157.4

De Neruda para o Imperador… Alguns poemas de amor

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 4 de julho de 2022

Que dirão de minha poesia os que não tocaram meu sangue?

(Pablo Neruda – “Livro das perguntas”)

 

Para esta crônica escalamos o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) para declararmos nosso amor ao grande Imperador rubro-negro Adriano (1982). Na sua vasta obra, Neruda tem vários livros dedicados a cantar o amor em forma de poema. Hoje, vamos conhecer fragmentos deles enquanto narramos a trajetória de Adriano no Flamengo.

O poeta chileno nasceu com o nome Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto e, mais tarde, criou o pseudônimo[1] Pablo Neruda, que passou a ser também seu nome civil. “Há algo mais tolo na vida que chamar-se Pablo Neruda?” (NERUDA, “Livro das perguntas”). O jogador rubro-negro nasceu com o nome de Adriano Leite Ribeiro e durante uma temporada avassaladora, entre os anos de 2003 e 2004, atuando pela Inter de Milão no futebol italiano, foi proclamado “imperador”. “Onde está o menino que fui, segue dentro de mim ou se foi?” (NERUDA, “Livro das perguntas”).

As semelhanças entre eles não param por aí. Neruda não chegou a ser imperador, mas foi eleito Senador no Chile por um mandato (1945-1948), pelo Partido Comunista. No mesmo ano em que foi eleito, Neruda veio a São Paulo para uma homenagem ao líder político João Carlos Prestes, e neste dia Pablo leu para um Pacaembu com mais de 100 mil espectadores. Adriano, por sua vez, não chegou a ser poeta, mas fez um sem-fim de poemas com a bola nos pés. Para nós flamenguistas, os mais bonitos foram os “versos e rimas” que compôs com Petkovic na conquista do brasileirão de 2009[2]. “É sem dúvida estrelado tudo que te devo, o que te devo é como um poço de uma zona silvestre onde guardou o tempo relâmpagos errantes” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”).

Neruda começou precoce sua carreira de poeta, com apenas 13 anos. Sua escrita é composta por uma rica variedade de estilos: desde poemas de amor acalorados, poesia surrealista, até escritos e manifestos políticos. Com apenas 17 anos, iniciou seus estudos na Universidade do Chile – sua universidade Alma Mater. Em 1965, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade britânica de Oxford. Em outubro de 1971, a consagração: Pablo Neruda é condecorado com o Prêmio Nobel de Literatura. Por conta das comemorações do centenário de seu nascimento, em 2004, foi instituído o “Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda”.

Adriano também inicia sua carreira de jogador com pouca idade. Aos 9 anos, ingressa nas categorias de base do futsal do Flamengo e na sequência vai para o futebol de campo. Estreou no profissional do Flamengo no ano de 1999 e até sua saída, em 2001, conquistou dois campeonatos cariocas (2000-2001) e a Supercopa dos campeões de 2001. “Meu amor tem duas vidas para amar-te. Por isso te amo quando não te amo e por isso te amo quando te amo” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”). No entanto, sua habilidade com a pelota o levou rapidamente para a Europa, ainda em 2001, Adriano é vendido para a Inter de Milão. Antes de se firmar em 2004, no clube milanês, Adriano foi emprestado a Fiorentina e ao Parma. No exterior, seu grande clube foi a Internazionalle, onde conquistou quatro títulos nacionais: duas Supercopa italiana e duas Copa Itália. Em 2006, em decorrência da morte de seu pai, Didico (apelido de família) vê sua carreira declinar. Tristeza, depressão e envolvimento com álcool vão dando os tons de “uma canção desesperada” à vida do imperador. “Tentou soníferos verdes e álcoois extravagantes, nadou em espuma de cerveja, recorreu a médicos, leu farmacopeias e almanaques, escolheu o amor a essa hora, porém tudo resultou inútil…” (NERUDA, “O coração amarelo”).

Adriano Imperador
Fonte: Wikipédia

Além de poeta, Neruda foi um grande intelectual da política e sempre se mostrou comprometido com questões sociais e humanitárias do Chile – e da América Latina. Participou ativamente do Partido Comunista e teve que ser exilado várias vezes por perseguições políticas. Em 1970, desiste de sua candidatura à presidência chilena para apoiar Salvador Allende, que venceu as eleições naquele ano. Em 11 de setembro de 1973, Allende sofre um golpe de Estado encabeçado pelo general Augusto Pinochet. Dias depois, em 23 de setembro, Neruda vem a óbito. A causa ninguém sabe ao certo, alguns dizem que foi de tristeza, outros alegam que foi em decorrência de seu câncer na próstata. Depois do golpe, Pinochet mandou saquear a casa de Pablo (La Chascona[3]), na capital chilena Santiago, e ordena que queimem seus livros. “Nesse instante terminaram os livros, a amizade, os tesouros sem trégua acumulados, a casa transparente que tu e eu construímos: tudo deixou de ser, menos teus olhos” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”).

Em 2008, Adriano volta ao Brasil tentando recuperar o desejo de jogar futebol, fica seis meses no São Paulo e retorna de empréstimo novamente para a Itália. No entanto, mesmo melhor, o imperador não consegue repetir sua boa fase no time de Milão. Em maio de 2009, Didico decide voltar ao Flamengo, seu amor de infância “E fui como um ferido pelas ruas até que compreendi que havia encontrado amor, meu território de beijos e vulcões” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”). Após 8 anos, Adriano retorna à Gávea para vestir a 10 de Zico “Quero fazer contigo, o que a primavera faz com as cerejas” (NERUDA, “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”).

Na quarta rodada do campeonato, o Imperador estreia contra o Atlético Paranaense e faz um dos gols da vitória (2×1). “O certo é que tremeu a noite pavorosa, a aurora encheu todas as taças com seu vinho e o sol estabeleceu sua presença celeste” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”). Pela sétima rodada, o Flamengo bate o invicto Internacional com uma goleada de “4×0”. Adriano faz 3, um deles de falta, lembrando o lendário Galinho. Também com gol de Adriano, o Flamengo vence o Botafogo no reencontro depois do tri carioca vencido em cima do rival naquele ano. “Passam por mim seus corações bêbados de vinho e de sonhar. Sou uma ponte imóvel entre o coração e a eternidade” (NERUDA, “Crepusculário”).

Na décima primeira rodada do primeiro turno, o Fla empata em casa por “1×1” contra o Barueri e a torcida canta o adeus do técnico Cuca. No jogo seguinte, sob a batuta do técnico e ídolo Andrade, o Fla vence o Santos em plena Vila Belmiro. “Recordarás talvez aquele homem afilado que da escuridão saiu com uma faca e, antes de que soubéssemos, sabia: viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”).

No segundo turno, Adriano e Pet crescem. Adriano desembesta a fazer gol e vai se firmando como artilheiro do campeonato. Pet brinca de fazer gols olímpicos, um contra o Palmeiras (0x2 Fla) e outro contra o Atlético Mineiro (1×3 Fla). O Flamengo pula para a terceira colocação a quatro rodadas do final e entra na briga pelo título. “Sou eu, meu amor, quem golpeia a tua porta” (NERUDA, “Dos versos do capitão”). Na penúltima rodada, após vencer o Corinthians por “2×0” o Flamengo assume pela primeira vez a liderança do campeonato. “Tudo era dos outros e de ninguém, até que tua beleza e tua pobreza de dádivas encheram o outono” (NERUDA, “Cem sonetos de amor”).

Em jogo dramático, na última rodada o Flamengo vence o Grêmio de virada por “2×1” e se consagra hexacampeão brasileiro. O imperador chora diante de 85 mil súditos no Maracanã. “Sucedeu neste mês e nesta pátria. Foi tão inesperado o que aconteceu, mas assim foi: de um dia ao outro dia aquele país se encheu de cerejas” (NERUDA, “Geografia infrutuosa”).

Em 2010, após fundar o “Império do Amor” com o atacante Wagner Love, Adriano se despede do Flamengo de modo conturbado. Ainda tenta voltar e jogar outras duas vezes pelo clube, mas sem muito brilhantismo. Em 2011, ele chega a ganhar um título brasileiro pelo Corinthians. Atualmente, o imperador está aposentado das “quatro linhas” e vive declarando seu amor pelo Flamengo em suas aparições públicas e redes sociais.

Pablito é rei da poesia, um intelectual de esquerda. Aqui um intervalo para um litígio: “Existe intelectuais de direita?” “Percebeste que o outono é como uma vaca amarela?” (NERUDA, “Livro das perguntas”). Neruda foi amigo de Vinícius de Moraes, um declarado botafoguense. Acho que por vergonha, Vinícius nunca levou Neruda ao estádio para ver o Botafogo. “Se Pablo Neruda tivesse ido ao Maraca em dia de jogos do Flamengo, seus poemas seriam ainda melhores” (ZOBOLI e CORREIA, “Livro das respostas”).

Notas

[1] Os pseudônimos são nomes “fictícios” adotados por autores para assinar obras sem fazer uso dos seus nomes civis. A função dos pseudônimos é a de preservar a identidade do autor ou até mesmo para “fazer charme”. Importante mencionar que esse recurso não é restrito e exclusivo do mercado editorial. Também são utilizados por jornalistas com a finalidade de preservar a identidade e a segurança de suas fontes na produção de reportagens.

[2] Em 2009, além do título de campeão brasileiro, Adriano também foi artilheiro da competição juntamente com Diego Tardelli, com 19 gols cada.

[3] No ano de 1953, Neruda constrói uma casa em Santiago para se encontrar com sua amante Matilde. Essa casa foi apelidada de La Chascona. Matilde foi uma das esposas de Neruda, a ela ele dedicou a obra “Os Versos do Capitão” – um lindo livro de poesias de amor.

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Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. De Neruda para o Imperador… Alguns poemas de amor. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 4, 2022.
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