94.35

Entre memória e história: mais de duas décadas sem Ayrton Senna

Wagner Xavier de Camargo 30 de abril de 2017

SennaAmanhã faz 23 anos que Ayrton Senna morreu. Naquela manhã de domingo, dia 01 de maio de 1994, eu estava fazendo pesquisa de campo com açorianos em São Paulo, parte das minhas atividades de uma bolsa de iniciação científica, quando vimos pela televisão o trágico acidente na curva Tamburello. Era o Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália. Lembro-me vivamente do acidente e das intercorrências, a todos nervosamente repassados pelos plantões jornalísticos, pois os assuntos e os humores se transmutaram a partir do fato. Ao invés de rirem e falarem de si, de suas tradições, da migração e dos costumes, os açorianos de São Paulo só conversavam sobre a morte do piloto. Minha investigação antropológica se tornou, então, monotemática naquele dia. Meu humor também mudou, algo entre irritado e triste; da hora do almoço ao final da noite, o Brasil entrou em estado de comoção nacional. Do ponto de vista pessoal, a batida do carro de Senna contra a parede de proteção da tal curva matou os sonhos de um jovem telespectador esportivo. Do ponto de vista mais técnico, o acidente gerou uma onda de revisão em anos seguintes sobre questões de segurança na Fórmula 1 (curvas, novas e mais eficazes barreiras de proteção e o próprio cockpit dos carros foram revistos), o que a deixam, na atualidade, muito diferente do que era na época.

A trajetória de Senna no automobilismo era cheia de percalços, assim como era repleta de obstáculos a história socioeconômica e política do Brasil naquele momento. A ascensão de um talentoso piloto culminou com um período de transformações sociais e políticas também de seu (ainda) jovem país. Ser um atleta brasileiro competente e genial no cenário internacional nos anos 1980, num momento em que Brasil era apenas conhecido pelo exotismo (futebol, floresta amazônica, carnaval e mulatas), tornava-se algo diferencial e colocava, evidentemente, a nação e sociedade brasileiras em destaque. Se, de um lado, a economia brasileira preparava-se para um processo de internacionalização que a tornaria visível ao mundo, de outro, Senna se projetava para dentro da história do automobilismo como um piloto brasileiro diferenciado.

Obviamente, essas consonâncias todas repercutiram no cenário interno anos mais tarde: basta identificar a leva de jovens que, inspirados por Senna, almejaram seguir e representar o automobilismo nacional. Foi patente sua influência em relação a uma legião de pilotos, como Rubens Barrichello, Felipe Massa, Pedro Paulo Diniz, Ricardo Zonta, Felipe Nasr, e o próprio sobrinho, Bruno Senna, entre tantos outros.

Lápide de Ayrton Senna (1960-1994). Foto: Stephen Mitchell.

Na história do esporte, no entanto, há uma ideia comum de que o Brasil estava “apagado” em termos esportivos na década de 1980. Tal noção vem exatamente de uma referência baseada no futebol: o último título mundial havia sido em 1970, na Copa do Mundo de Futebol Masculino do México, e, além disso, havíamos sofrido uma derrota fatal na final na versão seguinte da competição, em 1982. Entretanto, ampliando-se o campo de visão para outras modalidades, a década de 1980 pode ser considerada extremamente produtiva. E a Fórmula 1 pode comprovar esse argumento.

Para nós, brasileiros, o esporte-destaque do período foi, definitivamente, a Fórmula 1, pois tivemos alguns fatos marcantes relativos a ela. A título de exemplo, o Brasil figurou quatro vezes como vencedor dos mundiais da modalidade, sendo três dessas com Nelson Piquet (nos anos de 1981, 1983 e 1987) e uma com Ayrton Senna (em 1988). Além disso, Emerson Fittipaldi venceu as 500 milhas de Indianápolis em 1989, clássica corrida da Fórmula Indy/CART (Championship Auto Racing Teams). Tais fatos, portanto, não apenas conferem uma visibilidade internacional ao Brasil em termos esportivos no automobilismo, como também fornecem a base sobre qual o país passa a ser visto como local fértil de aparecimento de talentos esportivos.

Sobre Ayrton Senna, pode-se dizer que, com seu jeito tímido e, ao mesmo tempo, arrojado, abriu caminhos por onde quer que passou, conquistando adoradores e defensores, bem como rivais e inimigos. Isso é facilmente constatável por seus trânsitos e pelos relacionamentos (pessoais e profissionais) que construiu, os quais se tornaram de domínio público. Mais do que os pilotos brasileiros antecessores (como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e mesmo Chico Serra), Senna atingiu um status diferenciado, uma vez que era um atleta que desafiava a “arte de pilotar”. O próprio Piquet explicou, no livro de Francisco Santos, Ayrton Senna – Saudades, que do ponto de vista técnico, ambos estavam tão distantes quanto céu e terra. Ao passo que ele era muito técnico e se restringia aos ditames mecânicos do pilotar, Senna desafiava esse enquadramento, privilegiando os aspectos criativos, impensáveis e imponderáveis no manejo do carro de corrida.

mclaren
Senna pilotando sua McLaren. Foto: Iwao.

 

Nesse sentido, Senna foi se consagrando como um “gênio” do automobilismo internacional, um grande piloto de Fórmula 1, muito semelhante a outros/as atletas brilhantes na história do esporte que obtiveram amplo reconhecimento: como Pelé e Maradona no futebol, Steffi Graf no tênis, Cassius Clay Jr. (Muhammad Ali) no boxe, Maria Lenk na natação, Nadia Comaneci na ginástica artística, ou mesmo no automobilismo, Niki Lauda ou James Hunt, que figuraram nas pistas décadas antes.

A Fórmula 1, por sua vez, ganhou amplo destaque no Brasil a partir da figura carismática de Senna. Fittipaldi pode ter tido sua brilhante trajetória de bicampeão ou Piquet pode ter sido igualmente tricampeão mundial se comparado a ele; porém, nenhum deles mobilizou tantos afetos quanto esse último. De meu ponto de vista, Senna foi um mobilizador de afetos por onde passou e se construiu dessa forma como pessoa e piloto. Não se pode desconsiderar que houve também uma construção midiática sobre sua imagem, principalmente a partir dos apelos nacionalistas das narrações de Galvão Bueno, locutor esportivo da rede Globo, ou ainda por meio da “carga” de heroísmo imputada ao piloto. Ele era enérgico, intempestivo, muitas vezes impulsivo, mas gentil e educado, além de se expressar sempre de forma pausada e comedida. E a mídia se aproveitava muito bem disso. Podia-se notar tais características nas entrevistas coletivas em que falava ou mesmo em seus posicionamentos contundentes frente às equipes de trabalho nos bastidores da Fórmula 1 (nesse aspecto é interessante o trecho retratado no filme-documentário Senna, de Asif Kapadia, do momento em que Ayrton discute a mudança de regras no campeonato com dirigentes da modalidade).

Dessa forma, e passando pelo período em que Senna conquistou seus três títulos mundiais (1988, 1991 e 1993) e figurou com destaque no automobilismo nacional e internacional (algo que se estende, basicamente, de 1984 e 1994), houve uma grande mobilização da mídia em torno de sua figura. Senna foi transformado na “bola da vez” e projetado ao lugar de estrela. E ele “casava” bem com essa imagem produzida: era bom atleta (pois ganhava corridas, era competitivo e competente), orgulhava-se de ser brasileiro (a maior prova era sempre a bandeira do país em suas mãos nos momentos de vitória), identificava-se (aparentemente) como heterossexual, tendo sempre lindas mulheres ao lado, era branco e inúmeras vezes se referia a Deus e à espiritualidade. Ou seja, tudo o que a televisão almejava vender. Nada nele destoava de um “produto perfeito” para a mídia brasileira.

Assim, a figura do Senna foi sendo erigida e lapidada ao gosto das massas! Houve uma verdadeira construção do “herói nacional”. O resultado espantoso desse processo e seu clímax absoluto foi ver a comoção popular demonstrada em seu enterro, naqueles cambaleantes dias iniciais de maio de 1994. Guardadas as devidas proporções, a mídia ofereceu, a uma população maltratada por mazelas sociais e pela situação econômica instável, os espetáculos da Fórmula 1 aos domingos, realizados pela exímia habilidade de Senna, mas muito mais orquestrados do locutor global e pelas tomadas das câmeras filmadoras nos autódromos. Na construção de sua figura pública, Senna definitivamente não estava sozinho no controle geral dos mecanismos de poder que o envolviam.

Em 2017 Senna completaria 57 anos. Se vivesse mais alguns anos (talvez até hoje), arrisco dizer que conheceríamos outro Ayrton, bem diferente daquele que conhecemos. Certamente não mais atleta e talvez fazendo coisas outras que não comentários esportivos para canais pagos. Não importa se construída ou não, a sua imagem de ídolo ainda me afeta, fazendo brotar da memória ondas de inspiração, que uso para a vida (e para a profissão). Se as manhãs de domingo de Fórmula 1 nunca mais foram as mesmas, também sei que, entre memória e história, Senna ocupa a pole position das considerações – das minhas e, certamente, das de seus/suas fãs.

Seja um dos 25 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Entre memória e história: mais de duas décadas sem Ayrton Senna. Ludopédio, São Paulo, v. 94, n. 35, 2017.
Leia também:
  • 94.24

    Inimigos públicos

    Marcos Teixeira
  • 94.32

    As questões atitudinais em uma competição de futsal: relato de uma intervenção

    Maurício Mendes Belmonte, Bruno Martins Ferreira, Osmar Moreira de Souza Júnior, Ana Cláudia Bianconi, Glauco Nunes Souto Ramos
  • 94.31

    Hoje, Libertad, o terreiro é do Galo

    Gustavo Cerqueira Guimarães