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Dirigentes esportivos no Brasil: o que a academia diz

Imagino que um dos assuntos mais comuns nas mesas de bar em nosso país seja o seu esporte mais popular: o futebol. Os bares, aliás, tornaram-se espaços privilegiados para assistir aos jogos. Nesses encontros, os torcedores comentam sobre lances da partida, reclamam do juiz, xingam o adversário, lamentam os gols perdidos, relembram títulos marcantes e, vez ou outra, falam sobre os dirigentes de seus clubes. Os discursos acerca dessas figuras e do futebol, no geral, em grande parte dos casos, é mediado pelas narrativas da mídia especializada. O jornalismo esportivo, como chama atenção Simoni Guedes (2011, p. 6), produz discursos entendidos como “autorizados”, que consagram “determinadas versões” sobre o futebol. Em relação aos dirigentes, a imagem mais comum, sobretudo a partir da década de 1980, é a do atraso. O “cartola”, seria o grande empecilho à emergência do futebol moderno no Brasil. Foi o que discutiu-se em “‘De Deus a demônio’: dirigentes esportivos no Brasil e suas representações midiáticas”.

Ainda nesse texto, ressaltei a importância de pensar, na contramão do discurso midiático, abordagens que estejam mais alinhadas ao que a academia propõe atualmente acerca dos dirigentes. É o que faremos, brevemente, nesse texto. Antes disso, contudo, vale reforçar que, não se trata de defender ou acusar tais figuras e sim de compreendê-las. Como bem escreveu o célebre Marc Bloch em Apologia da história ou o ofício de historiador: “quando o cientista observou e explicou, sua tarefa está terminada” (BLOCH, 2002, p. 125), portanto, não nos cabe declarar sentença.

O discurso acadêmico relutou e apenas recentemente incorporou em suas análises a temática dos dirigentes. Dos autores que se dedicaram ao tema, acredito que seja possível dividi-los em dois times, grosso modo. Assim sendo, de um lado, destaco aqueles que, a partir de concepções mais ligadas aos pressupostos da Antropologia, enxergam que a marcante presença de determinados dirigentes na memória dos clubes, deve-se, sobretudo, à sua capacidade de alinhar a própria trajetória de vida com o código clubístico de suas respectivas agremiações. Em outras palavras, teríamos assim, em cada clube, uma linhagem de dirigentes “tipos ideais” que incorporaram em suas práticas a representação do “estilo de gestão” dessas memórias clubísticas. Foi o que propus, em tom ensaístico, no texto “Era uma vez… um clube grande (V): Cruzeiro e a ‘Era Brandi’” a partir do defendem Matias Godio (2010) e Rocha (2013).

Dessa forma, em um estudo seminal sobre os dirigentes do Estudiantes de La Plata e do Gimnasia y Esgrima La Plata, o antropólogo Matias Godio (2010) interpreta “certas ‘atitudes’ dirigenciais como eventos que se inscrevem em paralelo com universo dos chamados ‘estilos’ futebolísticos, miticamente construídos como propriedades ‘essenciais’ para si, em cada clube” (GODIO, 2010, p. 126). Do mesmo modo, Rocha (2013) em sua dissertação sobre a dupla Fla-Flu, trata das diferenças entre os estilos de gestão nesses dois clubes cariocas, tendo como referência os mandatos de Francisco Horta e Márcio Braga.

Esse tipo de noção, que remete aos “estilos”, não é nova no campo de estudos. São inúmeros os trabalhos dedicados ao estilo brasileiro de se praticar o futebol, por exemplo. Esse é o caso das categorias apolíneo e dionisíaco, utilizadas por Gilberto Freyre no Prefácio de O Negro no futebol brasileiro (2010, p. 25), para definir a maneira brasileira de praticar futebol (dionisíaca) em comparação com o estilo europeu (apolíneo). Aliás, na crônica “Football mulato”, Freyre enxerga relações entre estilo de jogo e estilo de direção: “Nilo Peçanha… Assistindo também anteontem à fita que reproduz o jogo dos brasileiros contra os poloneses, foi de quem me lembrei – de Nilo Peçanha. Porque o nosso estilo de foot-ball lembra seu estilo político” (FREYRE, 1938, p. 85).

Do outro lado do campo, destacam-se os autores ligados, de forma mais profunda, aos pressupostos da História. De acordo com essas pesquisas, para que os dirigentes tenham seu nome lembrado na centenária memória das instituições futebolísticas, é necessário que suas ações políticas estejam em consonância com as práticas e representações mais “gerais” de seus contextos político, econômico, social e cultural. É o que propõe, por exemplo, Santos (2010), ao investigar as ações, consideradas por ele “revolucionárias”, dos dirigentes do Club de Regatas Vasco da Gama, que inseriram seus jogadores (em sua maioria, negros e pobres) nas relações de Capital/Trabalho, especializando-os e profissionalizando-os. Mudanças tais que abalaram o modelo de organização do futebol carioca e estavam em paralelo às transformações mais gerais da sociedade capitalista. 

João Havelange em encontro com Juscelino Kubitschek então presidente do Brasil. Fonte: Gerência de Memória e Acervo da CBF

Nessa mesma linha, Coutinho (2013), por sua vez, trata da mudança de significado do “ser flamengo” nas gestões de José Bastos Padilha e Gilberto Cardoso em alinhamento com imaginário político das décadas de 1930, 1940 e 1950, que colocaram o clube rubro-negro como “o representante do povo brasileiro”. Podemos citar ainda, Rocha (2019) que em sua tese, atribui parte da vitória de João Havelange à presidência da Fifa em 1974, a incorporação em seu discurso político a gramática do “desenvolvimentismo à brasileira”, predominante nas décadas de 1950 durante o governo Juscelino Kubitschek e no período da ditadura empresarial-militar brasileira. 

É preciso mencionar ainda os trabalhos de Deivid Ferreira (2020) e Verónica Moreira (2010). Em seu estudo sobre os dirigentes dos clubes de futebol em Caxias do Sul, Ferreira (2020) trata do processo de acesso aos cargos dirigenciais, nesse sentido, chama atenção para aspectos como, a linhagem familiar, as relações de amizade e profissionais. Por fim, é do trabalho de Verónica Moreira (2010) que vem a “lição” mais importante ao se aventurar pelo mundo dos dirigentes. De acordo com a autora, ao se estudar esses grupos, não se deve estabelecer um “padrão de política”, na verdade, é preciso compreender como a política é efetivamente vivida por esses sujeitos. Como venho reforçando, é necessário afastar-se das noções preconcebidas. 

Referências

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

COUTINHO, Renato Soares. Um Flamengo grande, um Brasil maior: o clube de Regatas do Flamengo e a construção do imaginário político nacionalista popular (1933-1955). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

FERREIRA, Deivid da Silva. Os dirigentes dos clubes de futebol em Caxias do Sul: formação e memórias de uma elite regional (1968-1989). 2020. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2020.

FREYE, Gilberto. Football mulato. Diário de Pernambuco. Recife, 17 de junho de 1938.

GUEDES, Simoni Lahud. Discursos autorizados e discursos rebeldes no futebol brasileiro. Esporte e Sociedade. Niterói, n. 16, 2010-2011.

GODIO, Matias. “Somos hombres de platea”: A sociedade dos dirigentes e as formas experimentais do poder e da política no futebol profissional em Argentina. 2010. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

MOREIRA, Verónica. La política futbolizada: los dirigentes deportivos y las redes político-territoriales en Avellaneda. Tesis para optar por el título de Doctora en Ciencias Sociales. Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires. 

ROCHA, Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto. A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da FIFA (1950-1974). Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. 

ROCHA , Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto. A outra razão: os presidentes de futebol entre práticas e representações. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013. 

SANTOS, João Manuel Casquinha Malaia. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). Tese (Doutorado em História Econômica) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2010. 

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Letícia Marcolan

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas. Participa do FULIA/UFMG e do Memória FC.

Como citar

MARCOLAN, Letícia. Dirigentes esportivos no Brasil: o que a academia diz. Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 28, 2022.
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