89.9

Deixa a menina jogar

Laura Andrade 21 de novembro de 2016

A cara do futebol feminino mostra-se quando, no vão da sorte, este é capaz de impressionar mais que o masculino, infelizmente. E que os Jogos Olímpicos não me deixem mentir! Uma cara, por vezes sofrida, de muitos anos de reclusão midiática e que hoje ganha alguma visibilidade pelo árduo trabalho feminista de empoderar.

Vendo esse estigma, enfim, cair, aos poucos, por terra, decidi visitar uma escola estadual da cidade onde moro para ver o que as crianças pensam sobre isso. Lá observei algumas aulas, recreios, vivências e por fim, conversei com algumas alunas entre 8 e 10 anos sobre o que elas pensavam especificamente sobre o futebol. Perguntei se estas gostavam de futebol e o que achavam daquelas que jogavam.

De forma nada surpreendente, boa parte delas disse gostar sim de futebol e que inclusive jogava na Educação Física ou em casa com os irmãos mais velhos. Para elas, jogar futebol não é nada mais que divertido – assim como qualquer coisa deveria ser. Uma delas disse singelamente: “Ah, prof, eu até gosto de jogar futebol, mas teve uma vez que eu levei uma bolada na cara e outra vez me derrubaram. Eu gosto mais de jogar vôlei por isso.” Argumentei com ela dizendo que isso acontece e que com o tempo ela iria aprender a desviar dos chutes. Abriu-se um sorriso.

Perguntei também se elas tinham amigas que jogavam futebol. As respostas foram animadamente jogadas no ar em uma espécie de disputa. “Eu tenho duas!” “Eu tenho 4” “Eu tenho 6” … E por mais que eu suspeitasse do alto número, desejei que este fosse realmente a quantidade de meninas que jogam futebol e que este número fosse tão real quanto a animação delas.

05/08/2016- Rio de Janeiro- RJ, Brasil- Treino da seleção feminina de futebol no Centro de Futebol Zico. Foto: Ricardo Stuckert/ CBF
Treino de futebol feminino. Foto: Ricardo Stuckert/ CBF.

Surgiram histórias também: “Prof! Eu jogo com os meus irmãos, mas eles não passam a bola. Aí eu jogo no gol!”, “Prof! Eu já fiz um gol com a cabeça!” e “Prof! Eu jogo com a Maria na Educação Física e semana passada o nosso time ganhou do time do João”. E assim elas iam, contando histórias e vontades. Contaram também que a Educação Física da escola permite que elas joguem sem maiores questionamentos e que muitas vezes é o único espaço disponível para isso já que a disputa pela rua com os carros e pedestres é bastante injusta. E nesse momento torna-se impossível sustentar a ideia de que medidas como as que correm pelo país tenham vez. Como admitir a ideia de que a educação é supérflua a ponto de sofrer cortes de investimento? No entanto, não entro aqui em discussões políticas, apenas questiono o fato de que, com essas mudanças, talvez as crianças do futuro não sejam como estas que felizes na minha frente contam sobre as experiências futebolísticas que tiveram.

Por fim, perguntei o que elas achavam de meninas jogando futebol, dessa vez direcionando a pergunta a cada uma delas. A primeira que obtive foi de cara a que mais me impressionou: “Quem gosta de jogar futebol pode jogar futebol. Não precisa ser menina ou menino. Todo mundo pode, prof!”. E pode! E deveria ter a chance de continuar fazendo o que gosta e, como disse a próxima menina que eu perguntei, “porque se tu não fazes o que gostas, não é feliz!” E como faltam pessoas fazendo o que gostam, não é?

Dessa forma, recito Fernando Pessoa: “O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete qualidades. Sem elas os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles”. E não seria para elas o futebol um símbolo sem significado algum se as experiências tivessem sido outras? Não seriam elas para o futebol completas estranhas, destinadas a outras ações que não as de jogadoras, caso o pensamento sexista ainda em vigor em alguns lugares e mentes vigorasse sobre elas? E entristece-me dizer que muito provavelmente sim. Por isso, deixo aqui um grito que ouvi de uma professora nos corredores dessa escola: “Deixa a menina jogar!”.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Laura Andrade

Estudante de Educação Física.

Como citar

ANDRADE, Laura. Deixa a menina jogar. Ludopédio, São Paulo, v. 89, n. 9, 2016.
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