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Copa de 50: uma tragédia contada em seis palcos (Parte 1)

A história do primeiro Mundial disputado no Brasil a partir dos estádios usados na competição

Em 1950 o mundo se acostumava a viver novamente sem as arguiras de uma grande guerra. As batalhas que duraram até 1945 deixaram o mundo de cabeça para baixo e interferiram no andamento de muita coisa, inclusive do futebol, que antes dos combates, já havia vivido três edições daquela que é a maior competição do esporte, a Copa do Mundo. No Uruguai em 1930, na Itália em 1934 e na França em 1938.

Cartaz oficial da Copa do Mundo de 1950 | Foto: Wikipédia

A periodicidade de quatro anos foi interrompida pela grande disputa bélica, e as edições de 1942 e 1946 não puderam acontecer, voltando apenas em 1950, em sua segunda disputa na América do Sul. O Brasil conquistou o direito de ver desfilar as grandes estrelas mundiais em seus gramados após a sua grande concorrente a sediar a Copa do Mundo, a Alemanha, desistir da ideia, pois ainda se recuperava da devastação causada pelos anos inglórios que acabara de passar.

Na escolha do Brasil como sede, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) apresentou um projeto que encheu os olhos dos representantes da FIFA: a construção do maior estádio de futebol do mundo, o Maracanã. Além dele, outro campo foi erguido do zero para a Copa de 50, o Independência, e juntos com o recém inaugurado Durival de Brito, e os mais antigos Pacaembu, Ilha do Retiro e Estádio dos Eucaliptos, formaram o sexteto de palcos que receberiam os jogos do primeiro Mundial pós-guerra.

Estádio dos Eucaliptos

Fundado em 1931, esse era o estádio mais antigo na lista das sedes do Mundial. Localizado em Porto Alegre, era a casa do Sport Club Internacional e recebeu esse nome por causa dos eucaliptos que o rodeavam e foram trazidos da Chácara dos Eucaliptos, que abrigava o campo do Colorado. Antes de se tornar sede da Copa, em 1944 o estádio ganhou o nome oficial de Ildo Meneghetti, ex-presidente do Inter.

Com capacidade total de 20 mil lugares, o Estádio dos Eucaliptos recebeu dois jogos do Mundial. Em 28 de junho, a primeira e histórica partida. Pouco mais de 11.000 pessoas viram a goleada por 4 a 1 da seleção da Iugoslávia sobre o México, em partida válida pela segunda rodada do Grupo 1.

O segundo jogo de Copa do Mundo em terras gaúchas mostrou mais uma derrota dos mexicanos na competição. Dessa vez, os algozes foram os suíços que venceram por 2 a 1 aquele jogo que foi visto por 3.580 pessoas, o menor público daquela Copa.

Ilha do Retiro

O estádio Adelmar da Costa Carvalho, inaugurado em 1937 e localizado na cidade do Recife, foi a única sede fora do eixo sul-sudeste naquela competição. Propriedade do Sport Clube do Recife, o estádio com capacidade para 20 mil pessoas foi causa de uma desagradável história da competição, exatamente por causa de sua localização distante das demais sedes.

Inicialmente a Ilha receberia dois jogos da Copa, mas isso acabou não acontecendo porque a França, uma das seleções que jogaria lá, não aceitou o fato de jogar no Rio Grande do Sul e depois no Pernambuco, tendo que fazer uma grande viagem, o que seria cansativo e desvantajoso para sua equipe. Com isso, os franceses desistiram da competição, e a seleção de Portugal foi convidada a assumir seu lugar, no entanto, os portugueses recusaram o convite, e o Mundial foi disputado com uma equipe a menos do que era esperado.

A desistência da França e a recusa de Portugal frustraram os planos de dois jogos no Recife, àquela época a terceira cidade mais populosa do país, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo assim, a cidade se tornou histórica para o futebol brasileiro e mundial, por ser a primeira do Nordeste a receber um jogo de Copa do Mundo, quando no dia 2 de julho viu o Chile golear a seleção dos Estados Unidos por 5 a 2. Naquela tarde, um total de 8.501 pessoas estiveram na Ilha do Retiro e viram a história acontecer.

Estádio do Pacaembu

Apenas três anos mais jovem que a Ilha do Retiro, o Estádio Municipal do Pacaembu, em São Paulo, era um dos gigantes da época. Inaugurado em 1940, o Pacaembu era o segundo maior palco da competição com capacidade para 60 mil torcedores, o estádio recebeu seis jogos da competição, ficando atrás apenas do Maracanã.

No dia 25 de junho, o estádio recebeu a bicampeã Itália, que entrou em campo contra a ótima seleção da Suécia. O duelo dos europeus foi de muitos gols e um placar apertado a favor dos suecos que, depois de saírem perdendo por 1 a 0 logo aos sete minutos, viraram e venceram o jogo por 3 a 2 diante de 50 mil pessoas.

Três dias depois, em 28 de junho foi a vez dos paulistas assistirem a dona da casa jogar. O Brasil entrou em campo com um time diferente do considerado ideal. Para agradar o povo local e com medo de vaias, o técnico mudou todo o meio campo, colocando atletas de São Paulo. Com a mudança o time não demonstrou o mesmo futebol da estreia e ficou só no empate contra a seleção da Suíça. No final, 42 mil pessoas viram aquele 2 a 2.

No dia 2 de julho a Itália voltou a jogar nos gramados do Municipal de São Paulo. Desta vez os bicampeões do mundo não decepcionaram, e diante de 26 mil torcedores venceram o Paraguai por 2 a 0.

O quarto jogo no Pacaembu já não era mais válido pela primeira fase da competição. No dia 9 de julho os paulistas viram outra campeã mundial em ação. O Uruguai foi até São Paulo enfrentar a Espanha na primeira rodada do quadrangular final da Copa. O jogo foi visto por 44 mil torcedores e terminou empatado em 2 a 2.

Em 13 de julho, os uruguaios voltaram ao Pacaembu e deram aos paulistas o que faltou no primeiro encontro: uma vitória. Diante de um público bem menor, apenas 8 mil espectadores, a Celeste encarou a Suécia, e depois de ficar duas vezes atrás no placar, virou e venceu o jogo por 3 a 2.

Três dias depois, a Suécia voltou pela terceira vez ao estádio, e depois de vencer a Itália na primeira fase e ser derrotado para o Uruguai, enfrentava no dia 16 de julho, data que o Mundial se encerraria, a seleção da Espanha, em mais um duelo europeu. No fim, 11 mil torcedores foram assistir à Suécia 3 a 1 Espanha.

Além do Estádio dos Eucaliptos, Ilha do Retiro e Pacaembu, a Copa do Mundo de 1950 contou com mais três estádios como sede. Na próxima semana, trarei o Mundial no Estádio Durival de Britto, Estádio Independência e no templo Maracanã, palco das glórias do futebol brasileiro, mas que há 70 anos abrigou o Maracanazzo.

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Jaqueilton Gomes

Jornalista em formação, amante do futebol e comentarista no Universidade do Esporte

Como citar

GOMES, Jaqueilton. Copa de 50: uma tragédia contada em seis palcos (Parte 1). Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 10, 2020.
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