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Cultura, Identidade e Futebol na Europa contemporânea

Rodrigo Koch 8 de março de 2022

Este breve artigo tem como objetivo balizar e introduzir os relatos e imagens que serão produzidos e publicados em uma série de textos futuros acerca do fenômeno da Futebolização (KOCH 2020) na Europa contemporânea. Em certa medida, trabalho anterior publicado aqui mesmo no portal Ludopédio (KOCH 2021) já deu pistas e apresentou pontos iniciais desta investigação. No entanto, ainda há muitos aspectos deste processo globalizador para serem pesquisados e, que – no mínimo – devem lançar questões para discussão. A partir dos estudos produzidos por Hall (2006) e Bauman (2005), acerca da identidade cultural, e de outros trabalhos de pensadores vinculados ao Centre for Contemporary Cultural Studies (Birmingham, Inglaterra) seguem breves argumentações sobre Cultura e Identidade que se entrelaçam com a Futebolização. Também convoco Giulianotti (2012) para as discussões que seguem neste texto. Aspectos metodológicos e conceituais desta etapa da pesquisa de pós-doutorado serão apresentados nos artigos futuros. Neste momento, cabe apenas lembrarmos aos leitores que a Europa em sua história recente contava com menos nações – ainda que houvesse inúmeras divergências entre as etnias que as compunham – e este cenário tem sido alterado. Com exceção da unificação da Alemanha, nas últimas décadas tivemos a separação da Tchecoslováquia, e o esfacelamento da União Soviética e da Iugoslávia, que geraram – ou resgataram – outras pequenas nações que hoje formam a ‘grande colcha de retalhos’ da Europa contemporânea. Somado a isso ainda temos em alguns países e regiões movimentos separatistas ou xenofóbicos e, divergências econômicas, políticas e ideológicas, que por sua vez geram Culturas e Identidades próprias e que sem dúvida se manifestam e utilizam o futebol como uma das ferramentas agregadoras e simbólicas destas identidades. Em alguns casos, somente uma equipe de futebol consegue unificar e representar os interesses comuns de determinada região.

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Fonte: TheFutureIsUnwritten on Visualhunt

Cultura(s) e Identidade Cultural

Desde meados do século XX a Cultura vem sendo discutida e debatida, de modo a deixarmos de pensá-la como mera produtora de artefatos, mas também – e principalmente na contemporaneidade – como um campo de lutas de poder. Com os movimentos globalizadores mais intensificados a partir da virada do milênio, a Cultura passou a se articular sobre um vasto dispositivo multimídia, implicando uma revolução na comunicação e informação que segue e deverá permanecer em curso.

En este contexto se intensifica la desterritorialización de las culturas, entendida esta como la penetración de formas simbólicas de todas las partes del mundo en las diversas localidades, ya a la inversa, la capacidade de proyectar las formas culturales locales al resto del mundo. Esta desterritorialización cultural implica fenómenos de homogeneización, diferenciación e hibridación culturales. (FERRANDO & HERNANDEZ 2010, p.21)

Segundo Ariño e Serra (2010) a Cultura se assemelha a uma caixa de ferramentas de extensão infinita, na qual os seres humanos tanto depositam suas criações como selecionam aquilo que mais lhes interessa. Este processo de produção, intercambio e consumo, pode ser denominado de participação cultural. Portanto, em certa medida, estamos cercados de meta-culturas, ou seja, pós-culturas resultantes de etnoculturas e socioculturas.

[…] en el magma de la metacultura, cada componente cultural puede ser selecionado y apropriado como un produto único, separado, dislocado de las tradiciones o nichos originarios, y mezclado o recombinado con elementos muy diferentes. (ARIÑO 2010, pp.240-241)

Há ainda um vasto repertório de estudos que poderiam contribuir para as definições de Cultura na contemporaneidade, mas este não é o objetivo principal deste texto. Acrescentamos à esta breve discussão o conceito cultural de ócio pós-moderno, no qual o futebol midiatizado e espetacularizado, através do fenômeno da Futebolização está imerso. O ócio pós-moderno apresenta como características; as decisões estritamente individuais; tempos e espaços aonde ócio e trabalho convivem juntos; a ruptura entre cultura elitista e cultura popular, com o surgimento de subculturas grupais, e identidades; a crescente preocupação com o corpo, valorização de atividades físico-desportivas e cuidados com a saúde; e a onipresença dos artefatos midiáticos, criando novas realidades (ou realidades de cada um ou cada grupo).

En el nuevo escenario postmoderno el ócio se configura cada vez más como uno de los espacios idóneos para satisfacer las demandas de la población. El ócio es reconocido como una necesidad y como un derecho humano básico que corresponde a la persona por el hecho de serlo. (FERRANDO, LLOPIS & SANTOS 2010, p.364)

Segundo Hall (2003 e 2006), o conceito de Identidade Cultural ‘aceita’ que as identidades nunca se unificam e, em tempos de modernidade tardia, estão cada vez mais fragmentadas; nunca são singulares, ou seja, são construídas de múltiplas maneiras através de discursos, práticas e posições diferentes, sendo cruzadas e por vezes antagônicas.

Las identidades, en consecuencia, se constituyen dentro de la representación y no fuera de ella. Se relacionan tanto con la invención de la tradición como con la tradición misma, y nos obligan a leerla no como una reiteración incessante sino como ‘lo mismo que cambia’ […] (HALL 2003, p.18)

Para Bauman (2003), se o problema moderno da identidade era como construí-la e mantê-la sólida e estável, o problema pós-moderno da identidade é fundamentalmente como evitar a fixação e manter vigentes as opções.

La identidad bien construída y duradera deja de ser un activo para convertirse en un passivo. El eje de la estratégia en la vida posmoderna no es construir una identidad, sino evitar su fijación. (BAUMAN 2003, p.51)

Alex Braga on Unsplash
Fonte: Alex Braga on Unsplash

Considerações

Para avaliar as produtividades do fenômeno da Futebolização na pós-modernidade, tenho trabalhado com as identidades torcedoras definidas por Giulianotti (2012): fanáticos, seguidores, fãs e flâneurs. Sem ignorar a manutenção e existência das demais categorias, bem como suas ambivalências no cenário contemporâneo, venho observando e analisando a maior presença de flâneurs entre jovens torcedores. Segundo Giulianotti, este segmento apresenta as seguintes condições: as interações com o futebol se dão através da mídia (especialmente televisão e internet); buscam uma multiplicidade de experiências no futebol; adotam postura afastada aos clubes; lealdades nacionais podem ser trocadas com base no sucesso competitivo ou na identificação mediada com grandes celebridades; seu habitat natural é a “arena virtual”, buscando sensações do futebol representadas pela televisão, internet e, também pelos games; há ocasiões em que se congregam, simulando a paixão pelo clube de futebol parecendo fanáticos; a identidade é baseada no movimento constante, cada vez mais em termos virtuais, mudando de clube como se muda de canal de televisão; buscam sensações, excitação, e assim observam e se afiliam à diversos clubes, jogadores e nações. Tenho me arriscado em afirmar que estes indivíduos, nem mesmo podem ser considerados mais torcedores, ou seja, com aqueles sentimentos sólidos e, em certa medida, ‘eternos’ do passado recente. Seriam, na pós-modernidade, simplesmente (ou complexamente) aficionados do futebol, ou como tenho os nomeado: futebolizados. Na tentativa de avançar neste debate, contribui para tal afirmação, as categorias identitárias apresentadas por Bauman para definir os indivíduos pós-modernos. Utilizando também metáforas analógicas, tentarei encaixar os futebolizados dentro destas quatro categorias, com alguns exemplos comportamentais de aficionados do futebol.

Os ‘passeantes’ preferem estar entre estranhos e ser um estranho para eles, observá-los superficialmente, de modo que como os vê sejam o que são e, sobretudo vê-los e conhecê-los de maneira episódica, sem passado e nem consequências. Seriam aqueles aficionados por futebol, que assistem qualquer jogo televisionado (ou raras vezes in loco) e que não mantém qualquer vínculo do passado ou futuro com as equipes que estão se confrontando. Vibram com os lances tanto de um lado como de outro e, portanto, na arquibancada virtual ocupam pelo menos dois espaços. São emoções passageiras e esquecidas facilmente.

Os ‘vagabundos’ não têm um itinerário antecipado, sua trajetória se arma fragmento por fragmento. Cada lugar para o ‘vagabundo’ é uma parada transitória, nunca sabe quanto tempo ficarão ali, dependendo da generosidade e paciência dos residentes, e das notícias de outros lugares capazes de despertar novas esperanças. São aficionados menos vinculados ao futebol que os ‘passeantes’ e, portanto, acabam sendo carregados pela ‘maré’, ou seja, são aqueles convidados a assistir um jogo com pouco ou nenhum interesse na partida em si, estão com e no grupo por uma condição de comodidade e conveniência e, facilmente podem migrar para outros espaços pós-modernos seja por vontade própria ou pela ‘expulsão simbólica’ dos demais.

Já os ‘turistas’ buscam de forma consciente e sistemática experiências ou novidades, e quando os gozos se desgastam e deixam de atrair, partem para novas experiências. O mundo do ‘turista’ está domado, domesticado, e não assusta. As emoções estão incluídas no mesmo pacote de segurança. Isto faz com que o mundo pareça infinitamente amável, e obediente aos desejos e caprichos do ‘turista’. O aficionado ‘turista’ seria aquele que segue as equipes do momento, recheadas de celebridades e com grandes possibilidades de conquista de títulos. Quando estas perdem seu valor, migram facilmente para outra. Assistem semanalmente aos jogos e adquirem artefatos variados do novo clube e descartam os anteriores que perderam o valor. Fazem estas trocas quando vezes for conveniente.

Por fim os ‘jogadores’. Neste cenário, o mundo também é um ‘jogador’. No confronto entre ‘jogador’ e mundo não há leis e nem ilegalidade, nem ordem nem caos. Só estão colocadas no tabuleiro as jogadas, mais ou menos inteligentes, sagazes ou tramposas, perspicazes ou descontinuadas. A questão é adivinhar as jogadas do adversário e antecipar-se a elas, preveni-las ou aproveitá-las, ou melhor, manter-se uma jogada à frente. Nesta subcategoria dos flâneurs, vejo aqui possibilidades de um aficionado que manteria ainda um certo vínculo com uma equipe ou celebridade específica, mas tal vínculo só será exposto e mantido quando a mesma obtiver sucesso midiático temporário. Portanto, seria um aficionado atento aos novos clubes e celebridades que podem despontar, mas ao mesmo tempo com certas emoções sólidas em torno de determinada(s) equipe(s) de um passado não muito distante.

Em resumo, estas possíveis subcategorias dos flâneurs, nos colocam diante de indivíduos com pouca intimidade entre si e sem ‘pontes de confiança’, que constituirão em breve parcela significativa – ou até dominante – dos aficionados por futebol na contemporaneidade. Nos artigos futuros desta série, estarei expondo marcas e produtividades da Futebolização no território europeu que conduzem os aficionados pós-modernos tanto no Velho Continente como no restante do mundo, (des)(re)construindo as identidades futebolizadas.

Referências

ARIÑO, A. Transformaciones culturales de la modernidad. In: FERRANDO, M. G. (coord.). Pensar nuestra sociedad globalizada: una invitación a la sociologia. Valencia, España: Tirant lo Blanch, 2010.

ARIÑO, A.; SERRA, I. Cultura y socialización. In: FERRANDO, M. G. (coord.). Pensar nuestra sociedad globalizada: una invitación a la sociologia. Valencia, España: Tirant lo Blanch, 2010.

BAUMAN, Z. De peregrino a turista, o una breve historia de la identidade. In: HALL, S.; GAY, P. (comps.). Cuestiones de identidad cultural. Buenos Aires/Madrid: Amorrortu, 2003.

BAUMAN, Z. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

FERRANDO, M. G.; HERNANDEZ, G. Sociologia, sociedade industrial y globalización. In: FERRANDO, M. G. (coord.). Pensar nuestra sociedad globalizada: una invitación a la sociologia. Valencia, España: Tirant lo Blanch, 2010.

FERRANDO, M. G.; LLOPIS-GOIG, R.; SANTOS, A. Sociologia del trabajo y del ocio. In: FERRANDO, M. G. (coord.). Pensar nuestra sociedad globalizada: una invitación a la sociologia. Valencia, España: Tirant lo Blanch, 2010.

GIULIANOTTI, R. Fanáticos, seguidores, fãs e flâneurs: uma taxonomia de identidades do torcedor no futebol. Recorde: Revista de História do Esporte. Volume 5 (1), p.1-35, 2012.

HALL, S. Introducción: quién necessita ‘identidad’? In: HALL, S.; GAY, P. (comps.). Cuestiones de identidad cultural. Buenos Aires/Madrid: Amorrortu, 2003.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

KOCH, R. Futebolização: identidades torcedoras da juventude pós-moderna. Brasília, DF: Trampolim Editora/Ministério da Cidadania, 2020.

KOCH, R. Marcas da Futebolização no cotidiano da Comunidade Valenciana. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 14, 2021.

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Rodrigo Koch

Pós-Doutor (Sociologia) pelo Institut Universitari de Creativitat i Innovacions Educatives de la Universitat de València, Doutor em Educação (Culturas Juvenis) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Mestre em Educação (Estudos Culturais) pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo pela Universidade Gama Filho (UGF), e graduado em Educação Física pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Vencedor (1º lugar na classificação geral) do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor - Edição 2018-2019. Pesquisador Associado do Centro Latino Americano de Estudos em Cultura - CLAEC. Professor adjunto D da Uergs - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, lotado na unidade Hortênsias-São Francisco de Paula.

Como citar

KOCH, Rodrigo. Cultura, Identidade e Futebol na Europa contemporânea. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 10, 2022.
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