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Entre o nacional e o local no futebol conhecido como brasileiro

Em janeiro de 2014, uma das manchetes que estampavam o site do jornal Folha de S. Paulo afirmava que o presidente do Flamengo na época, Eduardo Bandeira de Mello, manifestava o desejo do clube carioca de disputar a Copa do Nordeste[1]. A competição, criada em 1994, já teve 19 edições e, desde 2013 passou a ser disputada anualmente, retornando ao calendário do futebol brasileiro e sendo organizada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A arrecadação com os estádios que costumam ficar cheios durante o torneio regional e as cotas de participação, que naquele ano de 2014 chegaram a R$ 350 mil[2] pelos seis jogos da primeira fase, interessaram ao clube carioca. Entretanto, o posicionamento do dirigente acabou gerando polêmica, já que o Nordestão, como também é conhecida a Copa do Nordeste, é voltado para times dos nove estados que compõem a região. Uma das justificativas de Mello para o interesse se devia ao fato de o Flamengo ser “um clube nacional” e ter “disparadamente a maior torcida do país”, inclusive, “mais torcedor fora do que dentro do Rio de Janeiro”.

O enunciado “time nacional”, repetido tantas vezes por dirigentes, pela mídia e pelos torcedores, em geral, sempre voltado para equipes do Sudeste, entre elas o próprio Flamengo, revela que se construiu no imaginário popular brasileiro uma diferenciação entre o que é regional ou local, e o que é nacional. Mas por que o Flamengo ou Corinthians, entre outras equipes cariocas e paulistas, são considerados times nacionais e o Botafogo-PB, Sport, Ceará, por exemplo, são times nordestinos ou times locais?

Isto ocorre porque, a concepção de nacional perpassa por uma questão de relações de poder, revelando uma condição de hegemonia e subalternidade do Sudeste sobre o Nordeste.

A história do futebol no Brasil demarca as relações de hegemonia e subalternidade, mostra a divisão do país em centro e em periferia e define o que é considerado nacional e o que não é. Portanto, se os times do eixo têm maior torcida que os times locais, significa que a hegemonia centrada no Rio de Janeiro e São Paulo também se revela no futebol e está fundada em relações socioeconômicas, políticas e culturais, que se articulam e dão suporte a ela. Inclusive, quanto a percepção de que algo para ser considerado nacional precisa ser proveniente do centro-sul, e neste caso mais preciso, ao eixo Rio-São Paulo.

Copa do Nordeste
A taça da Copa do Nordeste. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Como já foi debatido em artigo anterior, “Misto e anti-misto”: um sintoma das desigualdades regionais no torcer do Nordeste, desde o início dos campeonatos de futebol no país, não houve contestação das demais localidades de que o eixo Rio-São Paulo fosse o centro do futebol brasileiro.

Por exemplo, até 1959, não havia um campeonato nacional, apenas campeonatos estaduais – que existem até hoje e, que por muito tempo, esses campeonatos tinham mais influência que os interestaduais –, desse modo, cada estado brasileiro tinha seus campeões. O mais próximo de uma competição interestadual era o Torneio Rio-São Paulo.

Então, em 1959, foi criada a Taça Brasil por conta da “necessidade de indicar o representante do país na Taça Libertadores da América, criada para ser a maior competição do continente” (SANTOS, 2012, p. 34).

Diante de tal quadro, a criação da Taça Brasil, que reuniria todos os campeões estaduais (e alguns vices), foi a solução encontrada pela CBD[3]. Como base, utilizou-se a organização dos tempos do Campeonato Brasileiro de Seleções, ou seja, dividiu-se o país em duas grandes chaves (Norte /Nordeste e Centro/Sul) e, após os jogos eliminatórios de ida e volta, os times paulistas e cariocas entrariam já na fase de semifinais (SANTOS, 2012, p. 35).

Os moldes da Taça Brasil já demonstrariam, desde o seu início, o favorecimento aos times do eixo, que, ao contrário de participarem igualmente de toda competição, tinham a vantagem de disputar menos jogos e se classificarem para fases avançadas, o que os deixavam muito mais próximos das conquistas. Entretanto, apesar dessa vantagem, o vencedor do primeiro torneio foi o Bahia. Um dos fatores apontados por Daniel de Araújo dos Santos (2012) foi a falta de interesse dos clubes do eixo de se dedicarem ao torneio recém-criado, inclusive pela importância dada aos torneios estaduais na época.

O Bahia conseguiu ganhar do Vasco no jogo extra pelo placar mínimo e, enfrentando o Santos na Vila Belmiro, superou os gols de Pelé e Pepe com Biriba e dois gols de Alencar. […] No jogo de volta, realizado no dia trinta de dezembro, o Santos – com gols de Coutinho e Pelé – ganhou diante de quarenta mil pessoas na Fonte Nova. Um jogo extra deveria ser marcado, mas o Santos recusa-se a jogar tal partida na Bahia. O jogo foi remarcado então apenas para março de 1960, exemplificando a falta de datas para o encontro, que não era prioridade naqueles tempos. Após cumprir longa agenda de jogos no exterior e compensá-los realizando jogos extras pelo Campeonato Paulista, o Santos de Pelé encontra-se com o Bahia no Maracanã para o confronto final. Aproveitando-se o cansaço do time santista, o Bahia vence novamente, desta vez por três a um, fechando o placar com gol do artilheiro das finais, o meia Alencar (SANTOS, 2012, p. 35-36).

Regiões como Nordeste, Norte, Centro-Oeste e os chamados interiores do país como um todo, os quais não são considerados os centros de poder, sofrem os efeitos de um país de capitalismo periférico de forma mais intensa e isso atinge diferentes áreas, entre elas, o futebol, que é alvo de diferenciação quanto ao que é nacional ou não.

É importante destacar que o futebol brasileiro tem em sua gênese, aspectos elitistas, autoritários e centralizadores. Fatores que até hoje marcam as desigualdades nos campeonatos nacionais, disparidades no faturamento anual e maior ou menor visibilidade na mídia a depender do clube.

Essa lógica inclusive, é reproduzida nas regiões periféricas do Brasil, onde alguns times ainda são favorecidos pelas condições culturais, políticas e socioeconômicas em detrimento de outros. É preciso romper com o modelo centro-periferia, de forma a construir uma disputa igualitária, buscando equilibrar o futebol e extinguir as diferenciações entre clubes. Afinal, se o futebol brasileiro por que ele se recusa a chamar o meu time de nacional?


[1] Matéria veiculada na Folha de São Paulo em 2014.

[2] Hoje, esse valor nem se aproxima da arrecadação anual do Flamengo que está na casa de um bilhão de reais. 

[3] Confederação Brasileira de Desportos, entidade de organização do futebol nacional e que é anterior à CBF.

Referências bibliográficas

Flamengo alcança faturamento recorde em 2021 com mais de R$ 1 bilhão; veja os números completos. Disponível em: <https://www.lance.com.br/flamengo/flamengo-alcanca-faturamento-recorde-em-2021-veja-os-numeros.html>. Acesso em: 13 jul. 2022.

Flamengo quer jogar Copa do Nordeste, diz presidente. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2014/01/1400724-flamengo-quer-jogar-copa-do-nordeste-diz-presidente.shtml>. Acesso em: 13 jul. 2022.

SANTOS, Daniel de Araújo dos. Futebol e política: a criação do campeonato nacional de clubes de futebol. Dissertação de mestrado CPDOC/FGV, 2012.

WANDERLEY, Hévilla. “Misto e anti-misto”: um sintoma das desigualdades regionais no torcer do Nordeste. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 41, 2021.

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Como citar

WANDERLEY, Hevilla. Entre o nacional e o local no futebol conhecido como brasileiro. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 16, 2022.
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