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Eleições, torcidas e preconceito policial

Terça-feira, 1º de novembro de 2022, dois dias depois da vitória de Lula para a Presidência da República.

Avenida Epitácio Pessoa, a principal de João Pessoa, capital da Paraíba, de onde eu escrevo.

Pouco a pouco, as calçadas vão se enchendo de golpistas, incapazes de aceitar o resultado das urnas que derrotou o atual presidente fascista e que consagrou a vitória de Lula.

É a primeira vez na história que um presidente brasileiro não é reeleito, desde que a reeleição foi regulamentada. A primeira vez na história que o eleito, Lula, ultrapassa a casa dos 60 milhões de votos.

Um episódio histórico. Lindo. Marcante.

Lula
Fonte: Ricardo Stuckert

Mas, voltemos à terça-feira.

A maioria dos golpistas que chegam à avenida é rica, branca, moradora de bairros classificados como “nobres” da capital paraibana. Eles se posicionam em frente ao 1º Grupamento de Engenharia do Exército Brasileiro. Nos tempos da Ditadura Militar, o comandante daquele local tinha poderes comparáveis ao do governador. E muitas ordens saíram dali para prisões e torturas de paraibanos classificados como “subversivos”.

Pois é justo nesse local “simbólico” que os golpistas se reúnem.

A cena é grotesca.

Faixas pedem intervenção militar, gritos histéricos xingam Lula e pedem a permanência do derrotado no cargo, falam em fraude, convulsionam-se numa realidade paralela que não se ampara nos fatos.

Golpe
Fonte: Lua Lacerda

Em certo momento, ultrapassam os limites da calçada e fecham a avenida.

O governador João Azevêdo (PSB), recém-reeleito, reage de forma tímida. Ordena que a Polícia Militar da Paraíba não permita o fechamento das vias. Duas viaturas são enviadas. O papo entre policiais militares e golpistas é ameno e amigável. O fechamento torna-se apenas parcial, mas a decisão do governador não é totalmente cumprida. Os golpistas passam a hostilizar ocupantes de carros com adesivos de Lula que passam no local, com a anuência omissa da Polícia Militar.

Na quarta-feira, o golpismo persiste no local. À noite, um caso grave. Um carro com algumas mulheres dentro e adesivo de Lula é atacado. A motorista é agredida. A Polícia Militar enfim resolve agir.

O que faz?

Dá voz de prisão à motorista, alegando que ela colocou golpistas em risco ao tentar passar pela avenida. Ela é levada à Central de Polícia e precisa pagar fiança de R$ 600 para ser liberada. Nenhum golpista é preso. O ataque à democracia, a hostilidade aos vencedores, o negacionismo criminoso, segue intacto até a madrugada.

Policiais seguem batendo papo com os golpistas, em conversas cada vez mais fraternais, ignorando o fato inescapável de que defender a ruptura democrática é crime previsto em lei no Brasil.

Golpe
Fonte: Lua Lacerda

Lula venceu as eleições. Venceu de forma consagradora no Nordeste. Venceu em todas as cidades da Paraíba. Venceu inclusive em João Pessoa. E, no entanto, tem uma elite pessoense escrota que se sente no direito de pedir intervenção militar.

Mas nem é isso o que eu queria abordar aqui.

Todo esse preâmbulo sobre política, eleições, democracia e golpismo é para falar da Polícia Militar da Paraíba.

Faz cinco anos que eu pesquiso torcidas de futebol da Paraíba, mais precisamente a Torcida Jovem do Botafogo-PB (TJB). E ao longo de todo esse tempo eu venho destacando o quanto a Polícia Militar é uma instituição preconceituosa e racista. Em outras palavras, é o que costumo chamar de “violência institucional” provocada pelas forças de segurança paraibanas contra as minorias do estado.

Pois, justo ao analisar o tratamento dado aos brancos e ricos dos bairros ditos “nobres”, que tudo o mais que ocorre contra a população negra e periférica é evidenciado. Absurdamente escancarado.

A TJB é uma torcida organizada majoritariamente formada por torcedores negros e moradores de bairros periféricos. E os seus integrantes há 25 anos reivindicam um direito à cidade (Lefebvre, 2001), uma ocupação dos espaços públicos, que é ao mesmo tempo festivo e violentamente reprimido por essas mesmas forças policiais.

A propósito, gosto do debate que Kuschnir (2007) faz sobre o aspecto político dos rituais. E, considerando que a festa é também um ritual, penso a festa torcedora como espaço para fortalecimento das relações sociais, dos “papéis sociais” analisados pela autora.

A festa, o cântico, o burilar das bandeiras, a mobilização pré-jogo são expressões acima de tudo políticas de uma periferia torcedora que quer ser reconhecida, quer ser respeitada, quer ser entendida como coletividade. E que, no entanto, são violentamente reprimidas.

Eu já presenciei em minhas incursões de campo um simples grito de guerra, um simples cantar de forma mais efusiva, ser criminosamente reprimido. Com todo o pacote de maldades que existe em casos como esse. Gás de pimenta, bala de borracha, bombas de efeito moral, expressão irada e descontrolada de policiais diante da periferia.

É como diz Mbembe (2018, p. 41): existe sim nas sociedades atuais, principalmente por parte das forças policialescas, uma certa “capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é”.

 

Em resumo, eu fico fortemente impactado quando vejo a mesma Polícia Militar que reprime violentamente uma expressão festiva de uma torcida periférica permanecer impassível e inerte diante de crimes cometidos por uma elite branca, rica, fascista.

E, por mais que minha formação humanística e defensora dos direitos humanos defenda na verdade que a Polícia Militar seja mais respeitosa com a periferia, tem dias que, por breves segundos, eu torço mesmo é que essa mesma Polícia Militar haja com golpistas com o mesmo ímpeto inexplicável que ela costumar agir com os torcedores organizados.

Afinal, se defendem mesmo intervenção militar, ao menos que eles sintam o gosto amargo da opressão que nós torcedores somos tão acostumados a sentir há tanto tempo.

Referências

LEFEBVRE, Henri. O Direito à cidade. Trad. Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, 2001.

KUSCHNIR, Karina. Antropologia da Política. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Trad. Renata Santini. São Paulo: n-1, 2018.

 

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Phelipe Caldas

Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos, mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba, graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela UFPB. É escritor e cronista, com quatro livros já publicados. Integra o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade (LELuS/UFSCar) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Etnografias Urbanas (Guetu/UFPB). É membro-fundador da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme).

Como citar

CALDAS, Phelipe. Eleições, torcidas e preconceito policial. Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 4, 2022.
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