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Contos de Futebol no Brasil – Parte II

Hoje, daremos continuidade à série “Contos de Futebol no Brasil”, iniciada em 06 de dezembro de 2021. Para esta edição da série, selecionamos mais cinco contos, brevemente apresentados a seguir: “Abril no Rio, em 1970” (1975), de Rubem Fonseca, “O dia em que o Brasil perdeu a Copa” (1975), de Paulo Perdigão, “Já podeis da pátria filhos” (1978), de João Ubaldo Ribeiro, “Eleitorado, ou…” (1980), de Edilberto Coutinho, e “Na boca do túnel” (1982), de Sérgio Sant’Anna.

Rubem Fonseca
Fonte: divulgação

“Abril no Rio, em 1970” (1975), de Rubem Fonseca – um conto de sonho e frustração

O conto “Abril no Rio, em 1970”, do romancista, ensaísta, contista e roteirista brasileiro Rubem Fonseca, foi publicado originalmente na obra Feliz Ano Novo (1975), que também reúne outros contos célebres, como, por exemplo, “Passeio Noturno – Parte I e II”, e que, após seu lançamento e a venda de cerca de 30.000 exemplares, em três edições, foi censurado e proibido. Considerado um mestre da literatura policial e do brutalismo literário da década de 1970, cujas raízes remontam à atividade inicial como comissário de polícia entre 1952 e 1958, Rubem Fonseca tem suas obras marcadas pelo caráter realista e pelos traços de oralidade e de linguajar coloquial na dicção narrativa.

Autor de livros de contos como Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965), O cobrador (1979), Histórias de amor (1997), e Calibre 22 (2017), e dos romances O caso Morel (1973) e Agosto (1990), Rubem Fonseca, que nos deixou em 15 de abril 2020, elege no conto “Brasil no Rio, em 1970” um narrador em primeira pessoa, suposto jogador de futebol, Zezinho, que, em um diálogo monologal, sem troca de turno de fala com outra personagem, procura estabelecer relações com outros jogadores famosos do futebol brasileiro. Trata-se, pois, de um narrador-protagonista intradiegético, de acordo com as categorias propostas por Gérard Genette (1995, p. 247), ou seja, dentro da cena narrada, que sonha com uma carreira meteórica na equipe do Madureira Esporte Clube e da Seleção Brasileira, ao poder ser descoberto pelo treinador Jair da Rosa Pinto, ex-jogador e craque da Seleção na Copa de 1950:

[…] O jogo de domingo ia ser assistido pelo Jair da Rosa Pinto, técnico do Madureira, que já foi cracão do escrete, e uma coisa lá dentro me dizia, Zé, vai ser a chance da sua vida. Eu disse pra minha garota, que era datilógrafa da firma, não fico de contínuo nem mais um mês, disse também que o Jair da Rosa Pinto ia me ver no domingo, mas mulher é um bicho gozado, ela nem deu bola. Me larga, deixa eu te contar. Levantei da cama, expliquei, porra, se eu jogar bem e o Jair da Rosa Pinto me levar para o Madureira, estou feito, ninguém me segura, mas ela me puxou de novo pra cama e foi aquela loucura, minha garota é fogo. (FONSECA, 1998, p. 53)

Assim, Zé sonha em repetir a trajetória de Jair da Rosa Pinto, que começara sua vitoriosa carreira futebolística no Madureira em 1938, transferindo-se, em 1943, para o Club de Regatas Vasco da Gama, onde integraria o lendário “Expresso da Vitória” e, em 1946, para o Flamengo, que o levaria também ao escrete brasileiro, e que, posteriormente, defenderia também as cores do Palmeiras, do Santos, do São Paulo, e da Ponte Preta, pendurando as chuteiras em 1963.

No conto “Abril no Rio, em 1970”, o tempo também se estrutura a partir de digressões que interrompem o fluxo da narrativa dialógica monologal, tendo uma cena em especial como uma espécie de fio condutor: o “cuspe do Gérson”, anunciado já na primeira frase do conto: “Tudo começou, quando o cara que sentou perto de mim na grama disse, olha só o cuspe do Gérson” (FONSECA, 1998, p. 53). Em um suposto treino da Seleção Brasileira pouco antes de embarcar para o México e se sagrar tricampeã mundial, Zezinho observa os jogadores em ação, sentado no gramado ao lado de Braguinha, alguém mais velho que acabara de conhecer, aparentemente um “boleiro” que acompanha o futebol e se coloca como a “voz da experiência”. Assim, o “canhotinha de ouro”, de maneira recorrente, surge no conto:

Fiquei de olho no Gérson. Jogador de futebol vive cuspindo. Ele passou perto, deu um daqueles passes de trinta metros e cuspiu. Viu? Limpo, transparente, cristalino. Sabe o que é isso?, perguntou Braguinha. Fiquei na dúvida, será que ele estava esculhambando o Gérson? Está cheio de nego aí que não topa o Gérson, quê que eu ia dizer? Fiquei calado, balancei a cabeça e o Braguinha mesmo respondeu, preparo físico, menino, preparo físico, pra cuspir assim o cara tem que estar tinindo, Vamos estraçalhar os gringos. (FONSECA, 1998, p. 54).

Além de Gérson e de seu suposto “cuspe cristalino”, surgem no conto referências também a outros jogadores consagrados: Jairzinho, Paulo César Caju, Tostão, Pelé, Didi, Clodoaldo, além de Jair da Rosa Pinto. Tostão, aliás, segundo o ponto de vista de Braguinha, seria o oposto do Gérson em termos de “cuspe”, que passa a ser parâmetro para o estado saudável ou debilitado dos atletas:

[…] perguntei ao Braguinha, o senhor é médico? E ele respondeu, não, não sou médico mas estou por dentro, já vi futebol de garoto de dezoito anos acabar por causa de mulher. Porra, dezoito anos é a minha idade. Vê o cuspe do Tostão, ele está meio fudido, o troço no olho, parou seis meses, vê só o cuspe dele. O Tostão passou perto e cuspiu uma bolota de goma branca. Parece “marchemelo”, disse Braguinha, ele está trinta por cento, mas quando chegar no ponto vai cuspir um jatinho de água filtrada igual o canhotinha de ouro. Era assim que chamavam o Gérson. (FONSECA, 1998, p. 54)

Assim, jovem simples, de origem humilde e suburbana, Zezinho se deixa influenciar pelas palavras de Braguinha e impõe a si próprio uma “auto-concentração” radical, em que teria de evitar até mesmo sua namorada, Nely, o que acaba gerando uma discussão entre os dois: “[…] cheguei a dar um passo para perto dela, mas pensei no cuspe do Gérson, o jato transparente entre os dentes, e disse, eu gosto de você, meu bem, mas vê se me entende, hoje não, vê se me entende, hoje não, amanhã de noite. Eu juro pela minha mãe que não vou encontrar nenhuma mulher” (FONSECA, 1998, p. 55-56).

O conto “Abril no Rio, em 1970” transmite uma imagem do futebol profissional como sendo um âmbito de difícil acesso. Zezinho, em seu sonho de ser descoberto por Jair da Rosa Pinto no treino como nova promessa do futebol, ao final, sucumbe em seu intento. E o “cuspe do Gérson” se tornou parâmetro que atesta a competência e o estado saudável do craque, distinto da situação de Zé: “De tanto correr, fiquei no bagaço, a boca seca, não tinha coragem de cuspir pra não ver a bolota de ‘marchemelo’” (FONSECA, 1998, p. 58). Ao final, o Zezinho demonstra toda a sua frustração por ter fracassado no treino e fica sem rumo ao ir embora: “[…] Fui andando, passei por um monte de lixo, tive vontade de jogar ali a maleta com o uniforme. Mas não joguei. Apertei a maleta de encontro ao peito, senti as travas da chuteira e fui caminhando assim, lentamente, sem querer voltar, sem saber para onde ir.” (FONSECA, 1998, p. 59) Assim, o narrador-personagem Zezinho enuncia de um determinado lugar social. Se pensarmos que se trata de um conto da década de 1970, podemos constatar que o quadro não mudou tanto assim, pois o futebol já se afigurava como possibilidade de ascensão social. Assim como Zezinho, mesmo em nossos dias, inúmeros jovens têm seus sonhos frustrados frente à realidade e às dificuldades de ingressar na carreira de jogador de futebol profissional.

Rubem Fonseca
Homenagem a Rubem Fonseca. Fonte: plenarinho.leg.br – Câmara dos Deputados

“O dia em que o Brasil perdeu a Copa” (1975), de Paulo Perdigão – um conto sobre testemunho e trauma da derrota

O escritor, jornalista e crítico de cinema brasileiro Paulo Perdigão, autor da antológica obra Anatomia de uma derrota (2000), em que disseca a partida disputada entre as Seleções do Brasil e do Uruguai no dia 16 de julho de 1950, que entraria para a história do futebol mundial como Maracanazo, dedicou um conto a esse tema, publicado originalmente em 1975: “O dia em que o Brasil perdeu a Copa”.

Em certa medida, o escritor foi movido pela memória traumática de ter vivenciado, ainda criança, aquela fatídica tarde, em que a Celeste Olímpica deu ensejo a um “velório” coletivo naquele que se tornaria o maior estádio do Mundo – o Maracanã – inaugurado especialmente para a Copa de 1950. Juntamente com seu pai, aos 11 anos de idade, Paulo Perdigão testemunhou a derrota nas arquibancadas do monumental recém-inaugurado “Estádio Municipal”, momento em que, para ele, a infância teria chegado ao fim.

Há certos traços autobiográficos no conto “O dia em que o Brasil perdeu a Copa”: pai e filho estão nas arquibancadas do Maracanã. Porém, há duas temporalidades: a do futuro, em que o narrador, adulto, rememora o Maracanazo e, como em uma science fiction, se vale de uma máquina do tempo para voltar ao dia 16 de julho de 1950; a da presentificação do trauma, em que a partida transcorre.

Ao comprar uma curiosa engenhoca, a “máquina do tempo”, em “uma loja de relíquias, em Carmel, na Califórnia” (PERDIGÃO, 2000, p. 251), o narrador-personagem, intradiegético, acredita poder regressar no tempo e evitar que a Seleção Uruguaia derrote a Seleção Brasileira:

Apenas um pedido. Mas já era o bastante para que eu me sentisse um pouco como Deus, a modificar o mundo com meus cordéis invisíveis. […] Mas o engraçado é que não me comoviam o privilégio de melhorar a História nem a tentação da riqueza. De nada adiantaria isso, se eu não resolvesse meu problema fundamental: ser apenas um homem tranqüilo. (PERDIGÃO, 2000, p. 251)

Esse narrador-testemunha, em primeira pessoa, aponta para a Copa de 1950 e para o trauma pela derrota como sendo seu “problema fundamental”:

Conhecia melhor do que ninguém as razões de minha neurose. Estava lá atrás, no dia em que deixei o doce conforto da infância para encarar a realidade. O mundo me parecia fiel e submisso aos meus desígnios, revelou-se de súbito contingente e absurdo, naquele 16 de julho de 1950. Um aterrador e indefinível senso de culpabilidade e desproteção passou a me acompanhar pela vida, como uma sentinela implacável. O que era apenas uma partida de futebol tinha decidido minha situação de abandono injustificável. (PERDIGÃO, 2000, p. 251)

Mas sua empreitada exigia uma série de preparativos a fim de voltar no tempo e tentar corrigir a História: “Enfim, fantasiei-me como se fosse a um baile-nostalgia. Senti-me, não nego, um pouco ridículo, mas a relevância da minha missão exigia-me menosprezo pela vaidade pessoal” (PERDIGÃO, 2000, p. 252). Não faltaram objetos preciosos daquela época e daquela fatídica partida: “[…] guardava com especial carinho a certidão de cadeira cativa do Maracanã. Guardei-a comigo, junto com uma nota de dez cruzeiros, que pedi emprestada a um amigo colecionador. Isso bastaria para o táxi e o ingresso no estádio” (PERDIGÃO, 2000, p. 252). E esse viajante no tempo, ao retornar àquele dia, observa a movimentação eufórica dos torcedores rumo ao monumental estádio como quem já vivenciara aquela fatídica partida e seu desfecho trágico:

[…] Dentro de duas horas e pouco o jogo ia começar, e a cidade inteira rumava para o Maracanã. Pela janela [do táxi], revi as imagens que conservava comigo por tantos anos. Um bonde cheio de gente, todo mundo rindo. Coitados, mal sabiam o que os esperava. A mim, cabia-me ficar quieto até chegar a hora oportuna. Cometesse a imprudência de advertir a turba, seria fatalmente agredido. […] (PERDIGÃO, 2000, p. 253)

Um dos pontos altos do conto é o reencontro do narrador-protagonista adulto consigo mesmo, quando criança: “[…] Porém, quando ia subir os degraus de acesso às cadeiras, um frêmito de pavor percorreu-me o corpo inteiro. Parei, ofegante. Eu estivera presente ao jogo! Então, agora certamente ia encontrar-me comigo mesmo, muitos anos mais novo!” (PERDIGÃO, 2000, p. 254) Esse momento provoca uma cisão do sujeito – o menino e o adulto:

Arrisquei rápidas olhadas para o “meu” lado. Desci alguns metros e, mantendo prudente distância, vi meus pais, minha irmã e eu, todos conversando animadamente. Eu usava camisa de listras coloridas e tinha no rosto um sorriso ingênuo. Bem próprio, aliás, para meus onze anos. Ousei aproximar-me para advertir a mim mesmo sobre o que haveria de acontecer daqui a perto de duas horas: que aquele sorriso ia desaparecer para sempre, entre as serpentinas espalhadas pelo chão e o povo se retirando com seus estandartes recolhidos. (PERDIGÃO, 2000, p. 254-255)

Portanto, a partir do recurso ficcional da viagem no tempo, o conto de Paulo Perdigão permite trabalhar com o tema do trauma da derrota de 1950 de uma maneira inusitada, em que o adulto traumatizado – enredado em sua neurose decorrente do Maracanazo – vislumbra sua própria imagem enquanto menino que, esperançoso, aguardava o triunfo da Seleção Brasileira. Em um crescendo, a tensão se estabelece com o início da partida, com o gol de Friaça para o Brasil no início do segundo tempo e o gol de empate assinalado por Schiaffino aos 20min32s. Faltando cerca de 10 min. para o encerramento da partida, o narrador-protagonista se posiciona atrás do gol de Barbosa para tentar alertar a todos sobre a investida do ponteiro uruguaio pela direita. Todavia, repórteres posicionados próximos a ele o tomam por louco:

[…] Era isso: impediram-me de entrar em campo. Desprezível humanidade, testemunha dócil de sua própria derrocada!

[…] ― “Parem tudo!”

Era uma farsa que se desdobrava ante a meus olhos. […]

― “Parem tudo!”

Esse foi o grito. Eu comuniquei através dele um apelo de solidariedade humana. Nos olhos de Barbosa vislumbrei por fração de segundo uma resposta acolhedora. Pelo menos ele entendeu o apelo. Exatamente: Barbosa! O grito atingiu-o como um raio. Barbosa olhou-me num lampejo de desespero. A sua repentina lucidez foi também um desafio à realidade. (PERDIGÃO, 2000, p. 257-258)

Dessa forma, ao final do conto, o narrador-protagonista fracassa em seu intento de mudar a história do Maracanazo. Além de não impedir o gol de Ghiggia, ele ainda assume a posição de culpado pela distração, por frações de segundo, do goleiro Barbosa, sucumbindo ao chute do ponteiro uruguaio:

Exausto, deixei-me cair no gramado, sem forças e sem nenhum sentido para continuar vivendo. A bola chutada por Ghiggia ainda balançava as redes. Barbosa no chão. Ghiggia correndo, aos pulos, para comemorar o gol. E aquele impacto terrível que permanece até hoje comigo, agora que tudo passou e que posso reconhecer a verdade dolorosa e inelutável. (PERDIGÃO, 2000, p. 258)

Desse modo, o narrador-protagonista, ao final, se descobre culpado pela derrota e por sua irremediável imutabilidade. No jogo temporal estabelecido no conto, o “hoje” é marcado pela impossibilidade do luto como reflexo do trauma que persiste:

No entanto, não esquecera. E agora me acuso. Sou culpado pela absurdidade desse mundo ao qual me oponho com toda a força da minha razão! Pois, na dolorosa viagem ao fundo da minha neurose, descobri por que no dia 16 de julho de 1950 comecei a morrer em vida. E aqui tenho essa verdade a carregar para o resto de meus dias.

O Uruguai não derrotou o Brasil na Copa de 50. Eu derrotei o Brasil! Eu, somente eu, fui o responsável pelo gol de Ghiggia! (PERDIGÃO, 2000, p. 258)

Por fim, cabe ressaltar que o conto de Paulo Perdigão foi adaptado para o Cinema em 1988, por Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado, com o curta-metragem Barbosa.

“Já podeis da pátria filhos” (1978), de João Ubaldo Ribeiro – a metáfora “futebol é guerra” em tempos de ufanismo

O conto “Já podeis da pátria filhos”, do romancista, cronista, jornalista e tradutor brasileiro João Ubaldo Ribeiro, ocupante da cadeira nº 34 da Academia Brasileira de Letras, falecido em 18 de julho de 2014, no Rio de Janeiro, aos 73 anos de idade, foi publicado originalmente na revista Playboy, em outubro de 1978. Autor de romances célebres como Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro (1984) e O albatroz azul (2009), João Ubaldo Ribeiro escreveu um conto de futebol marcado por humor e ironia em um contexto de exceção. Conforme pode ser observado, o título “Já podeis da pátria filhos” é uma citação do primeiro verso da primeira estrofe do “Hino da Independência do Brasil” (1822), cuja melodia foi composta pelo Imperador Dom Pedro I, e cujos versos são de autoria do poeta Evaristo da Veiga:

Já podeis da pátria filhos,

Ver contente a mãe-gentil;

Já raiou a liberdade

No horizonte do Brasil

(HINO DA INDEPENDÊNCIA, 1822)

 Por sua vez, a epígrafe do conto “Já podeis da pátria filhos” parece aludir à metáfora de que “futebol é guerra”:

Os gringos comiam mais e entendiam de minérios. Mas isso

era pouco para ganharem a guerra do futebol. (RIBEIRO, 1998, p. 13).

Dessa forma, ambos os paratextos – o título e a epígrafe – direcionam a leitura do texto e auxiliam na produção de um viés crítico em relação à Guerra Fria e ao contexto ditatorial da época em que foi escrito e publicado em uma revista masculina.

No conto “Já podeis da pátria filhos”, a narrativa se estrutura a partir de um narrador em terceira pessoa, inicialmente extradiegético, mas que se torna ao longo do conto intradiegético, assumindo a primeira pessoa do singular e, respectivamente, do plural. O narrador-personagem é, provavelmente, um paredro (um dirigente) ou o próprio técnico do time do São Lourenço. No texto, destacam-se várias personagens pitorescas, entre elas, o goleiro Capeta, Delegado, Digaí, Cremildo, João Baguinha e Carlito Bofe.

O evento central do conto “Já podeis da pátria filhos” é a partida disputada entre o time do São Lourenço, uma equipe amadora formada por diversas figuras inusitadas do lugar, e um time formado por “japoneses” e “americanos”, designados genericamente pelo narrador como os “gringos”, ligados a mineradoras numa região do Norte ou Nordeste do Brasil. O jogo em si é narrado de modo descritivo, entremeado de digressões:

[…] quando chega bem no bico da área, seu Digaí me dá um cacete que quase a bola fica encaixada no ânglio superior direito da trave do japonês, mas não ficou: bateu no ânglio, voltou, bateu na cabeça do japonês e entrou e sacudiu o véu da noiva, só que não tinha véu, mas também não tinha noiva e gol do Brasil! Carlito Bofe, que estava tomando conta do foguete da vitória, não agüentou e soltou a pamonha, catapriutabum! […] (RIBEIRO, 1998, p. 21)

O conto transmite uma imagem do futebol amador praticado em áreas rurais do país. Além de precário, o time fictício do São Lourenço faz uso de violência e de “táticas” especiais, como indica o narrador, para desestabilizar os adversários e vencer o jogo. A principal vítima é o goleiro adversário, conforme a passagem a seguir:

[…] O goleiro deles arma o bote, mas nisso Delegado vem de lá e enfia o dedo na bunda do japonês e o japonês não quis acordo. Revirou o corpo e deu uma pezada na cara de Delegado que Delegado nem catou ficha. Caiu inteiro no meio da área. Temos aí um pênalte claro, mas o japonês avançou para o juiz e disse ele mete dedo no meu trazezo, ele mete no meu trazezo, isto seu Delegado todo estatelado no gramado, com um lado da cara inchado e fazendo careta com o outro. […] (RIBEIRO, 1998, p. 21-22)

Além do tom coloquial e tendendo à oralidade, o conto “Já podeis da pátria filhos” apresenta uma dicção narrativa marcada por estereótipos, por incorreções e também por palavras grosseiras e de baixo calão que, ao mesmo tempo, auxiliam na produção do tom de humor e na constituição da “persona” do narrador, cujo olhar é marcado por preconceitos em relação a estrangeiros, os “gringos”, como ele os define, e cuja narrativa apresenta argumentos esdrúxulos e nada compromissados com os fatos históricos:

[…] o americano foi lá e roubou o lêise e ficou com a invenção para ele, mas não quero saber dessas coisas porque não suporto política. Estólei Mattos, o grande ponteiro inglês, enfiou uma bola pelo meio das pernas de Nilton Santos, coisa que só foi possível porque o inglês guarda o segredo do espitifaire, aeroplano que derrotou o alemão na guerra, em razão de que continha o segredo da bomba atômica – em inglês, espeitofaire, bomba atômica. […] (RIBEIRO, 1998, p. 14)

Conforme podemos constatar na citação acima, o humor se apresenta como elemento estruturante da narrativa. Ao argumentar que “futebol é guerra”, o narrador menciona algumas batalhas épicas e alude à Seleção Inglesa da década de 1950 – com a referência ao jogador Stanley Matthews (“Estólei Mattos”) – e ao sucesso da Royal Air Force, a RAF, na Segunda Guerra Mundial – e destaque para o avião de caça “Spitfire” (“espitifaire”), cujo nome não significa “bomba atômica”, como afirma o narrador, mas “cuspir fogo”. Essas tiradas, aliás, fazem com que o leitor passe a duvidar dos argumentos imprecisos e preconceituosos do narrador, que se gaba de ser erudito e experiente: “Para conhecer essas coisas, é preciso ter viagem. Ou então ler e prestar atenção nas conversas ilustradas” (RIBEIRO, 1998, p. 14).

Ao final do conto, o narrador expressa o despeito e os preconceitos em relação aos “estrangeiros”, num discurso politicamente nada correto. Aliás, na construção do “ethos” do narrador desempenha um papel importante a sua alegada “erudição”, que se revela improcedente, como pudemos constatar na citação anterior. Mais uma vez, percebe-se que o título – “Já podeis da pátria filhos” – reforça o sentido “ufanista” presente nas palavras do narrador:

Vitória do Brasil, ninguém envergonhou a pátria. Muita gente pergunta se em vez de ganhar no futebol, não era melhor a gente viver bem igual aos gringos vivem? Isso demonstra ignorância, porque se sabe que ao gringo interessa mais mostrar que a raça deles é melhor, por isso que Hitler mandou matar todos os alemães que não ganharam as olimpíadas, para não envergonhar a raça. Daí se vê que, ganhando no futebol, a melhor raça somos nós. (RIBEIRO, 1998, p. 22-23)

Além da informação improcedente de que Hitler teria ordenado assassinar todos os atletas alemães que não venceram disputas na Olimpíada de Berlim, em 1936 – aliás, pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, a Alemanha obteve o maior número de medalhas de ouro, não obstante o desempenho magistral de Jessé Owens ao conquistar quatro medalhas de ouro e enfurecer o ditador, desbancando os Estados Unidos da América, que haviam liderado os quadros de medalha, ininterruptamente, desde a quinta edição dos Jogos, em 1912 – o narrador de “Já podeis da pátria filhos” apresenta, ironicamente, a própria ignorância em seu tom ufanista, tendo o triunfo na “guerra do futebol” como afirmação de identidade da “melhor raça”.

João Ubaldo Ribeiro
Fonte: Wikipédia

“Eleitorado, ou…” (1980), de Edilberto Coutinho – um conto magistral em tempos sombrios

O conto “Eleitorado ou…”, do jornalista e escritor paraibano Edilberto Coutinho, integra a célebre obra Maracanã, adeus: onze histórias de futebol (1980), que foi agraciada com o prestigiado Prêmio Casa de Las Américas, que, até então, não havia sido conferido a nenhuma obra da Literatura Brasileira. Além de Maracanã, adeus, Edilberto Coutinho publicou, entre outros, os livros Onda boiadeira e outros contos (1954), Um negro vai à forra (1977), Sangue na praça (1979), Memória demolida (1982), e O jogo terminado (1983). Sem dúvida, quando o assunto é conto de futebol, Edilberto Coutinho é um autêntico pioneiro, pois foi o primeiro escritor na Literatura Brasileira a dedicar um livro de contos exclusivamente ao tema do futebol. Nas décadas seguintes, alguns escritores seguiriam seu exemplo: Aldyr Garcia Schlee e o livro Contos de Futebol (1997), Cláudio Lovato Filho e o livro O batedor de faltas (2008), e Mayant Gallo e o livro O gol esquecido: contos de futebol (2014).

No conto “Eleitorado ou…”, a narrativa se estrutura de modo dialógico monologal: o narrador-personagem-jogador em primeira pessoa, intradiegético, reproduz as falas de sua interlocutora – uma jovem repórter –, e as integra em sua própria fala. No conto, aparecem três personagens: a jovem repórter e o narrador-jogador da Seleção Brasileira, além do “major médico” da comissão técnica, que carregam certos traços estereotipados em suas constituição.

Ao ser entrevistado pela jovem repórter, o jogador, que narra o conto, assume uma postura ambígua, pois sempre apresenta duas respostas possíveis e diametralmente opostas, como podemos notar na seguinte passagem do conto:

A mocinha estilhaçou:

Ta sabendo que você e seus companheiros desempenham um papel também político de eficiente válvula de escape do seu povo? Que você é um bom cabo eleitoral dos homens do Governo? E, se ganharem essa Copa, eles vão usar a vitória de vocês?

Olhei bem nos olhos dela e falei que é duro, moça, a gente não deixa de ser cabo eleitoral e desse Governo aí, e a gente não devia ter nada a ver com ele.

… ou, Olhei bem nos olhos dela e falei que esse negócio de política, moça, não tem nada a ver, to por fora, tá sabendo? não entendo não, meu negócio é jogar bola. (COUTINHO, 1980, p. 13)

O tom ambíguo que perpassa o conto “Eleitorado ou…” faz com que o leitor não saiba qual das duas versões das falas do jogador-narrador seria, supostamente, a “verdadeira”. Além disso, o conto se refere ao contexto político da ditadura civil-militar brasileira, em que, por um lado, a liberdade de expressão era cerceada e, por outro lado, o governo não media esforços no âmbito da propaganda para produzir uma imagem favorável de si, colando-a, por exemplo, aos êxitos da Seleção Brasileira, sobretudo no contexto da conquista do Tricampeonato Mundial em 1970, no México.

Enquanto a repórter parece assumir um tom de crítica aos desmandos do poder e, ao mesmo tempo, exigir um posicionamento do jogador quanto à questão política, o narrador-jogador, ao contrário, oscila entre a crítica e a omissão perante o status quo, vivendo entre a consciência do que está em jogo e a omissão, para não ter a carreira comprometida e não ser desligado da Seleção.

Os temas da manipulação e da propaganda também recebem destaque no conto de Edilberto Coutinho. Do modo como são tratados, conforme mencionado anteriormente, parecem aludir a um evento histórico específico: a conquista do Tricampeonato Mundial de futebol em 1970, na Copa do México. Tratava-se de ano eleitoral no Brasil, dentro do sistema bipartidário imposto pelo Ato Institucional 2 (AI-2), de 27 de outubro de 1965, que levou à extinção da União Democrática Nacional (UDN), do Partido Social Democrático (PSD), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do Partido Socialista Brasileiro (PSB), do Partido Social Progressista (PSP), entre outros, e à acomodação do espectro partidário reduzido, forçosamente, a apenas dois partidos, de acordo com os interesses do regime ditatorial: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) (ALENCASTRO, 2014, p. 7). É, justamente, nesse sentido que surge, no conto “Eleitorado ou”, o tema das eleições sob regime ditatorial.

Por sua vez, a estrutura do conto e a ambiguidade produzida pelas respostas diametralmente opostas resulta de uma espécie de “drible” que o narrador-protagonista procura dar na jornalista, tratada por ele com expressões como “mocinha” e “moça”, não considerada como uma profissional do jornalismo e tratada como objeto de assédio sexual, e vista com desconfiança pela personagem do major médico da Seleção: “[…] então, me disse o major médico da Seleção, garoto discreto, hein?, gostei de ver que não foi de vez na onda daquela mocinha, jornalista é bicho perigoso gosta de inventar, envenenar tudo, é preciso muito cuidado com  que se diz, […]” (COUTINHO, 1980, p. 16).

Cabe ressaltar também que se estabelece uma polifonia intradiscursiva no modo como o narrador se torna feixe de outras vozes, como a da personagem da jovem repórter e da personagem do major médico, integrante da comissão técnica da Seleção Brasileira. Trata-se de aspecto que atesta a qualidade estética do conto.

Por fim, o conto “Eleitorado ou…” se encerra de modo aberto. A insistência da repórter em tratar do tema do uso político do futebol em tempos de Copa do Mundo e de eleições faz com que o jogador hesite responder e, ao mesmo tempo, deseje assediá-la. Sua resposta, aparentemente, seria a de afirmar ter consciência da situação.

Ela: Pois é, se ganharem a Copa eles vão usar a vitória de vocês.

Ela insistiu nesse ponto e era um tesão de menina e eu não queria parecer trouxa, babaca, então falei, sim, o Governo vai usar a vitória da gente, sei muito bem, sempre soube; ela disse, você será o único a ter consciência do que acontece?, pelo que sei dos outros, você é um solitário (eu tava a fim de falar tudo, me abrir com ela, e também, é claro, de levar ela pra cama), os outros nem se tocam no que estou falando, certo?, se perguntasse a outro qualquer se sabe que está ligado ao processo eleitoral, por exemplo?, se falasse que eleitorado é outro nome, o nome mais correto para essa massa que chamam de torcida (ela falando, falando, e eu com uma vontade doida nela, um tesão enorme me subindo pelas pernas), então eu falei, e você acha que vou ficar sozinho por muito tempo? Vem uma geração nova de jogadores por aí, e

…ou (COUTINHO, 1980, p. 17)

Todavia, o “ou…” fica em aberto, sem a posição inconsciente do jogador, e parece indicar uma oposição em relação ao “eleitorado”: seria “eleitorado” ou “massa de manobra”? Não deixa de haver, portanto, nas entrelinhas um sentido de futebol visto de maneira crítica como “ópio do povo” e como potencial elemento passível de instrumentalização em ações promovidas pela Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP) para fins propagandísticos, dado o seu significado cultural para a sociedade brasileira.

Sem dúvida, o conto “Eleitorado, ou” teria sido passível de ser censurado, caso tivesse sido apresentado para publicação no final da década de 1960 ou início da década de 1970, pois apresenta uma crítica inequívoca, não obstante a ambiguidade estrutural constitutiva, aos desmandos da ditadura civil-militar no Brasil. Nesse sentido, é importante salientar que sua publicação no livro Maracanã, adeus, em 1980, se deu, justamente, após a promulgação da Lei da Anistia (nº 6.683), de 28 de agosto de 1979, em momento político e repressivo distinto dos chamados “anos de chumbo”.

Maracanã, adeus
Fonte: divulgação

“Na boca do túnel” (1982), de Sérgio Sant’Anna – o jogo da bola e o jogo da vida

O conto “Na boca do túnel”, do escritor Sérgio Sant’Anna, foi publicado originalmente em 1982, na obra O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (contos, 1982). Com longa trajetória em sua carreira literária, Sérgio Sant’Anna, que nos deixou em 10 de maio de 2020, se destaca na cena literária brasileira por obras como O sobrevivente (contos, 1969), Notas de Manfredo Rangel, repórter (contos, 1973), A senhorita Simpson (contos, 1989), O vôo da madrugada (contos, 2003) e Páginas sem glória (contos, 2012). Além de ter sido agraciado com o renomado prêmio Jabuti em quatro edições, também recebeu o Prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos Teatrais e o Prêmio Portugal Telecom.

A instância narrativa de “Na boca do túnel” se constitui a partir de um narrador em primeira pessoa, intradiegético, pois se afigura como uma personagem, especificamente, um treinador de uma equipe de futebol, o São Cristóvão de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro, que narra sobre a expectativa de um jogo no Maracanã. Logo de início, o narrador-treinador evidencia certo tom crítico em relação a seus comandados:

A frase, que eu pedi que o meu auxiliar escrevesse, estava lá, no quadro-negro do vestiário: “É do conhecimento da própria fraqueza que o fraco retira a sua força.” […] Se eu tivesse escrito: “Bola pra frente, rapaziada” – talvez prestassem mais atenção. (SANT’ANNA, 1998, p. 61)

Entretanto, o narrador-treinador parece impor a si uma espécie de autocensura, que interdita determinados pensamentos referentes aos atletas e às instruções que deve passar a eles, conforme evidencia a seguinte passagem do conto: “[…] Ninguém assinou a súmula e ainda há tempo para uma substituição. ‘Tanto faz entrar um como outro num time desses’, eu estou à beira de dizer. Mas não digo. Seria antipsicológico.” (SANT’ANNA, 1998, p. 61); grifo no original). E essa postura do narrador se torna recorrente ao longo do conto: “Dá vontade de dizer: ‘Olha os elefantes, rapaz. Vá lá no circo e vê as gracinhas que os domadores põem eles pra fazer’. Mas não digo. Seria antipsicológico. (SANT’ANNA, 1998, p. 63)

No conto de Sérgio Sant’Anna, a “persona” do narrador é construída a partir de uma série de traços corpóreos e psicológicos. Por um lado, o narrador manca de uma perna, fato que impediu que ele, no passado, se tornasse jogador de futebol; por outro, o narrador é um técnico decadente, mas que teve momentos de glória no passado: Por um lado, “[e]squecem-se, porém, de que praticamente cresci nas amuradas e alambrados dos estádios e só não passei para o lado de dentro do campo porque mancava de uma perna” (SANT’ANNA, 1998, p. 76), por outro, “Eu! O que se pode dizer de mim em poucas palavras? […] Eu – esse feixe de sensações diversas e contraditórias e para o qual se aspira, até o fim, a paz e a unidade, como um campeonato ganho e que fosse o último de todos os campeonatos?” (SANT’ANNA, 1998, p. 75; grifo no original).

Com relação ao tempo, há uma variação entre narrar no pretérito e presentificar a cena em determinadas passagens do conto. O narrador parece narrar da perspectiva de quem já vivenciou o narrado e apresenta uma retrospectiva, e também encontra refúgio na memória de tempos áureos, em momentos de agrura: “[…] Ou a memória, ainda, de uma certa tarde em que você foi carregado em triunfo pelo estádio até a sede de um clube de província, mas consciente de que deveria aproveitar ao máximo aquele momento de glória, porque o efêmero é a constante na vida de um técnico? […]” (SANT’ANNA, 1998, p. 75-76)

Por sua vez, o título se relaciona “espacialmente” com o conto: é da “boca do túnel” que o narrador contempla o jogo que está sendo perdido por seus comandados. Parece que essa é a posição do narrador também na vida, frente a um outro jogo que também está sendo perdido: o da própria vida. O jogo em si é apresentado através de descrições do narrador-treinador, entremeadas de uma série de digressões e reflexões sobre jogadores famosos, sobre o comportamento humano e sobre a vida.

Por fim, o conto transmite uma imagem do futebol brasileiro a partir das dificuldades que treinador e jogadores podem encontrar em um clube suburbano de menor expressão, como o São Cristóvão. São poucas as personagens que são nomeadas no conto: Jair, o craque do time, já em fase decadente – fato que leva o narrador-treinador a sentir certa identificação com o jogador – parece ser o único em condições de realizar lances de qualidade técnica; Evilásio, que marca o “gol de honra” do São Cristóvão, é aquele que parece ter “compreendido” as instruções do narrador.

Todavia, o fracasso culmina com a dispensa do narrador-treinador pelos dirigentes do São Cristóvão, que sofre uma espécie de morte simbólica – e, talvez, física –, derrotado também no jogo da vida:

E há outras noites, então, de um escuro total que não é violado por som ou movimento algum e dentro da qual alguém acorda sem o calor de uma pessoa a seu lado ou nem mesmo um sonho recente que se torne uma referência. E esse homem, se se pode chamá-lo assim nesse momento – esse infinito instantâneo –, não só desconhece quem é, onde está e por que, como também, mais obscuramente, demora uma pequena fração atônita de tempo para perceber, até, que se encontra vivo. (SANT’ANNA, 1998, p. 86)

Nesse conto magistral de Sérgio Sant’Anna, mais uma vez se expressa o caráter trágico que a carreira futebolística pode adquirir e servir de inspiração para a criação literária, como a desse narrador-treinador que teve momentos de glória, por exemplo, ao treinar “até time árabe num emirado” (SANT’ANNA, 1998, p. 76), mas que vislumbra, resignado, “da boca do túnel”, sua carreira chegando ao fim ainda no transcorrer de humilhante derrota do São Cristóvão em partida disputada no Maracanã: “Relaxo-me diante do inevitável, acendo um cigarro, desfruto daquele cansaço bom. Desfruto desse momento vago em que não se pensa em nada, nem mesmo na próxima partida, porque não haverá para mim uma próxima partida.” (SANT’ANNA, 1998, p. 79)

Sérgio Sant’Anna
Sérgio Sant’Anna. Fonte: Youtube/Reprodução.

Referências bibliográficas

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O golpe de 1964 e o voto popular. Novos Estudos CEBRAP. N. 98, p. 5-11, mar. 2014. Acesso em: 10 jan. 2022.

COUTINHO, Edilberto. Eleitorado ou… In: COUTINHO, Edilberto. Maracanã, adeus: onze histórias de futebol. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1980, p. 13-17.

FONSECA, Rubem. Abril no Rio, em 1970. In: COSTA, Flávio Moreira da (org.). Onze em campo e um banco de primeira. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998, p. 53-59.

GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Lisboa: Vega, 1995.

HINO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL (1822). Acesso em: 09 jan. 2022.

PERDIGÃO, Paulo. O dia em que o Brasil perdeu a Copa. In: PERDIGÃO, Paulo. Anatomia de uma derrota. Porto Alegre: L&PM, 2000, p. 251-258.

RIBEIRO, João Ubaldo. Já podeis da pátria filhos. In: COSTA, Flávio Moreira da (org.). Onze em campo e um banco de primeira. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1998, p. 13-23.

SANT’ANNA, Sérgio. Na boca do túnel (1982). In: COSTA, Flávio Moreira da (org.). Onze em campo e um banco de primeira. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998, p. 61-86.

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Elcio Loureiro Cornelsen

Coordenador do FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes, da UFMG.

Como citar

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Contos de Futebol no Brasil – Parte II. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 16, 2022.
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