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Deuses do Futebol – Formiga, Nanã Buruquê e Sant’Ana

Guilherme Trucco 30 de julho de 2021
Formiga
Formiga Olimpíadas 2020. Fonte: fotospublicas.com

Este é o artigo número 11 da série “Deuses do Futebol”, no qual o autor busca fazer o sincretismo de jogadores míticos brasileiros, com os santos e entidades cultuados no Brasil em diversas religiões.

 

Nanã Buruquê – Arte: Carybé

Formiga é volante. Só podia ser volante. Sem essa de volante moderna. É daquelas volante-volante. Cabeça de área, cabeça de alho, cabeça dos caminhos. Formiga já jogava futebol antes dele existir. Quando tudo ainda era mato. Pense em um jogo de futebol do Brasil, qualquer um, Formiga vai estar lá, na meiuca, arrumando com classe.

Formiga só poderia ser sincretizada com Nanã Buruquê, a Yabá anciã, criadora da lama primoridal. É a memória ancestral, matriarca de todos os saberes. Tem em seu domínio o mangue, o encontro das águas do mar com os rios, lugar de nascimento, de renascimento, de vida, de terra molhada, do barro primordial. Só com o barro de Nanã, Oxalá teve a matéria prima para criar a forma humana.

“Dizem que quando Olorum encarregou Oxalá de fazer o mundo e modelar o ser humano, o orixá tentou vários caminhos. Tentou fazer o homem de ar, como ele. Não deu certo, pois o homem logo se desvanesceu. Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura. De pedra ainda a tentativa foi pior. Fez de fogo e o homem se consumiu. Tentou fazer de azeite, água e até vinho de palma, e nada. Foi então que Nanã Buruquê veio em seu socorro. Apontou para o fundo do lago com seu ibiri, seu cetro e arma, e de lá retirou uma porção de lama. Nanã deu a porção de lama a Oxalá, o barro do fundo da lagoa onde morava ela, a lama sob as águas, que é Nanã.”

É a partir de Formiga que o futebol brasileiro feminino se monta. É ao seu redor que ele se ordena e cresce. As cores de Nanã Buruquê são o roxo e o lilás, cores da magia, do mistério, da transmutação e da transformação. Nanã tem dois filhos com Oxalá: Omulu, o orixá da cura, e Oxumaré, o orixá da conexão entre o céu e a terra. É a partir de Formiga, e só a partir de Formiga, que o Brasil pôde ter uma Sissi, uma Cris, uma Andressa, uma Marta.

Sagrada Família
Sagrada Família, de Agnolo Bronzino. Fonte: Wikipédia

Nanã Buruquê é sincretizada na Umbanda e no Candomblé com Santa Ana, ou Sant´Ana. Ana, a mãe de Jesus Cristo na bíblia, já era uma velha senhora de idade avançada, normalmente estéril pela idade, quando deu a vida ao menino Jesus. Além disso, Ana morava na região norte de Jerusalém, perto de um local conhecido como o Tanque de Betesda. Ao redor deste tanque existiam cinco alpendres ou colunatas onde muitos doentes, bem como cegos e coxos, se juntavam aguardando que as águas consideradas milagrosas se agitassem. Santa Ana é Nanã Buruquê a senhora da sabedoria das águas da vida.

“Oxumarê era belo, tinha a beleza do homem e tinha a beleza da mulher. Tinha a beleza de todas as cores. Nanã o levantou bem alto no céu para que todos adimirassem a sua beleza. Pregou o filho no céu com todas as suas cores e o deixou lá para encantar a Terra para sempre. E lá ficou Oxumarê, à vista de todos. Pode ser admirado em seu esplendor de cores, sempre que a chuva traz o arco-íris.”

Que o futebol brasileiro seja mesmo um filho de Formiga, uma filha de Nanã, como Oxumarê.

Formiga
Formiga. Fonte: fotospublicas.com

Fontes consultadas

Reginaldo Prandi – Mitologia dos Orixás

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Guilherme Trucco

Escangalho a porosidade das palavras. Rabisco um Realismo de Encantaria e futebol. Filho de Xangô e Iemanjá.

Como citar

TRUCCO, Guilherme. Deuses do Futebol – Formiga, Nanã Buruquê e Sant’Ana. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 60, 2021.
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