O Grupo Corpo é uma companhia de dança contemporânea belo-horizontina de renome internacional, criada em 1975. Foi fundada por Paulo Pederneiras em conjunto com os irmãos Rodrigo Pederneiras, Pedro Pederneiras e Miriam Pederneiras, e um grupo de amigos que, transitando entre os mais diferentes universos musicais, construindo uma persona cênica ao longo dos anos, já carregam uma bagagem de 40 criações coreográficas.[1]

No ano de 2005 o Grupo Corpo apresentou, pela primeira vez, o espetáculo denominado “Onqotô”, que, na ocasião, celebrava os 30 anos de atividade da companhia. A origem do nome desse espetáculo comemorativo, refere-se a uma parte integrante da seguinte tríade de indagações existenciais: “Onqotô?”, “Proncovô? “Qemqsô?”, expressões típicas do charmoso dialeto mineiro (o “mineirês”). Tais indagações são respectivamente traduzidas deste modo: “Onde que eu estou?”, “Para onde que eu vou?”, “Quem que eu sou?”.

A trilha sonora de “Onqotô” foi de autoria de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik. Ao longo da trilha e do espetáculo como um todo, é possível observar uma bem-humorada discussão a respeito da “paternidade” do Universo, ao ser indagada a sua origem e toda a sua imensidão protagonizada pela famosa explosão do “Big-Bang”.

Ao tratar dessa teoria cosmológica, é possível reconhecer que o “Big-Bang” consagrou-se pela ciência dominante que, atribui à cultura anglo-saxônica a criação do Universo. Segundo Boaventura de Sousa Santos (2010), em sua obra denominada “Um discurso sobre as Ciências”, a ciência dominante constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e desenvolveu-se tendo como base as ciências naturais e, mais tarde, no século XIX, estendeu-se às ciências sociais emergentes, tornando-se um modelo global.

A partir disso, de maneira lúdica, futebolística e inteligente, a trilha assinada por Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, contrapõe a teoria do “Big-Bang” que possui seu reconhecimento e consagração pela ciência dominante, assim como a atribuição à cultura anglo-saxônica a criação do Universo. O contraponto vem a partir da menção aos apontamentos de Nelson Rodrigues (famoso jornalista, escritor, dramaturgo e comentarista esportivo), sobre um dos maiores clássicos do futebol carioca, Flamengo versus Fluminense (carinhosamente conhecido como “Fla-Flu”, denominação batizada pelo jornalista, escritor e cronista esportivo, Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues).

Uma das mais famosas frases formuladas por Nelson Rodrigues a respeito do clássico carioca, possibilita interpretar uma versão diferenciada para o princípio de tudo: “O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim”. “O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada”. “E aí então as multidões despertaram”. Seria essa uma outra teoria cosmológica sobre o desenvolvimento inicial do Universo, tendo um toque brilhante de brasilidade.

Um trecho do espetáculo “Onqotô” é apresentado no Museu Brasileiro do Futebol[2] por meio de uma videoinstalação localizada na sala denominada “Futebol e Outras Artes”. Nessa sala específica do museu, apresenta-se o futebol na cultura brasileira e a sua integração às linguagens artísticas. É exibido para o público visitante como o futebol pode dialogar e ser representado a partir da música, da dança, da literatura, da escultura etc. (COSTA, 2016, p. 288). Dessa maneira, há um espaço dedicado exclusivamente para a relação existente entre futebol e dança, na qual é apresentada a obra do Grupo Corpo.

Reconhecendo o futebol como um fenômeno sociocultural e a suas potencialidades de aprendizado por meio do diálogo com diferentes áreas do conhecimento, dentre elas as Artes, o Grupo de Educadores do Museu Brasileiro do Futebol, através das suas mediações com os visitantes, também realizavam intervenções a partir da Dança.

Museu Brasileiro do Futebol
Visitantes dançando na sala “Futebol e Outras Artes” do Museu Brasileiro do Futebol. Fonte: Foto autoral

Compreende-se a importância de apresentar o futebol na perspectiva da cultura corporal do movimento, ou seja, como conteúdo que deve ser abordado a partir da vivência prática do movimento, como também, refletido, contextualizado e redimensionado (SILVA; CORDEIRO; CAMPOS, 2016). Assim sendo, os Educadores do Museu Brasileiro do Futebol ao contextualizar o espetáculo do Grupo Corpo e a relação existente entre futebol e dança, também provocavam os visitantes a reproduzirem os passos do trecho de “Onqotô” que era mostrado na videoinstalação da sala “Futebol e Outras Artes” (essa dinâmica acontecia principalmente quando os Educadores do Museu atendiam visitantes a partir de um agendamento prévio que, geralmente tratava-se de excursões de colégios do Ensino Básico e Escolas de Futebol).

Em meio a essa dinâmica, ao som da trilha sonora de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, os visitantes também eram provocados a explorar a criatividade, dançando cada um ao seu modo no ritmo da música do espetáculo “Onqotô”. Por vezes, os visitantes incluíam em suas coreografias passos de danças que remetiam a comemorações marcantes no futebol. Os visitantes dançantes do Museu Brasileiro do Futebol chegaram a incluir no seu repertório de passos de dança o histórico “embala neném” do atacante da seleção brasileira de 1994, Bebeto. Também pode ser citado o famoso tango de Carlos Tevez; os remelexos empolgantes do zagueiro colombiano Yerry Mina; os passos da música “Ai Se Eu Te Pego” do cantor e compositor sertanejo Michel Teló (reproduzida na comemoração de gols de jogadores renomados do futebol contemporâneo, como Neymar e Cristiano Ronaldo); e até mesmo a tradicional dança do ex-goleiro congolês Muteba Kidiaba, algoz do Internacional de Porto Alegre no Mundial de Clubes de 2010.

Mina
O zagueiro colombiano comandando a dança dos jogadores do Everton na vitória contra o Brighton pela Premier League de 2020. Fonte: Redes Sociais

Tal dinâmica proporcionada no Museu Brasileiro do Futebol, certamente demonstrava a rica conexão entre futebol e dança e a potencialidade interdisciplinar na produção de conhecimentos que permeia o universo futebolístico. Decerto, a partir da dança é possível desenvolver a capacidade criativa, assim como ampliar os conhecimentos acerca de si mesma, dos outros e do meio em que vive. “Dançando, o corpo desenha formas, conta histórias, denuncia e anuncia, constrói significados, penetra no tempo e no espaço, criando e expandindo-se neles e com eles” (SEEMG, 2005, p.46). Assim sendo, partindo para a conclusão, também pode-se constatar que:

“O futebol é um desses fenômenos que, por sua natureza, são marcados pela complexidade e abrangência com que irrompe em meio a sociedade e à vida, fazendo com que as áreas do conhecimento não fiquem alheias a eles e, principalmente, os percebam como tal”. (CORNELSEN, CAMPOS e SILVA, 2017, p.8)

Notas

[1] Para maiores informações sobre o Grupo Corpo, veja-se: https://grupocorpo.com.br/companhia/

[2] Maiores descrições do Museu Brasileiro do Futebol e de atividades realizadas pelos Educadores desse espaço museal, podem ser encontradas nos seguintes artigos:
FONSECA, Anderton Taynan Rocha. Museu Brasileiro do Futebol: formação humana e profissional a partir de ações didáticas e educativas. Ludopédio, São Paulo, 2021.
FONSECA, Anderton Taynan Rocha. Futebol, Câmera e Ação. Ludopédio, São Paulo, 2021.

Referências Bibliográficas

CORNELSEN, E. L.; CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira; SILVA, Silvio Ricardo da. FUTEBOL, LINGUAGEM, ARTES, CULTURA E LAZER 2 – produção acadêmica sobre futebol. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Jaguatirica, 2017. v. 180. 210p.

COSTA, T. C. A EXPOSIÇÃO DO MUSEU BRASILEIRO DO FUTEBOL: ESCRITA DA HISTÓRIA E CULTURA DO ESPORTE. In: II Simpósio Internacional Futebol, Linguagem, Artes, Cultura e Lazer, 2016, Belo Horizonte. Anais do II Simpósio Internacional Futebol, Linguagem, Artes, Cultura e Lazer.

FONSECA, Anderton Taynan Rocha. MUSEU BRASILEIRO DO FUTEBOL: formação humana e profissional a partir de ações didáticas e educativas. Ludopédio, São Paulo, 2021.

FONSECA, Anderton Taynan Rocha. FUTEBOL, CÂMERA E AÇÃO. Ludopédio, São Paulo, 2021.

SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS. CURRÍCULO BÁSICO COMUM – EDUCAÇÃO FÍSICA. Educação Básica – Ensino Fundamental e Médio, 2005.

SANTOS, Boaventura de Sousa. UM DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS. 16. ed. Porto: B. Sousa Santos e Edições Afrontamento, 2010. 59p.

SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. POR QUE ENSINAR FUTEBOL PARA ALÉM DA BOLA ROLANDO? In: SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. (Orgs.). O Ensino do Futebol: para além da bola rolando. I ed. Rio de Janeiro. Jaguatirica, 2016.

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Anderton Taynan Rocha Fonseca

Licenciado em Educação Física pela Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (2017). Foi membro do Programa Rede de Museus e espaços de ciência e cultura da UFMG, vinculado ao Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer, no período de 2015 a 2017. Foi integrante do Programa Educativo do Museu Brasileiro do Futebol de 2017 a 2019. Atua como professor da educação básica na Rede Estadual de Educação de Minas Gerais. Integrante do grupo de pesquisa FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes. Mestrando do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da UFMG.

Stephanie de Oliveira Souza

Pedagoga, especializada em Alfabetização e Letramentos e Psicopedagogia Clínica e Institucional, as três formações pela UEMG, e mestranda no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer pela EEFFTO/UFMG. É fã de música, cultura Geek, literatura, linguagens e gatos.

Como citar

FONSECA, Anderton Taynan Rocha; SOUZA, Stephanie de Oliveira. Dança no Museu Brasileiro do Futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 32, 2021.
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