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Democracia Fútbol Club

Roberto Jardim 20 de julho de 2019

De clubes politicamente engajados quase todo mundo já ouviu falar de algum. Afinal, o alemão FC Sankt Pauli, de Hamburgo, é conhecido no mundo por ter um estatuto no qual se autodefine uma agremiação antinazista, antifascista, antirracista e anti-homofóbica. Enfim, um quadro aberto a todos, menos aos preconceituosos e antidemocratas.

Além da equipe que, em 2018, disputava a segunda divisão alemã, também é conhecida a história do Defensor Sporting Club, de Montevidéu. Isso porque o time teve a empáfia de conquistar um título nacional em plena ditadura, criando a volta olímpica ao contrário como forma de protesto. O gesto é até hoje cantado pela torcida, que declara seu clube como o único antissistema do futebol charrua.

Sem esquecer o único time proletário do futebol mundial a conquistar uma competição continental. No início dos anos 80, o IFK Göteberg, comandado por Sven-Goran Eriksson, tinha um estilo de jogo vistoso e um quadro formado praticamente por trabalhadores braçais, muitos deles engajados politicamente. Com uma estrutura quase amadora, a equipe levantou a Copa da Uefa (hoje transformada em Liga Europa, segunda competição interclubes mais importante da Europa), em 1982.

É possível um time engajado?

Os exemplos acima são relevantes, mas resulta pertinente indagar: seria possível formar uma equipe, do 1 ao 11, toda com os jogadores politicamente engajados? Pelo menos por aqueles que defendem a democracia, a liberdade e são contra preconceitos e injustiças? E ainda com um técnico na mesma linha?

Dificilmente seria possível encontrar um time de tal caráter nos tempos atuais. Afinal, contratos de marketing praticamente tornaram o futebol acéfalo, politicamente falando – isso porque os poderosos que determinam a “neutralidade” não a veem como um gesto político, também. Hoje, os boleiros só se manifestam sobre o futebol ou sobre seus patrocinadores, deixando de lado qualquer tema que possa criar polêmica para quem lhes sustenta, salvo raríssimas exceções, claro.

Então, na história, seria possível encontrar 11 titulares para um time com um sugestivo nome de Democracia Fútbol Club?

Foi buscando nomes para um escrete assim que, em 2016, apareceram, numa primeira pesquisa, cinco ou seis jogadores. E não saía disso. Não daria nem para montar um quadro de futsal, já que nem goleiro havia sido encontrado.

O nome do escritor franco-argelino Albert Camus chegou a ser cogitado para a posição, já que na infância e na adolescência havia vestido a camisa 1. Aliás, falando de futebol, ele cunhou uma das frases que resume um pouco o motivo pelo qual o jogo da bola revela muito como são os serres humanos nas suas vidas:

“O que, finalmente, eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol”.

Para não ficar nesses poucos, quase dois anos de investigação tornaram-se necessários. Foram assistidas dezenas de documentários – Les Rebelles du Foot, apresentado pelo francês Éric Cantona, é uma obra imprescindível nesse sentido –, lidos outros tantos livros – Futebol à Esquerda, do espanhol Quique Peinado, também é basilar. Além de um punhado de entrevistas por telefone, e-mail, WhatsApp e outros meios que a tecnologia nos disponibiliza hoje em dia.

Nesse período foi possível descobrir que um dos pioneiros na luta pela dignidade foi o austríaco Matthias Sindelar. Considerado craque da bola, era chamado de Der Papiermann, o Homem de Papel, pela leveza e rapidez com que jogava. Era a estrela do Wunderteam, o Time Maravilha, como era conhecida a seleção da Áustria dos anos 30. Em 1938, entretanto, o país foi anexado pela Alemanha nazista, e Sindelar chegou a ser chamado para reforçar o escrete alemão.

Porém, encontrou um jeito de não jogar pela equipe nazista. Isso porque era abertamente contrário às ideias de Hitler e à ocupação do território da nação na qual vivia. Contam os historiadores que o ato mais rebelde contra os nazistas aconteceu no amistoso que marcou o fim da seleção austríaca. Justamente contra o selecionado alemão.

O resultado da partida teria sido combinado, antes de a bola rolar, para acabar em empate. Superior no plano técnico, o Wunderteam dominava o jogo, mas não chutava a gol por conta do tal acordo. Vinte minutos antes do fim da partida, Sindelar colocou a bola na rede e comemorou muito em frente a oficiais do alto escalão nazista. Por ser conhecido, o craque não sofreu retaliações.

Assim como ele, outros tantos jogadores levantaram a cabeça ante a falta de liberdade, as más condições de trabalho ou de vida em seus países. Outras vezes alçaram a voz contra preconceitos e injustiças.

Foram nomes como o lendário meia-atacante francês Raymond Kopaszeski, o Kopa, Bola de Ouro de 1958. Em 1963, ele aderiu a um movimento que reivindicava melhorias trabalhistas para os boleiros gauleses. “Os jogadores de futebol são escravos. Em pleno século 20, o jogador profissional é o único ser humano que pode ser vendido e comprado sem que se peça sua opinião”, exagerou em texto publicado no semanário France Dimanche, em 4 de julho daquele ano.

Ou, então, como os inúmeros espanhóis que encararam a ditadura do generalíssimo Francisco Franco defendendo a identidade basca, catalã ou até mesmo a República e a liberdade, como, por exemplo, Sergio Manzanera e Aitor Aguirre, do Racing Santander, e Josean de la Hoz Hungara, do Real Sociedad.

Ou, então, Manuel Fernández Fernández, o Pahiño, que passou por Celta de Vigo, Real Madrid, La Coruña e Granada, e é conhecido como o jogador que ria do franquismo. Conta Peinado em Futebol à Esquerda: antes de um amistoso entre Espanha e Suíça, em 1948, um oficial franquista entrou no vestiário e pediu a Pahiño “colhões e espanholismo”. Ao que o jogador gargalhou. De incredulidade e zombaria. Era seu primeiro jogo pela Fúria – e seria o único pelos próximos sete anos. Marcou um gol. Faria outros dois na única outra partida que disputou, depois de ser “perdoado”. Suas atuações, contudo, aos olhos dos verdugos da ditadura espanhola, eram superadas por suas gargalhadas.

Também poderia se recordar aqui o brasileiro Fernando Antunes Coimbra, o Nando, irmão de Zico, Edu e Antunes e, assim como eles, craque da bola. Só que Nando ia além, no entanto. Estudante de Filosofia, aos 18 anos ele teve a “audácia” de fazer parte, ao lado da irmã Zezé, do Plano Nacional de Alfabetização, sob coordenação do educador Paulo Freire, em 1963. Com o golpe militar, no ano seguinte, por ter participado dessa empreitada “revolucionária”, Nando foi considerado subversivo e teve de deixar os gramados após ser escanteado por times no Brasil e em Portugal, país que também vivia sob ditadura. Na volta ao Rio, chegou a ser preso e passar dois dias e duas noites em pé, com os braços erguidos e com um mosquetão apontado para as costas.

O grupo ainda poderia ter como técnico o escocês Alex Ferguson, apontado como maior doador privado do Labour Party, o partido trabalhista britânico. Também poderia estar no banco o brasileiro João Saldanha, o João Sem Medo. Comunista e jornalista, ele foi o responsável pela montagem da Seleção Brasileira que foi ao México, em 1970, conquistar o tri. Por seu posicionamento político e, principalmente, por não ter papas na língua, acabou substituído por Zagallo.

Vale notar, ainda, que não entraram os nomes que integraram, recentemente, o movimento Bom Senso Futebol Clube, criado em 2013, por 75 jogadores que atuavam no Brasil. Isso porque a ideia do BSFC era criar um grande acordo entre jogadores e clubes, o que, finalmente, se converteria quase numa concessão ao poder dos cartolas. Além disso, o Bom Senso terminou sem grandes conquistas para os boleiros e com alguns de seus líderes “exportados” para o futebol chinês numa espécie de “para-te quieto”.

Quem está no time?

E, afinal, quem são os 11 selecionados? Bom, como qualquer lista, haverá certamente nomes que não agradam a algum leitor. Ou quem, aos olhos de quem lê este livro, ainda falte no selecionado. Alguém também pode perguntar qual foi o critério ou por que não entraram jogadores de outras correntes políticas não à esquerda ou de outras nacionalidades?

É importante frisar que os poucos boleiros de direita encontrados na pesquisa eram defensores declarados do fascismo, como o italiano Paolo di Canio, que comemorava seus gols pelo conservador Lazio com a tradicional saudação fascista. Por serem pouco afeitos à democracia, não haveria razão para convocá-los.

Além disso, o time foi escalado em um formato bastante avançado, uma das primeiras estruturas táticas do futebol, o 2–3–5, no formato que ficou conhecido também como WM, criado pelo britânico Herbert Chapman, técnico do Arsenal nos anos 30, e usado pela seleção da Inglaterra na Copa do Mundo de 1950.

Então, entre os “contratados” para o Democracia Fútbol Club estão nomes como o ex-goleiro argentino Claudio Tamburrini, um dos poucos sequestrados pela ditadura de seu país que conseguiu fugir para contar os horrores dos centros clandestinos de tortura. Ou o zagueiro uruguaio Agustín Lucas, que até 2017 dividia o tempo entre as partidas nas séries menores do futebol charrua e as lides de escritor e ativista.

Claro, há histórias mais conhecidas, como as dos brasileiros Afonsinho, Sócrates e Reinaldo, ou a do chileno Carlos Caszely, que recusou apertar a mão do general Augusto Pinochet, logo após o golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile, em 1973.

O critério para a escolha foi equivalente ao de treinadores e/ou dirigentes dignos, preferências “técnicas” . No caso aqui,  o engajamento, social ou humano. Claro que a qualidade com a bola no pé e a simpatia pela história do perfilado entraram na conta da escolha final. Além da possibilidade de entrevistas ou da quantidade e qualidade de material disponível para pesquisa.

Antes de partirmos para a apresentação do time, vale acrescentar que ao final da escalação, após o perfil do técnico deste escrete, estão quatro reportagens publicadas anteriormente na internet e, duas delas, no livro cartonero Além das Quatro Linhas (Vento Norte Cartonero). Por ligarem futebol, política e história, achamos conveniente publicá-los aqui também, como uma espécie de acréscimos ao final da partida.


Conheça nas próximas semanas os perfis do Democracia Fútbol Club.

1 — O goleiro que driblou Jorge Videla

Confira a história do camisa 1 argentino que deu uma gambeta na ditadura do seu país.

2 — O zagueiro intelectual

Nosso camisa 2, que, além de ativista, escreve poemas, contos e crônicas.

3 — Um campeão contra o racismo

É o mais vitorioso em campo, com título até de Copa do Mundo. Mesmo assim, não deixou de lutar jamais.

4 — O volante que encarou os verdugos

O uruguaio que encarou duas ditaduras e ajudou um cuadro chico a ser campeão nacional.

5 — O primeiro homem livre no futebol

Pelé, o rei do futebol disse, em 1972: “Homem livre no futebol, só conheço um, Afonsinho”.

6 — El jefe da primeira greve

Outro volante uruguaio bom de luta. Comandou a primeira greve de boleiros da história do futebol e ainda levou seu país a conquistar o mundo no Maracanazo.

7 — O artilheiro da dignidade

O gol mais importante da carreira do Rey del Metro Cuadrado foi não apertar a mão de Augusto Pinochet.

8 —  O doutor da bola e da democracia

Craque do Corinthians e sua democracia no começo dos anos 80 e garoto propaganda das Diretas Já. Precisa mais?

9 — O encrenqueiro politizado

Craque com a bola no pé e um desastre nas relações humanas. É, porém, quase um filósofo, além de um bom lutador contra os fascistas.

10 — O goleador do punho cerrado

O craque e goleador, foi ceifado dos gramados pelos zagueiros truculentos. Fez questão, porém, de não baixar a voz quando o assunto era ditadura e democracia.

11 — O atacante da revolução

Ele trocou a convocação para a Copa do Mundo de 1958 para lutar pela libertação da Argélia. Depois de independência, voltou a encantar nos gramados franceses.

Técnico — Um técnico adelantado

Foi um revolucionário dentro de campo, fazendo seus times jogarem como uma equipe de basquete — todos marcavam e todos atacavam. Mesmo discreto, também teve sua participação na luta contra a ditadura uruguaia.


A série tem a colaboração de Diego Figueira, na revisão dos textos, e do craque do traço Gonza Rodriguez, nas ilustrações.

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Roberto Jardim

Jornalista, dublê de escritor e pai da Antônia. Tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente nessa ordem. Autor dos livros Além das 4 Linhas e Democracia Fútbol Club. Como fazer jornalismo independente, mantém uma campanha de financiamento coletivo no Apoia.se, que ajuda na produção do projeto Democracia Fútbol Club, que tem o objeto de contar a história de jogadores e técnico, times e clubes, torcedores e torcidas que usaram a desculpa do futebol para irem além das quatro linhas.

Como citar

JARDIM, Roberto. Democracia Fútbol Club. Ludopédio, São Paulo, v. 121, n. 27, 2019.
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