maior competitividade no mercado sul-americano de transferências.

Nos anos 2000, outros que tiveram passagens vitoriosas antes de se consolidarem na Europa foram Falcão Garcia no River Plate e James Rodriguez no Banfield. Evidente que desde então as oportunidades para colombianos na Argentina não diminuíram, vide a grande final do Superclasico da Libertadores de 2018 com várias ‘figuras’ colombianas de cada lado. No Boca: Fabbra, Barrios, Cardona e Villa. E no River: Borré e Quintero. Esse último marcando o importante gol de fora da área da virada do 3 a 1. Evidente que no sentido oposto do êxodo tampouco se encerrou, com o fluxo de argentinos para a Colômbia seguindo regular. Vide jogadores bem vitoriosos como o atacante Omar Perez no Santa Fé (treinado pelo também argentino Gustavo Costas) e o goleiro Franco Armani no Atlético Nacional, ambos presentes nos principais títulos da década de 2010 dos dois clubes. E, claro, o principal argentino a impactar o futebol colombiano na última década foi o treinador José Pekerman, resgatando as classificações mundialistas para 2014 e 2018.

Abaixo, um vídeo para ilustrar algumas dessas principais contratações

NOTAS SOBRE OS TORCEDORES Ambas as hinchadas argentinas e colombianas certamente possuem em comum o mérito de serem as mais “viajeras” do continente. Tanto em partidas por clubes quanto por seleções. A última Copa do Mundo com tão longa distância como a Rússia provou isso mais uma vez, sendo essas duas hinchadas as que mais deram um clima de “aguante” sul-americano naquelas terras geladas. Já nas partidas em nosso continente, entre os argentinos predominam viagens de longa distância e curta duração (apenas “bate e volta”), “copando” com frequência os setores visitantes. Já entre os colombianos, duas particularidades fazem seu “aguante” quando visitante ser muito particular: o grande número de migrantes instalados em países como Chile, Argentina e Brasil; e principalmente o grande número de viajantes à deriva, que chegam a passar meses fora de seu país nas aventuras mais intensas e nas formas de transporte mais precárias. Conhecidos como “muleros”, enfrentam privações econômicas e de conforto e principalmente a possibilidade sempre iminente de confronto com torcedores locais, outros “muleros” rivais também à deriva e sobretudo autoridades (VILLANUEVA et al, 2020). Em suma, há um cenário de contrastes na Colômbia no qual há barras com forte organização interna e diversas atividades sociais para além de torcer pelo clube nos estádios, enquanto ao mesmo tempo “muleros” muito jovens que dizem pertencer à barra, mas na prática não lhes devem satisfações e decidem seus próprios “códigos” de proceder no calor do momento. Como segue Villanueva (2020), enfrentam “não-tempos” e “não-lugares” muito além dos 90 minutos de uma partida. Os perigos e desamparos que passam não são tão exóticos se comparados à mesma situação de jovens colombianos pobres em geral, mesmo sem se envolverem com futebol.

No Brasil, alguns desses “viajeros” colombianos teceram acordos com torcidas organizadas para morarem em suas sedes e assim terem uma base provisória para se encontrarem com outros companheiros de viagem quando se aproxima uma próxima partida. Vide vários que vieram para nosso país na Copa do Mundo de 2014 e por aqui continuaram em pequenos grupos. Já entre os argentinos que vieram para o torneio mundial foi no padrão de alguns dias de férias (com frequência em veículos próprios) e em quantidade mais concentrada (a ponto de chamar a atenção do jornalismo brasileiro) dormindo, festejando e bebendo em plenas praias e demais áreas públicas.

Já a principal distinção entre as duas hinchadas, segundo Gallego (2018), é que a estrutura associativa dos clubes argentinos lhes permitem um acesso a sua política interna ou pela negociação ou pela força e daí também um acesso à política partidária. Uma possibilidade bloqueada na Colômbia, pela estrutura mista empresarial-patronal dos clubes e pelo crime organizado do narcotráfico internacional e paramilitares, ficando ambos ambientes fechados à influência das barras como novos sujeitos. Uma consequência disso é como se resolvem as disputas “internas” entre as barras: na Argentina por muito tempo vigora um certo “equilíbrio instável” que a facção da situação e da oposição em constante disputa da liderança; já na Colômbia essas ‘internas’ tomam um desfecho mais rápido com um grupo em desvantagem aceitando formar uma nova organização.

Leituras de Apoio

GALLEGO, Santiago Preciado. Las barras de fútbol y el poder político en Colombia. In: Forum. Revista Departamento de Ciencia Política. 2018. p. 185-205.

VILLANUEVA, Alejandro; MENDIVELSO, Rafael; RIVERA, Omar. ¡ Cuidado! Jóvenes, fútbol y aguante en la vía: la pasión del fútbol en las carreteras de Colombia. Debates en Sociología, n. 51, p. 97-125, 2020.

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Colômbia e Argentina: muito além do eterno 5-0. Ludopédio, São Paulo, v. 147, n. 7, 2021.
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