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Dores da vida, muita coragem, democracia: Richarlyson e Casagrande

Daqui a quinze dias completa-se mais um aniversário, o 37º, do único título nacional de primeira divisão de um time paranaense. Em 1985 o Campeonato Brasileiro de Futebol foi decidido, para o pasmo da maioria dos que o acompanhavam, por dois clubes fora do primeiro escalão nacional, mas que mereceram chegar ao topo. No Maracanã, em disputa de pênaltis, o Coritiba Foot Ball Club venceu o Bangu Atlético Clube, depois da igualdade de 1 x 1 no tempo regulamentar, placar que persistiu na prorrogação. A contenda foi acirrada, decidida apenas na série alternada, com o Coxa fazendo 6 x 5.

A equipe de Moça Bonita era forte, e nela se destacava o ponta-direita Marinho, que atuara nos Jogos Olímpicos de 1976, quando ainda era do plantel do Atlético Mineiro, e que jogaria em 1986 na seleção treinada por Telê Santana, quando por pouco não integrou o elenco que foi à Copa do México. Na mesma posição, mas no time adversário, atuava Lela, que converteu a quarta penalidade para o Coritiba. Consta que o treinador Ênio Andrade (antes duas vezes campeão brasileiro, invicto com o Internacional, em 1979, e com o Grêmio, em 1981) o colocou na lista de batedores no último momento, a fim de confundir o adversário. Como era costumeiro, o alegre atacante comemorou a gol levando as mãos abertas às têmporas, abanando-as, como a fazer uma moldura para o sorriso rasgado.

Lela é pai de Alecsandro, centroavante com expressivo cartel de gols e títulos, inclusive duas Copas Libertadores, a primeira pelo Inter, a segunda pelo Atlético. Desta última conquista, em 2013, também tomou parte seu irmão Richarlyson, meio-campista e lateral-esquerdo, e que hoje exerce a profissão de comentarista televisivo. Há poucas semanas, como amplamente noticiado, o ex-jogador declarou-se bissexual, no que me pareceu uma tentativa de colocar fim à “polêmica” sobre sua orientação sexual. Foram anos sendo maltratado por masculinidades inseguras que se burlavam dele, possivelmente porque não conseguiam olhar com tranquilidade para si mesmas. Que a principal torcida organizada do São Paulo não o saudasse, quando ele atuava pelo Tricolor (pelo qual foi tricampeão brasileiro e chegou à seleção), é algo vergonhoso. No mesmo plano se colocam situações como a de corintianos que ameaçaram Emerson Sheik por causa de um beijo nos lábios de um amigo, em 2013. Foi muito triste o ocorrido, o que inclui a resposta do então atacante do Timão, que fez questão de afirmar sua heterossexualidade e aproveitou para fazer troça do time do Morumbi – onde, aliás, ele começou profissionalmente.

Um dos ganhos da vida moderna é a constituição da esfera pública, que se constitui como oposição e complementariedade à dimensão privada. Na primeira realiza-se a política e tudo aquilo que envolve, não sem luta simbólica, o bem comum; a segunda é espaço de resguardo, protegido, com práticas que dizem respeito apenas a si mesmo e aos íntimos. Pelo menos deveria ser assim e o respeito a isso teria que ser sagrado. Mas não é o que acontece no Brasil, onde as coisas se embaralham para além do tolerável. No plano do público constantemente se age com compadrio e favorecimento, enquanto aquilo que é particular é devassado a cada momento.

Richarlyson
Foto: Wikipédia

Ao que parece, Richarlyson não tinha problemas com os companheiros de trabalho, mas com certeza não foi fácil suportar as insinuações e insultos de dirigentes, comentaristas e torcedores. Segundo disse, apenas da torcida do Galo, entre as equipes em que atuou, não foi vítima de homofobia. Tudo isso por causa de uma orientação sexual tão legítima quanto qualquer outra, que só chama a atenção porque somos, como sociedade, profundamente homofóbicos. Seu vir-a-público foi gesto importante, corajoso, solidário, gesto que, se vivêssemos em uma sociedade de fato democrática, seria desnecessário.

Nos últimos dias fomos surpreendidos pela demissão do comentarista Walter Casagrande Junior da Rede Globo. Depois de duas décadas e meia, as posições políticas do ídolo da Fiel Torcida já não eram toleradas, de maneira que, segundo disse, o divórcio foi um alívio para ambas as partes. Casão segue com suas críticas ao atual governo federal e, em especial, ao Presidente da República, e igualmente se mantêm os comentários depreciativos em relação a ele, cujo discurso é desqualificado pelo fato de ser dependente químico, ainda que em abstinência. O desrespeito é enorme e intolerável e, além do mais, o comentarista não recebe críticas por suas ideias, mas insultos por seus posicionamentos, de maneira que o diálogo fica inviabilizado.

Casagrande
Ilustração: Baptistão Caricaturas.

Naquele time do Coritiba campeão brasileiro havia dois goleiros que tinham atuado no Corinthians. Entre os suplentes estava o experiente Jairo do Nascimento, prestes a completar 39 anos, titular do título paulista de 1979 e com passagem pela seleção brasileira. Rafael Cammarota, um dos destaques do time, defendia a meta titular, ele que fora formado no Parque São Jorge, saindo recém-profissionalizado e voltando para um curto período, entre 1981 e 1982. Ao fim da disputa de pênaltis, ainda no gramado, referindo-se à saída do Timão, bradou, pretendendo responder a seus desafetos: “A Democracia implodiu, mas o Rafael venceu”.

Sim, Rafael venceu, com os méritos que lhe cabem, foi campeão regional e nacional, o que não é pouco. Mas, não, a Democracia Corinthiana não implodiu: no campo, foi bicampeã paulista; na sociedade, um exemplo para todos nós, impulso mais atual e necessário do que jamais foi. Afinal, como se lia estampado nas camisetas, era possível “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Viva Richarlyson e a liberdade; viva Sócrates, Wladimir, Casagrande e a igualdade. Viva a democracia.

Ilha de Santa Catarina, julho de 2022.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Dores da vida, muita coragem, democracia: Richarlyson e Casagrande. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 17, 2022.
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