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El Chorrillo: a bola, o tráfico e o Panamá na Copa do Mundo

Fernando Moura 12 de abril de 2020

Uma viagem ao bairro boleiro da capital do país que chegou pela primeira vez ao Mundial e cujo futebol local soma 21 atletas assassinados desde 1990

Na noite de 6 de maio de 2011, na Cidade do Panamá, o Chorrillo, atrás de seu primeiro título, goleava o Tauro pela semifinal do torneio nacional. O duelo, apesar da rivalidade acirrada principalmente neste século, foi disputado em um ambiente semelhante ao de um encontro de futebol universitário no Brasil, com algumas dezenas de apoiadores de cada lado tremulando bandeiras, cantando e até saltando ao ritmo do bumbo.

Fundado nos campos de várzea do bairro da capital em 1974, o Chorrillo FC não é considerado um dos quatro grandes do país, lugar ocupado pelo adversário daquela noite, o Tauro, e também pelo maior rival local, o Plaza Amador, clubes que fazem o Superclássico Nacional. E o Chorrillo, naqueles dias em que confirmou sua inédita taça, passaria por ambos para dar a volta olímpica após anos de apuros devido à invasão norte-americana no bairro em 1989.

Mas aquele Chorrillo x Tauro, há sete anos, cercou o noticiário por motivos para além das linhas. O dia, como tantos outros, terminou com mais um corpo estendido no chão: era o 9º jogador de futebol assassinado no país em oito anos. Os atletas saíam caminhando da cancha da Escola de Artes e Ofícios, ao lado de seus amigos e familiares, quando presenciaram o crime. “Um carro parou, desceram dois caras encapuzados e deram vários tiros no peito do moleque, na frente de todo mundo”, conta o brasileiro Caio Milan, sobre a execução de seu então companheiro de equipe Javier de la Rosa.

Beisebol tem o campeonato mais atrativo do país, mas futebol chama a atenção em Chorrillo. Foto: Fernando Moura/Puntero.

O local do duelo já era denunciado como de pouca segurança devido à falta de iluminação ao seu redor, mas nada foi feito. Apesar dos assassinos terem sido capturados, o futebol deixou mais uma promessa na história. O jovem de 21 anos carregava a camisa 10 chorrilheira e era visto como um futuro craque da seleção, mais um talento surgido no bairro de ‘El Chorrillo’.

Apesar da classificação à Copa de 2018 ter chamado a atenção para o esporte, ainda não há no país um verdadeiro ambiente de paixão pelos clubes de futebol, profissionalizado apenas em 1988. O beisebol, por sua vez, segue como principal esporte nacional, movendo massas aos estádios empolgadas com as rivalidades entre os diferentes estados do país.

Menos em El Chorillo, considerado um dos locais mais perigosos da capital panamenha e onde o futebol vence o beisebol de lavada. Lugar que, em tempos de Copa do Mundo, não se fala em outra coisa, agora com a seleção e os filhos de Chorrillo no maior torneio de todos pela primeira vez.

Nas ruas de Chorrillo, criminalidade é um tema recorrente. Foto: Fernando Moura/Puntero.

Em Chorrillo

A chegada ao local a pé é um pouco arriscada. Ao pedir informação na redondeza, a resposta não é animadora. “Mas por que você não vai pelo outro lado? Tem certeza que quer ir por ali?”, responde o primeiro. Ignorando a sugestão, minutos depois outra moradora é mais direta. “Por aqui é perigoso. Vai pelo outro lado”, diz, antes de entrar na viela que pouparia 20 minutos de caminhada embaixo de um sol escaldante. “Eu vou porque moro aqui”, completa.

‘Puchito’ Medina, ex-jogador e ex-técnico do time do bairro. Foto: Fernando Moura/Puntero.

Apesar dos alertas terem sido desprezados, a caminhada entre prédios destruídos e abandonados, muitos com várias árvores e plantas crescendo nos escombros, casas antigas de madeira sem reformas há anos e alguns barracos amontoados teve pouca sensação de risco. Em uma dessas vielas, Julio Medina, um dos craques da equipe nos anos 90 e técnico do bicampeonato nacional em 2014, atende ao Puntero em frente à sua simples casa onde vive com mulher e três filhos.

“O bairro de Chorrillo sempre foi muito futebolístico, esse é o esporte primordial. A criança que nasce aqui já vem com a ‘pelota’ no sangue”, diz ‘Puchito’ Medina, como é conhecido. Do local saíram alguns destaques atuais da seleção como Alberto Quintero, de 30 anos e jogador do Universitario do Peru, e o jovem Ricardo Ávila, 21, do KAA Gent da Bélgica, com vaga praticamente assegurada na Rússia. Além deles, Eduardo Guerrero, 18, é o destaque da seleção sub-20 e a mais nova promessa chorrilheira, com rumores de venda encaminhada ao exterior no meio do ano.

Sobre a segurança no local, desmitifica. “É um bairro como outro qualquer. Já foi mais perigoso, quando não se podia sair de casa, porque era bala para todo lado”, garante. “Mas agora a criminalidade já baixou bastante e qualquer um pode andar tranquilamente por aqui”. A opinião é compartilhada por Milan, que frequentemente visita a sogra no local. “Nos meus primeiros anos, todo dia tinha algum morto ou tiroteio em Chorrillo nas capas dos jornais, mas já está bem tranquilo há algum tempo”.

Caio Milan pelo Chorrillo (em pé, primeiro à esquerda) e San Francisco (centro). Foto: Arquivo Pessoal.

Milan é o único brasileiro na elite do futebol panamenho. No Brasil, já tinha poucas esperanças em seguir carreira profissional enquanto jogava nas categorias de base de equipes do interior paulista como União São João de Araras, Rio Claro e Lemense. Nesse último, porém, se destacou em uma Copa São Paulo de Futebol Júnior e aceitou o convite para ir ao Panamá aos 19 anos de idade. Foi parar direto no Chorrillo FC, onde atuou por oito temporadas. “O presidente e a diretoria sempre me trataram como um filho, mas a adaptação com os jogadores foi um pouco mais complicada no início”, diz. “A realidade de vida deles era muito diferente da minha”. Em seguida, se transferiu ao San Francisco FC, clube de La Chorrera, cidade próxima à capital. A camisa tem nove títulos em sua história, a terceira em número de conquistas na disputa entre os quatro grandes (atrás do Deportivo Árabe Unido (15) e do Tauro (13), à frente do Plaza Amador (6) e, claro, do Chorrillo (3), quinta força e atual campeão), mas estrutura semelhante a seus rivais.

Ele se anima ao lembrar da bola que jogava De la Rosa, com quem mantinha apenas uma relação de companheiro em jogos e treinamentos. “Jogava muito mesmo!”, garante. A promessa sofreu com o principal problema vivido por vários talentos chorrilheiros: a dificuldade em deixar um ambiente imerso na criminalidade e acreditar no sucesso com o esporte profissional.

O camisa 10 naquele campeonato de 2011 havia acabado de cumprir dois anos de prisão por relação com um homicídio, e, em boa fase dentro de campo, dava declarações de ser uma nova pessoa e dedicada unicamente ao futebol, deixando para trás tudo o que tinha feito. Faltou apenas combinar com seus antigos inimigos.

Porém, se destaques como De La Rosa sonham com uma vida melhor na busca dos principais salários da liga ou de uma venda ao exterior, a grande maioria dos jogadores no país não vê muita expectativa no futebol que paga cerca de US$ 400 mensais a quase todos seus jogadores. Talvez por esse motivo, a equipe que se classificou e jogará a Copa atua quase toda fora do país.

Na última convocação, apenas três jogadores eram locais, sendo dois goleiros reservas, enquanto a maioria vem da Major League Soccer (EUA). O técnico colombiano Hernán Darío ‘Bolillo’ Gómez, que classificou três seleções a Mundiais (Colômbia-98, Equador-2002 e, agora, o Panamá), convocou ainda três nomes do futebol europeu, e o restante espalhado pelas Américas. A equipe perdeu por 1–0 para a Dinamarca e levou 6–0 da Suíça nos amistosos de março.

21 assassinados

Esse cenário de baixos salários faz com que a maioria dos jogadores mantenha elos com outras fontes de financiamento, algumas vezes envolvidas com o mundo criminal. “Nos últimos anos, com a melhora da seleção, o futebol começou a ser mais aceito na sociedade, mas antes tinha um preconceito generalizado em que todos viam os jogadores panamenhos como traficantes”, diz Milan.

Por isso, a cena da execução de um jogador de futebol, que mereceu divulgação na mídia brasileira, não foi tão chocante para ele. “É super normal. Outro dia fuzilaram um goleiro na cabine do pedágio”, diz, após contar em duas mãos os assassinatos que lembrava de cabeça depois do caso De La Rosa.

Pibe González lembra Amílcar Henríquez, o ‘Eterno 21’, na comemoração de vitória do Árabe Unido. Foto: Twitter/Liga Panamenha de Futebol.

Ao final, chegou ao volante da seleção Amílcar Henríquez, assassinado em Colón em 2017, em meio à vitoriosa campanha dos ‘Canaleros’, como é conhecida a seleção do Panamá, nas eliminatórias. Os números confirmam. Segundo levantamento do jornalista Álvaro Martínez, Amílcar não só vestia a camisa 21 da Roja, como também se tornou o 21º assassinado desde 1990. Sua família ainda pleiteia por parte da premiação distribuída aos jogadores da seleção pela classificação à Copa.

História de Chorrillo e a confissão de Jafet

Ao analisar os motivos de tantos problemas em um único bairro, basta observar o tradicional dilema latino-americano. Apesar de seu recente alto crescimento econômico entre 5% e 6% do PIB por ano, o Panamá atingiu números alarmantes de desigualdade social, ocupando o pior lugar no índice GINI no continente, e aumentou a taxa de desemprego a cada ano, contrariando frontalmente a tese de distribuição automática de rendimentos através do crescimento econômico.

Bairro acabou devastado nos ataques dos EUA em 1989. Foto: Fernando Moura/Puntero.

O bairro de Chorrillo, com população atual estimada em 19 mil pessoas, porém, tem uma realidade um pouco diferente. A região foi inicialmente ocupada por imigrantes caribenhos afrodescendentes, responsáveis pela construção do Canal do Panamá inaugurado em 1914, além de migrantes que chegavam do interior do país em busca de empregos na cidade, onde construíram várias casas de madeira.

A realidade financeira sempre esteve abaixo da média, mas o bairro nunca teve muitos problemas até a noite do dia 20 de dezembro de 1989. Em apenas 24 horas, uma invasão por terra e com bombardeios protagonizada pelo exército norte-americano matou milhares de pessoas, arruinou incontáveis famílias e deixou toda a região em destroços.

O motivo não era nenhuma novidade. Os EUA não estavam mais satisfeitos com algumas ações do ditador Manuel Antonio Noriega, que haviam ajudado a entrar no poder em 1983 e era considerado até pouco tempo antes um grande parceiro aos seus interesses, acusado de envolvimento como laranja do tráfico em nome dos EUA e da CIA. Foi quando o presidente George Bush — o pai — decidiu colocar em vigor a operação Justa Causa, que convocou 27 mil soldados dos EUA para entrarem em território panamenho.

Como o Quartel Central das Forças de Defesa do Panamá estava localizado bem em frente ao bairro, os invasores “deixaram escapar” algumas dezenas de ataques ao setor habitado pela população civil. Após a ação, ainda, milhares de refugiados foram enclausurados em um precário ambiente a quilômetros de distância durante meses, onde tinham dificuldades até para fazer suas necessidades pessoais normalmente.

Desde então, o que restou de habitado no setor começou a viver seus crônicos problemas de violência, iniciando um longo processo de recuperação que só agora começa a ter resultados. Entre vários trabalhos sociais realizados na região, o “Projeto Esperanza” se propôs a recuperar jovens envolvidos nos grupos de tráfico. Um deles foi Jafet, ex-líder de uma gangue local. Após consultoria com o projeto, ele e quatro amigos criaram um tour contando a própria história aos turistas, quase sempre estrangeiros.

Jafet recebe um turista italiano. Foto: Fernando Moura/Puntero.

Apesar de não ser um dos talentos futebolísticos do bairro, Jafet é mais um apaixonado por futebol e, claro, pela seleção brasileira. A conversa seguia engessada até entrar no tema. “Ronaldinho é de São Paulo?”, pergunta desenrolando sua própria entrevista para saber as origens de jogadores como Roberto Carlos, Kaká, Ronaldo, Neymar, etc, rendendo alguns segundos de sorrisos até comentar o caso de seus antigos companheiros.

“Vieram um dia aqui e pegaram todo mundo. Era para eu estar na cadeia com eles”, lamenta sobre o dia em que a polícia abordou e levou seus quatro amigos à prisão, onde seguem até hoje sem solução. “Algumas pessoas não aceitam que assumimos e largamos o que fazíamos. Enquanto isso, tem vários casos por aí em que não acontece nada. Nesse país, a justiça só vale para pobres e negros”, reclama. Sobre o motivo de não ter sido ele próprio abordado depois, manteve o mistério.

Hoje, Jafet está cursando o segundo ano de Direito em uma universidade local, com o objetivo de “mudar essa realidade discriminatória” e poder defender seus colegas “na forma da Lei”. Enquanto isso, sustenta seus filhos com os tours que valem US$ 25 por pessoa. “Quero deixar claro a vocês que não tento justificar o que eu fazia”, conta a uma plateia de 20 estrangeiros de dentro do casarão onde quatro gangues viviam juntas até finais dos anos 2000. “Mas existia, sim, uma razão. Todos éramos jovens sem dinheiro para comer, sem possibilidades de trabalho e já éramos pais de família”.

O coliseu Maracaná, a nova casa Chorrillera

Além de incontáveis semelhanças entre as sociedades panamenha e brasileira, o bairro de Chorrillo abriga o que talvez seja a principal representação da paixão nacional em relação ao futebol do Brasil. Em 2014, a Odebrecht inaugurou o Estádio Maracaná nas encostas do bairro, em um jogo festivo com participação de Dunga, Rivaldo, Bebeto, Viola, Careca e Ronaldão. Assim como no Brasil, todos os panamenhos riem ao falar sobre supostas e gritantes diferenças entre o valor oficial e o valor real da obra.

O novo estádio Maracaná no início de Chorrillo x San Francisco, em março de 2018: 0 a 0. Foto: Fernando Moura/Puntero.

Além do estádio, a empreiteira brasileira foi responsável por diversas ações durante o governo de Ricardo Martinelli (2009–2014), especialmente voltadas para a infraestrutura, assim como na maioria dos países do continente com forte atuação da empresa. Com as prisões e delações dos executivos no Brasil, foram revelados milionários esquemas de propinas envolvendo os filhos de Martinelli, ainda sob investigação. Apesar dos familiares estarem livres, Martinelli está preso em Miami desde junho de 2017, embora seja por outro motivo: a escuta ilegal de adversários políticos durante seu governo.

O nome, porém, não foi uma ideia da empreiteira. Há décadas o local já abrigava um terrão que recebia os principais jogos do país, quando ainda não havia a Liga Profissional. “Todos seguiam muito o Pelé e gostavam muito do futebol brasileiro, então apelidaram esse campo de Maracaná”, explica Medina sobre o campo utilizado pelo então competitivo futebol de várzea local. “Meu pai sempre se destacou pelo Chorrillo quando ainda era o campinho lá”, garante.

O moderno estádio com grama sintética e capacidade para cinco mil pessoas se tornou o segundo principal do país, atrás apenas do Estádio Nacional Rommel Fernández, para 30 mil pessoas, o único com grama natural. Nele, as principais equipes revezam os mandos dos jogos e os treinamentos, com uma hora para cada. Por vezes, o campo também é aberto gratuitamente aos chorrilheiros para uma “birria”, como é chamada a pelada no país.

A paixão pela seleção brasileira, porém, não acaba por aí. A cada Copa do Mundo, todo o bairro de Chorrillo se transforma em verde e amarelo. Neste ano de 2018, porém, a comunidade local terá pela primeira vez a sensação de assistir ao time panamenho na competição, diante de Bélgica, Inglaterra e Tunísia no Grupo G. Em caso de eliminação precoce, certamente voltarão seus olhares ao “jogo bonito”.

Torcida da casa no Maracaná Foto: Fernando Moura/Puntero.

Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2018, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.

 

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Como citar

MOURA, Fernando. El Chorrillo: a bola, o tráfico e o Panamá na Copa do Mundo. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 13, 2020.
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