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Didi “Folha Seca”, eleito melhor jogador da Copa do Mundo de 1958

Esta é uma crônica que presta a mais incondicional e respeitosa reverência aos 19 anos de falecimento (12 de maio de 2001) de um artista da bola.

Mesmo assim, ela não está a acentuar, apenas, a genialidade de Didi, o “Príncipe Etíope”, como o definiu Nelson Rodrigues. E nem as suas muitas glórias nos gramados – o Bicampeonato Mundial com o Brasil e os títulos de campeão com o Botafogo e o Fluminense seriam os exemplos mais ilustres.

Nela há espaço também para um outro olhar. Apenas uma vista d’olhos sobre a face cruel do futebol. Capaz, até hoje, de injustiçar o mais talentoso artista do nossos tempos, Lionel Messi.


O gênio iluminado[1]

Péris Ribeiro[2]

Didi. Foto: Reprodução.

Ganhou ares de pesadelo – e pesadelo com a força do mais arrebatador tango portenho –, certa desdita vivida por Messi. O ano? 2016, em uma Copa América perdida para o Chile, nos pênaltis, em decisão ocorrida nos Estados Unidos. É incrível, mas ainda me lembro bem do seu choro, de sua imensa frustração. E da dura e sofrida realidade, da impossibilidade ante o impossível.

Porém, há de ter doído bem mais, a constatação real de que ainda não seria daquela vez. Nem a jogada genial, nem o gol decisivo. Muito menos, o sorriso refletido na taça. Na subida ao pódio, o sufoco de novo contido.

Quando, em que dia, afinal, ele poderá rasgar o peito e gritar: “Argentina! Argentina Campeã!?”

Como os deuses da bola sabem ser matreiros, e são tantas e tantas vezes cruéis, há muita gente por aí ostentando façanhas de dar inveja. Uma gente, frise-se, capaz de exibir bem pouco mais que um mínimo que seja de talento.

Em compensação, existem certos gênios predestinados, iluminados. Aqueles para quem a sorte nunca deixou de sorrir. Como Didi, o “Príncipe Etíope”. Alguém com um dom mágico, capaz de obter o que poucos, bem poucos, puderam na vida. Ainda mais, no sinuoso universo do futebol.

Basta dizer que, festejado em 1962, em Santiago do Chile, como bicampeão mundial, Didi já havia conseguido uma glória particular, toda sua, alguns anos atrás. É que, lá na Suécia, fora consagrado o Maior Jogador da Copa de 1958 – justamente a primeira de todas –, na qual o Brasil saiu com as honras de grande campeão.

Aliás, refletindo com serenidade e rigor sobre o tema, não é pouca coisa ser considerado o Maior Jogador de uma Copa do Mundo. Em absoluto! Muito menos, em uma Copa que tem Pelé e Garrincha em campo. E ainda convém lembrar que também havia, nos gramados escandinavos, talentos luminares como os franceses Kopa e Fontaine, o tcheco Masopoust, o húngaro Bozsic e os alemães Rahn e Fritz Walter. Ou o sueco Skoglund, o argentino Labruna, o galês John Charles e o goleiro russo Lev Yashin, já celebrado como o “Aranha Negra”.

Pois ainda assim, e mesmo com todo o tipo de honraria por aí já recebida, nem no ato da heroica conquista em estádios do Chile, Mestre Didi faria por menos. É que, nos atapetados gramados andinos, o elegante e cerebral inventor da “Folha Seca” iria imprimir, pela última vez, a sua marca genial. Particularmente, porque só a ele, e a mais dez ilustres jogadores, seria concedida a honra de um Bi em Campeonatos Mundiais. No caso, oito brasileiros – com ele, Didi, nove – e dois italianos.

— Tenho consciência que fiz por onde chegar a algum lugar. Sei bem disso. Mas sei também que Deus foi bom demais, dando-me além[3]. Quantos fazem por merecer, e nada conseguem? – disse-me Didi certa vez, em um ameno final de tarde. O sol morno e agradável – era início de primavera –, como testemunha privilegiada.

Será Messi, um desses definitivos – e imerecidos – desafortunados da bola?


Resumo Biográfico

Didi, com a camisa da seleção brasileira. Foto: Reprodução/Conmebol.

Nascido em Campos dos Goytacazes no dia 8 de outubro de 1928, Waldir Pereira, o Didi, foi Bicampeão Mundial com o Brasil (1958/1962) e consagrado o Maior Jogador da Copa de 1958, realizada na Suécia. Foi autor do primeiro gol do Maracanã pela Seleção Carioca em junho de 1950 num amistoso contra a Seleção Paulista. A “Folha Seca”, inventada por ele, era um chute de três dedos em que a bola caía como uma folha seca dentro do gol para surpresa do goleiro adversário. Começou a jogar no São Cristóvão do bairro Morrinho em Campos dos Goytacazes-RJ. Na sua cidade natal, cortada pelo Rio Paraíba do Sul, pelo qual era apaixonado, jogou ainda no Industrial da Fábrica de Tecidos da Lapa, no Time da Usina São João, no Róseo-Negro Rio Branco na Rua Sete de Setembro no Centro; e fez amistosos pelo Goytacaz e pelo Americano.

Foi para o Rio de Janeiro para jogar no Madureira. Saiu para uma passagem rápida no Lençoense-SP, voltou ao Rio para jogar pelo Fluminense, onde participou dos títulos do Campeonato Carioca de 1951 e da Copa Rio de 1952 pelo Tricolor. Contratado a peso de ouro pelo Botafogo, foi três vezes Campeão Carioca (1957-61-62) e Campeão do Torneio Rio-São Paulo pelo Glorioso. Transferiu-se para o Real Madrid da Espanha, voltou ao Botafogo e jogou ainda no Sporting Cristal do Peru, Veracruz do México e no São Paulo, onde pendurou as chuteiras em 1966.

Didi foi, ainda, técnico de futebol. Treinou a Seleção do Peru na Copa de 1970; River Plate da Argentina (1970-72); Fenerbahçe da Turquia, onde conquistou dois Campeonatos Turcos (1973/74-1974/75) e uma Supercopa da Turquia (1974/75); Fluminense (1975); Al-Ahli da Arábia Saudita, onde foi campeão da Copa do Rei de 1979; Cruzeiro (1981), Seleção de Novos do Equador (1981), Botafogo (1981); Alianza Lima do Peru (1986) e Bangu (1989). Faleceu no dia 12 de maio de 2001 por complicações de um tumor no fígado.


Notas

Péris Ribeiro. Foto: Divulgação.

[1] Texto editado do publicado em seu formato original no site Viva La Resenha no dia 19 de maio de 2019.

[2] Péris Ribeiro é jornalista e escritor. E autor de “Didi, o gênio da folha-seca”, ganhador do I Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo (2011), como o Melhor Livro do Ano.

[3] Em 2019, em entrevista para uma reportagem do site globoesporte.com, um dos filhos de Didi; Adilson Pereira, o Bibi, afirmou que o pai não teria o devido reconhecimento em seu país, mas que é muito respeitado no Peru. Se formos considerar a fala de Didi para seu biógrafo Péris Ribeiro, ao final do texto acima, vamos entender que, para Didi, Deus havia lhe dado mais do que “merecia”. Além de sereno, Didi era modesto. Fazemos, então, quase duas décadas após sua morte, mais uma homenagem merecida a este eterno vencedor!


Edição, Resumo Biográfico e Notas: jornalista e escritor Wesley Machado. 1º Lugar na Categoria Blogs do 1º Prêmio Botafogo de Imprensa em 2015 e autor do livro “Saudosas pelejas: a história centenária do Campos Athletic Association” (Edição do Autor, 2012).

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Wesley Barbosa Machado

Nascido no dia 23 de junho de 1981 em Campos dos Goytacazes-RJ Jornalista, Escritor e Compositor. Torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro, do Roxinho de Campos dos Goytacazes-RJ e do Arsenal da Inglaterra. Co-Autor do Livro de Crônicas do Botafogo, "A Magia do 7" (Editora Livros Ilimitados, 2011) e Autor dos Livros "Saudosas Pelejas: A História Centenária do Campos Athletic Association" (Edição do Autor, 2012), "Botafogo, Roxinho e Outros Textos Sobre Futebol" (Edição do Autor, 2020) e "Corrupção no Futebol" (Edição do Autor, 2020). Autor das Músicas sobre Futebol: "Oração do Futebol", "Samba do Senta" e "Gol do Maurício"; e do Hino Oficial do Campos Atlético Associação (Roxinho). Criador e Administrador dos Projetos Campos OnLine (@campos.online no Instagram); Campos de Bola (@camposdebola no Instagram); Bola Carioca (@bolacarioca no Instagram e /bolacarioca2020 no Facebook), Coleção Botafogo(/colecaobotafogo no Facebook); Blog Campos Fichas Técnicas (camposfichastecnicas.blogspot.com.br); Blog Pérolas Futebol e Causos (perolasfc.blogspot.com.br); e Blog Estrela Solitária no Coração (estrelasolitarianocoracao.blogspot.com). Fundador, Autor e Editor do Site Viva La Resenha (vivalaresenha.wordpress.com). Produtor do Podcast Camisa Oito (@camisaoito no Twitter).

Como citar

RIBEIRO, Péris; MACHADO, Wesley Barbosa. Didi “Folha Seca”, eleito melhor jogador da Copa do Mundo de 1958. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 45, 2020.
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