138.16

El Diego de la gente (latino-americana)

Fabio Perina 7 de dezembro de 2020

Mais uma vez vou carregar nas tintas para falar de rivalidade. E precisamente do ano transcendental de 1986. Mais precisamente nessa em 22 de junho de 1986, no lendário estádio Azteca. Quando a Copa do Mundo nunca mais foi a mesma! A Argentina na era Maradona jogou grandes clássicos contra brasileiros e uruguaios, mas sem dúvida o mais intenso foi o clássico ‘transatlântico’ com os ingleses. Nunca esquecer que após essa vitória de 86 a seleção inglesa, a mais superestimada equipe de toda a história do futebol, foi ultrapassada em títulos mundiais pela Argentina. (Inclusive se tornando freguês outra vez, em 98, na França, ao perder nos pênaltis). Foi quando a metáfora entre futebol e guerra esteve mais próxima do real e chegou a seu ápice (tempos ainda de um futebol de massas em que nem se sonhava com o infame termo ‘padrão FIFA’). Por conta das chagas recentes de 4 anos antes com a covarde guerra das Malvinas. E com isso o clima do confronto transbordando a campo para as arquibancadas e ruas mexicanas com a “paliza” que os barrasbravas argentinos aplicaram aos hooligans ingleses. Dentro de campo, apenas 5 minutos separaram dois gols insólitos: “la mano de Dios” e “el gol del siglo”(ou “barrilete cósmico”). O gol mais humano e o gol mais divino. E seguramente Maradona preferiu o primeiro por preferir a revanche histórica que o futebol permite quando na guerra é negada.

Sua justificativa evidentemente foi um clamor anti-imperialista de reparação histórica ao declarar que não havia mal em roubar os ladrões ingleses. O último caudilho do século XX não vestia uma farda, mas um manto albiceleste (naquele dia azul marinho), e tinha em vista a guerra dos últimos anos e o saque das riquezas nacionais (e também continentais) nas últimas décadas. Maradona nasceu, nos anos 60, junto do auge do pensamento social crítico latino-americano e da Taça Libertadores (embora nunca a venceu). Mas desse momento lendário de 86 em diante chegou ao patamar do libertador San Martín um século e meio depois. Para que desse momento em diante em cada cidade argentina haja muros e memoriais com o lema “las Malvinas son argentinas” assim como uma Plaza San Martin com sua estátua montado em seu cavalo.

Ora, os segredos de 34 anos e 5 meses atrás se revelam, como o realinhamento dos planetas…pois clamem pela profanação de um Maradona bem-comportado e simplesmente terão um Inglaterra 1 x 0 Argentina em 86! É preciso aceitar Maradona por inteiro, sem pensar em ‘cancelar’ “la mano de Dios” e escolher somente o “gol del siglo”. Porque o segundo nunca existiria sem o primeiro por brotar das mesmas forças anímicas. Assim como é cômodo gostar de Maradona dentro de campo e colocá-lo no patamar dos gênios. Porém é preciso a coragem de assumir também por inteiro o Maradona fora de campo que nunca deixou de estar ao lado dos condenados da terra. Desceu do pedestal e da ‘bolha’ a qual a boleiragem é tão viciada e a cartolagem tanto quer que assim permaneçam.

Seus últimos meses de vida foram muito intensos, como deveriam ser mesmo, pois sem o saber estava em sua peregrinação final. Lutando ao mesmo tempo contra o rebaixamento do Gimnasia, contra o perecimento do próprio corpo e até contra o risco de esquecimento da lenda. Felizmente a cada estádio que ia com sua última equipe de visitante o clubismo era momentaneamente suspenso. E os torcedores locais mostraram o que o funeral dos últimos dias na Casa Rosada que ganhou “clima de cancha” comprovariam: que a Maradona sempre “lo llevan adentro del corazón”. Um funeral marcado por festa em uma mistura entre vida e morte, embora uma temeridade tamanha aglomeração durante a pandemia. Mas sua gente sabe que tem oportunidades que não passam duas vezes. Nós, simples mortais, lamentamos. Ele, não: já estava ‘condenado’ à eternidade desde 86. Todo o ‘mantra’ atual de “se cuidar para viver melhor no futuro” soa para Maradona como uma piada de necrotério (como diria Nelson Rodrigues). Assim como o cínico fair play naquele lance de ter levantado a mão antes do goleiro Peter Shilton. Uma ingratidão do goleiro inglês, um “vendehumo”, pois somente é lembrado eternamente por causa daquele lance. E mesmo nos últimos dias mostrou que a típica arrogância e ressentimentos dos ingleses nunca acabam, assim como sua rainha nunca morre! Humilhar os ingleses com a picardia de subverter suas regras no primeiro gol e o talento sublime no segundo.

Diego Maradona. Foto: Diego Torres Silvestre/Wikipédia.

Através do melhor jogo que criaram na pretensão de ‘civilizar’ o mundo no auge de seu imperialismo. Mas que depois o mundo revidou sendo muito mais feliz que eles! Jogo expropriado das elites e dos lordes pelas multidões, principalmente as do terceiro mundo que o fizeram ser muito mais que um jogo. E junto delas alguns baixinhos, gordinhos e pouco dotados fisicamente que fazem desse jogo o mais democrático e tão imprevisível quanto a própria vida. 86 com seus dois gols mágicos representa tudo isso! (Vide seu companheiro de seleção, Valdano, dizer que ao menos uma vez os pobres puderam vencer os ricos). Um grito de transgressão dos materialmente fracos porém com uma força estranha passam a ser humanamente fortes.

Maradona foi durante seus 60 anos de vida a encarnação do contraditório em estado puro. ‘Condenado’ a ter nascido com uma benção em campo que se manifesta como maldição fora dele pelo restante de seus dias. Um veneno-remédio. Maradona inquestionavelmente trouxe muito mais benefícios para o futebol do que para si mesmo. O melhor que passou a Diego fui chegar a ser Maradona e o pior que passou a Maradona é padecer da ‘condenação’ de nunca mais poder voltar a ser apenas Diego. Sua condição lendária era demais para ser sustentada dia a dia por sua condição humana. E agora pode descansar com toda a certeza do mundo que seu legado lendário nunca será esquecido por nós. De certa forma ele se sacrificou através do futebol por nós. Louco, mas um louco consciente, sem desperdiçar o pedestal que dispunha para ser a voz dos que não tem voz. Se o que fez em campo nos deixa saudades, o que fez fora dele nos deixa órfãos.

“El pueblo lo lloraba, y cuando el pueblo llora, que nadie diga nada, porque está todo dicho” R. G. Tuñón

Tão contraditório quanto nós que divinizamos o mais endemoniado dos gênios. De certa forma um espelho de nós mesmos que quisemos ter o talento, a coragem e principalmente a boa permissividade (subverter o poder e não abusar dele) de poder fazer o que Maradona fez em campo e fora de campo, pois como disse os dois lados provém de uma mesma força anímica que não se separa. Perfeito em suas imperfeições. As conquistas e os fracassos dele tomaram proporções tão grandes que já não podem deixar de ser nossos também. Mas diante desse espelho Maradona também nos assombra mais do que a esfinge do Egito com seu enigma: não pretendam ser Maradona se não estão dispostos a morrer, literalmente, tentando!

O pulo do gato desse espelho é que as contradições de Maradona não são um produto midiático que nós como expectadores supostamente neutros daríamos audiência enquanto nos distraía: suas contradições foram e são plenamente coerentes com as contradições de seu povo. Pois se rompe o lugar cômodo do espectador que bastava ‘torcer’ para Maradona se levantar de suas quedas que ele se levantaria por nós. Agora estaremos mais sozinhos do que nunca em cada empreitada. Uma das frases lendárias que descobri esses dias e foi bastante difundida que expressa isso: “pouco importa o que Maradona fez de sua vida, mas o que fez de nossas vidas!”. (Obs: Sem perder de vista as rivalidades, o autor da frase tampouco é acidental. Vinda do artista Roberto Fontanarrosa, torcedor fanático do Rosário Central, justamente o rival do Newell’s Old Boys onde Maradona teve curtíssima passagem, porém jamais esquecida).

Por fim, em 86 o sonho da integração latino-americana pela política já começara a estar cada mais distante do que nunca até os nossos dias. Mas pelo futebol ela teve o seu batismo de fogo forjado no estádio Azteca. Um continente que sonhou junto com o menino e realizou os sonhos junto com o craque. E agora entendeu o homem e entendeu que os erros do homem não diminuíam em nada aquilo tudo que foi sonhado. Para que nunca mais se esqueçam: “la pelota no se mancha”. Prova disso é que mesmo sem entrar no campo nas últimas duas décadas, continuou de certa forma torcendo e militando. Vide nesse último mês de novembro, um fato ofuscado pela mídia burguesa e vira-lata, se completou os 15 anos da maior vitória latino-americana contra o imperialismo yanke: a marcha a Mar del Plata de rechazo à ALCA. Um “puño apretado” de militantes, lideranças populares e presidentes por um gesto soberano. Entre eles, claro, Fidel Castro, outra lenda em carne e osso e amigo íntimo de Maradona. Por um capricho do destino ambos terminaram sua passagem entre nós em um 25 de novembro. Muito mais do que a coincidência de separados por 4 anos ser exatamente o tempo de uma Copa do Mundo. Mas principalmente ao se forjar a partir de agora o segundo realinhamento dos planetas: que para Maradona também se imortaliza a frase de Fidel: “a historia me absolverá!”


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. El Diego de la gente (latino-americana). Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 16, 2020.
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