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Deixem o Cleber em paz

Leandro Marçal 24 de setembro de 2020

Volta e meia, o nome do Cleber Machado vai parar entre os assuntos mais comentados do Twitter. Como o engajamento nas redes sociais é movido muito mais por ódio e xingamentos do que por elogios, quando isso acontece eu já sei que há muitas pessoas com tempo livre para falar mal do narrador.

Segundo um perfil de tuiteiro, ninguém na TV Globo percebeu que ele está há 30 anos entre as principais vozes da maior emissora do Brasil por mero acaso. Gênio mesmo é o @DesconhecidoDeAlmeida, capaz de desmascarar a suposta falta de talento de Cleber.

Como veterano e um dos fundadores do fã clube do Clebão, como é chamado pelos mais íntimos, preciso deixar clara minha nota de repúdio ao ódio gratuito contra um dos profissionais mais carismáticos da imprensa esportiva. Por sinal, caro tuiteiro, o nome de Cleber, o Machado, é escrito sem acento. Ninguém gosta de ver a própria alcunha digitada ou escrita manualmente com erros de grafia.

Existe uma sociedade secreta derivada do fã clube mundialmente conhecido. Os Cleber Machader usam esse estranho nome para se identificar em mensagens privadas para compartilhar grandes momentos da narração esportiva, protagonizados pelo titular da TV Globo no estado de São Paulo. Evidentemente, esse sofisticado grupo é de extremo bom gosto e só aceita integrantes qualificados, bons apreciadores das narrações e reações tão humanas do Cleber.

Porque precisa ser muito humano, mesmo, para errar e logo em seguida consertar o erro, admitindo a falha no meio de uma transmissão ao vivo para milhões de telespectadores. Não é para qualquer um. Admita: qual foi a última vez que você reconheceu um equívoco, sei lá, para cinco ou seis pessoas? Por muito menos, eu já me fiz de desentendido e você já fez malabarismos para manter o emprego e o casamento, não é? Eu sei, eu sei.

Foto: Reprodução / Twitter

O Cleber, não. Não bastasse o inesquecível “Hoje Sim”, aparentemente incorporado como bordão nas narrações e nome do seu podcast, ele ainda proporcionou momentos como o “ih rapaz, que loucura”, se irritou por uma falha técnica antes do salto do Jadel Gregório e imortalizou o “olha o Romarinhooooo”. O próprio Cleber já confessou que estava distraído, olhando para uns papéis usados na transmissão, até ser alertado pelo Caio Ribeiro do ataque corintiano em plena Bombonera.

Ele também teve seus momentos confusos, como as frases destacadas nos tempos do CQC. Bem, Cleber tem lá sua parcela de responsabilidade por incontáveis momentos de entretenimento. Acontece. Não estamos num bom dia sempre, natural. Por isso, Cleber é o mais humano dos narradores.

É sempre um grande momento vê-lo separando sílabas para destacar lances agudos ou emendando um “proooo goooooollll….”, talvez inspirado no Oscar Ulisses, companheiro do tão falado hamburguer de segunda-feira com o saudoso Rodrigo Rodrigues.

Sugiro aos revoltados do Twitter que mandem envelopes com o currículo para a Globo e, por que não?, gravações provando ter mais talento que o Cleber. Ninguém fica 30 anos numa posição de destaque assim, à toa. Nesses tempos de negacionismo científico, é bom recordar que a Terra gira em torno do Sol, não de tuiteiros revoltados.

Deixem o Cleber trabalhar em paz, rendendo grandes momentos tanto na emoção quanto no riso. Cleber, o humano, o imperfeito, é gente como a gente.


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Leandro Marçal Pereira

Escritor, careca e ansioso. Olha o futebol de fora das quadras e campos. Autor de dois livros: De Letra - O Futebol é só um Detalhe, crônicas com o esporte como pano de fundo publicado (Selo drible de letra); No caminho do nada, um romance sobre a busca de identidade (Kazuá). Dono do blog Tirei da Gaveta.

Como citar

MARçAL, Leandro. Deixem o Cleber em paz. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 54, 2020.
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