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Democracia Corinthiana: ação direta, autogestão e produção de subjetividades

André Rocha Rodrigues 17 de junho de 2022

A Democracia Corinthiana foi e continua sendo objeto de estudo de inúmeras pesquisadoras e pesquisadores[1]. E isso é plenamente justificável, pois um acontecimento histórico de tamanha magnitude torna-se inesgotável, inclusive em função de novas metáforas, interpretações e simbolizações que o evento permite. Nesse sentido, proponho aqui um exercício de pensar a Democracia Corinthiana não como um movimento, mas como um exemplo concreto de ação direta, autogestão, inspiração e sugestão de novas possibilidades.

Como é sabido, o movimento Democracia Corinthiana ocorreu no início da década de 1980 no interior do clube Sport Club Corinthians Paulista. Neste período, o Corinthians passou a ser gerido de uma forma revolucionária. Decisões importantes no dia a dia do clube, como contratações, escalações, treinos, concentrações e regras internas eram decididas em conjunto. Todos os votos tinham o mesmo peso, do roupeiro ao técnico da equipe.

Democracia Corinthiana
Foto: Trecho do filme “Democracia em Preto e Branco”/Reprodução

Algo interessante a notar para interpretar e pensar o evento é que o nome “Democracia Corinthiana” foi forjado pelo publicitário Washington Olivetto e não pelos integrantes do clube. Olivetto também criou a identidade visual do nome, inspirado na logomarca da Coca-Cola que foi estampada na camisa do time em algumas partidas, assim como as frases “diretas-já” e “eu quero votar para presidente”.

É notável que o nome fora atribuído por alguém externo, pois demonstra como a experiência de autogestão foi enquadrada dentro de um contexto histórico e, consequentemente, associada a uma perspectiva política específica a princípio por terceiros, não pelos participantes diretos. Em um contexto de ditadura militar e movimentos por “Diretas Já”, a Democracia Corinthiana logo teve a luta pelo fim da ditadura militar no Brasil e a volta do direito ao voto para presidente (o que não acontecia desde a década de 1960), como uma das principais bandeiras.

Entretanto, como salientam Deleuze e Guatarri (2015) ao refletirem sobre os eventos de maio de 1968 na França, há algo de irredutível aos determinismos sociais nos fenômenos históricos. Estes não são apenas sucessão de instabilidades e de flutuações amplificadas, mas produtores de subjetividades no presente. Ou seja, a Democracia Corinthiana não foi a consequência de um contexto de ditadura militar, mas foi significada por ele. Dessa forma, por um momento, sugiro que deixemos de lado as restaurações de causalidades de forma retrospectiva e olhemos para um aspecto irredutível do fenômeno: a crise atual e a consequente necessidade de ação direta.

O antropólogo anarquista David Graeber (2015) define ação direta como a ação e resolução de conflitos e problemas sem solicitar ajuda ou autorização do Estado, governo ou setor privado. Uma ação feita por atores sociais sem mediação, de forma horizontal e autônoma para tratar diretamente daquilo que os envolve. A ação direta está ligada a um princípio libertário segundo o qual o cidadão deve atuar de forma prática para aprimorar a sociedade.

Este princípio libertário concorda com o colocado por Errico Malatesta (2002) quando afirma “nós, anarquistas, não queremos emancipar o povo, queremos que o povo se emancipe”. Princípio que ressoa com a construção da imagem de “time do povo”, sem hierarquias, que se emancipa, tão exaltada por corinthianos, além de encontrar coerência com as ideias anarco-humanistas de alguns que estavam presentes na fundação do clube.

No filme documentário “Libertários”, o diretor Lauro Escorel utiliza fotografias, recortes de jornais, músicas e filmes do começo do século XX para analisar a influência do movimento anarquista na formação de uma consciência de classe entre os primeiros operários brasileiros, em São Paulo, e na realização das primeiras greves para reivindicar melhores condições de trabalho. Neste filme, aos 25 minutos e 37 segundos nota-se uma bandeira do Corinthians em meio às manifestações dos operários paulistas.

A princípio, muitos intelectuais anarquistas do começo do século pensavam o futebol como elemento de alienação. Entretanto, incentivavam qualquer ação que gerasse protagonismo dos trabalhadores, mesmo na área do esporte. Nesse sentido, vale a pena ressaltar os jogadores como trabalhadores e pensar o movimento da Democracia Corinthiana como um movimento que envolvia todos os trabalhadores do clube em práticas de ação direta e autogestão.

Significada pelo contexto da ditadura militar e utilizada por um publicitário, a Democracia Corinthiana facilmente foi e é associada a uma visão específica de política liberal. Contudo, ao olharmos para o irredutível do fenômeno histórico notamos que, assim como maio de 68, a Democracia Corinthiana “não ocorreu” (Deleuze e Guatarri 2015), mas foi um acontecimento que cria ainda hoje uma nova existência e produz uma nova subjetividade. Quero dizer com isso que a Democracia Corinthiana não foi apenas e simplesmente a consequência da ditadura militar, efeito de uma crise, nem a reação a ela.  Ela foi enquadrada e majoritariamente significada pela ditadura. Contudo, a Democracia Corinthiana continua a produzir uma subjetividade que aponta para um horizonte de expectativas crescentes. Ela serve de inspiração para pensar a crise atual. A famigerada crise de representatividade da democracia liberal.

A palavra democracia foi capturada por um universo semântico liberal que faz com que toda vez que ela apareça rapidamente seja remetida a um contexto de formação de estados burgueses europeus. Contudo, como mostram David Graeber e David Wengrow (2021) a forma de organização democrática, horizontal e de resolução de problemas em assembleias coletivas estava presente em grupos humanos anteriores às revoluções burguesas europeias e ainda hoje está presente em grupos humanos extra modernos.

Com isso, é possível pensar na Democracia Corinthiana como um acontecimento, uma experiência de ação direta que produz em nós a necessidade de avaliação e análise das respostas colocadas e oferecidas no assim chamado “campo do possível” da representação. Produz a necessidade de construir ações democráticas idealizadas em

um mundo baseado na igualdade e na solidariedade, no qual os seres humanos seriam livres para se associar entre si a fim de buscar uma infindável variedade de sonhos, projetos e concepções daquilo que considerem valioso na vida. (GRAEBER, 2015, p. 188).

Assim, temos a construção de uma democracia além das instituições que possuem o Estado como detentor e centralizador destas instituições, pois somente por meio da atuação direta dos governados, tal como foi a Democracia Corinthiana, pode haver um “governo do povo”, ou seja, um autogoverno, uma autogestão que permita a livre associação para gerir o próprio trabalho e todas as demais questões do grupo em comunas livres, sem patrão, Estado, ou qualquer forma de opressão.

Tentei esboçar aqui um rascunho de um pensamento sobre como podemos olhar para a Democracia Corinthiana não somente como um evento histórico localizado, congelado no tempo e atrelado a uma cadeia causal de significações elaboradas a posteriori. O esforço foi no sentido de pensar não apenas como algo que ocorreu e ficou no passado, mas olhar para os irredutíveis do acontecimento, qual sejam, a produção de subjetividades da Democracia Corinthiana que apontam para possibilidades inspiradas na autogestão como resposta à crise atual das democracias liberais.

Notas

[1] Aqui mesmo no Ludopédio há um vasto material sobre o tema, basta digitar o termo “Democracia Corinthiana” na busca interna do site.

Bibliografia citada

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Maio de 68 não ocorreu. Revista Trágica, v. 8, n. 1, pp. 118-121, 2015.

GRAEBER, David. Um projeto de democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2015.

GRAEBER, D. & WENGROW, D. The Dawn of Everything: a new history of humanity. London: Allen Lane, 2021.

MALATESTA, Errico. A organização das massas operárias contra o governo e os patrões.  In:  Luta Libertária (org.). Errico Malatesta e Luigi Fabbri: Anarco comunismo italiano. São Paulo: Coletivo Editorial LL, 2002.

 

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André Rocha

Antropólogo e corintiano. Pesquisa apropriações de espaços, mobilidades urbanas, gênero e sexualidade. Integra o LELuS (UFSCar) e o GEPAC (UNESP).

Como citar

RODRIGUES, André Rocha. Democracia Corinthiana: ação direta, autogestão e produção de subjetividades. Ludopédio, São Paulo, v. 156, n. 19, 2022.
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