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(Dorival) Júnior e as curvas simbólicas do futebol brasileiro

Em 2004, o Figueirense Futebol Clube começou a boa campanha que realizaria na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol, como vencedor do torneio estadual. A consagração – que marcava um tricampeonato – viera com uma vitória sobre o valente Guarani, de Palhoça, cidade vizinha à capital de Santa Catarina. Há quase vinte anos, a glória habitava um e outro clube, ambos hoje procurando dias melhores: o Figueira busca o acesso à Série B do Brasileiro, enquanto o Bugre mantém as esperanças de voltar à elite do futebol catarinense em 2024.

Pois bem, naquele 21 de abril de 2004, a estreia do Furacão do Estreito – uma referência foi com vitória sobre o Internacional, em tarde de quarta-feira em que torcedores e torcedoras aproveitaram o feriado para ver seu time superar um adversário que era superior. Pesou a experiência de Sérgio Manoel, que atuara por Santos e Botafogo, chegando até a vestir a camiseta da seleção brasileira, que marcou de pênalti o único gol da partida. No time que bem mesclava veteranos e jovens, estavam o consagrado zagueiro Cléber, o atacante Fernandes – maior artilheiro da história do clube – e o promissor Filipe que, na lateral-esquerda, ainda não era chamado de Filipe Luís. Além deles, destacava-se o volante Carlos Alberto, que frequentara a seleção sub-20 junto com o atacante adversário Nilmar. Ambos se deram um caloroso abraço ao final da contenda.

Na saudação da torcida aos jogadores e ao treinador, gesto que costuma anteceder o início das partidas, a homenagem ao jovem canhoto dizia “Não é mole, não, o Filipe também é campeão”, enquanto ao técnico se destinava um simples, mas efusivo “É o Júnior, é o Júnior”. Na casamata estava Dorival Júnior, que começava a ser referido pelo prenome, ele que estreara como comandante do Figueira no ano anterior. Antes disso exercera o cargo de gerente de futebol e tivera uma breve experiência orientando o time da Ferroviária, de Araraquara, sua cidade natal.

Dorival Júnior.
Dorival Júnior. Foto: delmiro/Depositphoto.

É curiosa essa mais ou menos recente obsessão brasileira por chamar jogadores e treinadores em combinações de dois de seus nomes. Mário Jorge Lobo Zagalo, Carlos Alberto Parreira e Luís Felipe Scolari sempre foram mencionados pelo sobrenome, ainda que o último costume também receber o apelido aumentativo, provável referência aos seus tempos de zagueiro ríspido. Vanderlei Luxemburgo, por sua vez, costuma ser citado por um outro de seus prenomes. Por que Dorival Júnior não permaneceu com sua denominação de jogador? Porque se tornou treinador, porque o “Júnior” soa muito infantil para a função ou porque a moda dos nomes em composição parece trazer pompa e circunstância para os futebolistas? Não sei, mas me parece um tanto esnobe esse movimento que, vá lá, tem suas estranhas exceções, como nos casos de Tite (Adenor Leonardo Bacchi) e de Dunga (Carlos Caetano Bledorn Verri), ainda que este último receba em alguns países o prenome, tornando-se, pasmem, “Carlos Dunga”.

Júnior foi um bom jogador, volante marcador como seu tio, o célebre Dudu, do Palmeiras, que fazia o trabalho de contenção para que seu parceiro de meio-campo Ademir Da Guia jogasse mais solto e mostrasse, a favor do time, seu divino talento da camisa 10 alviverde. Como ambos, Júnior também jogou pelo Palestra, onde compôs o elenco dos primeiros tempos da parceria com a Parmalat. Antes de chegar ao Figueirense, em nova carreira, ele vestiu a camisa do arquirrival Avaí, sem propriamente alcançar um grande destaque.

Dorival tem um ótimo histórico como treinador, o inclui, afora os títulos e boas campanhas em Florianópolis, a liderança da versão mais espetacular do Santos de Neymar e Paulo Henrique Ganso, e os títulos da Copa do Brasil e Libertadores da América, no ano passado, pelo Flamengo. O Rubro-negro não quis renovar seu contrato e o que aconteceu é do conhecimento de todos: a Gávea já está com seu segundo comandante no ano, os títulos foram perdidos, o time não se entende muito e oscila em campo. Enquanto isso, o São Paulo, com seu elenco tão limitado, e apesar do tropeço contra o Sport Recife, que quase lhe custou a vaga para as quartas-de-final da Copa do Brasil, avança sob a direção do araraquarense.

Não, Dorival Júnior não é dos treinadores mais badalados do futebol brasileiro, embora esteja disputando títulos há duas décadas, com vitórias relevantes. Sem querer ser mais importante que os jogadores, aceitou, por exemplo, que na final do Paulistão de 2010, Paulo Henrique Ganso não fosse substituído por um defensor, mesmo que sua orientação fosse essa. O camisa 10 não quis sair, já que supunha poder ajudar ao time (que jogava com dois a menos frente ao Santo André) segurando a bola no ataque ao final do jogo. Diz-se que no Flamengo o técnico trabalhava à mercê dos caprichos dos jogadores, o que parece ser a típica fofoca inconsequente. Uma bobagem que não apaga o brilho do discreto e calmo personagem que há anos se deu ao trabalho de responder, em vídeo e numa boa, uma carta que meu amigo Mozart Maragno – que conhece futebol como poucos neste país – lhe enviou via coluna de André Rocha no UOL. Dá-lhe, D. Júnior na seleção principal!

Montevidéu, junho de 2023.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. (Dorival) Júnior e as curvas simbólicas do futebol brasileiro. Ludopédio, São Paulo, v. 168, n. 3, 2023.
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