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Entre resgates e avanços – o futebol de mulheres nos âmbitos institucionais e de pesquisas autônomas

Luciane de Castro 14 de junho de 2021

Tempos estranhos, tempos bicudos: assim se resumem os anos de 2020 e 2021. E no gancho do bizarro vem o extraordinário. Mas há uma série de “antes de” para que este (e)feito se dê.

Antes de 2015, a movimentação em torno do futebol de mulheres era tímida, digamos assim. Raros seguiam trilhando o inoperável e nada remunerável ‘futebol feminino’. Seguiam, os inabaláveis, na base do voluntariado, do perrengue e, inevitavelmente, do desânimo constante.

Esta escriba já falava e defendia o futebol de mulheres para o/no Museu do Futebol e havia dentro da instituição uma equipe de mulheres potentes e fundamentais para a transformação da modalidade de 2015 até os dias atuais. Sim, ainda que os independentes/autônomos e ignorados pelo mainstream tivessem grande responsabilidade sobre as mudanças que viriam, nada como uma voz institucional para ampliar essas vozes.

O Museu do (de todos os futebóis, saliente-se) Futebol ancorava a mudança através de ações e primordialmente através do #VisibilidadeParaOFutebolFeminino que agregou outras vozes e projetos, todos eles capazes de ajudar na evolução.

Visibilidade para o futebol feminino

O projeto Visibilidade para o Futebol Feminino não só inseriu as mulheres do futebol nos ambientes do Museu do Futebol como também, a partir de então, passou a operar para que todos os sujeitos do esporte fossem e se sentissem representados e acolhidos. A várzea, o callejero, a comunidade LGBTQIA+, Encontro Nacional das Mulheres de Arquibancada com muitas fardas representadas. E peço perdão de modo antecipado se a memória não alcança outras ações, mas não posso me permitir divagações. E elas pululam agora.

Bem, acontece que o Museu foi esse agente propagador e a luta ganhou reforços. E desde então ampliaram-se as pesquisas, os trabalhos de conclusão de curso, o interesse em acompanhar e também trabalhar com a modalidade. Uma infinidade de temas transversais ou diretos rechearam os espaços, as narrativas, outras instituições, revistas, jornais, tevê aberta ou não e espaços de decisões, como a Federação Paulista de Futebol que – finalmente – deixou para quem viveu o futebol, a responsabilidade de promover e organizar o que era tratado como segunda classe, desinteressante e improfícuo.

Ah, caríssimas e caríssimos! Eu poderia dedicar ao menos meia dúzia de páginas apenas para expressar em interjeições ou até mesmo em emojis e stickers (para acompanhar a modernidade das comunicações) toda a sorte de significados que esta “pequena” mudança de ares organizacionais surtiu no ambiente das competições futebolísticas femininas.

Mas, vá lá a quantidade de caracteres e a responsa de traduzir um espaço-tempo tão sortido de fatos. Pego o atalho como num buraco de minhoca deixando três tags imprescindíveis aos curiosos. Afinal é para isso que cedemos muitos dados ao Google: Aline Pellegrino – Futebol Feminino – Competições de Futebol Feminino.

Aline Pellegrino
Aline Pellegrino é coordenadora de Competições Femininas. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Dê um check e comprove.

Como tenho dito ultimamente, e sendo honesta, pensado melhor a respeito, sucesso não é a substância que se deve buscar, pois há um quê de sedução e, consequentemente, ilusão que acompanha o “sucesso”. Histórias mal terminadas estão aí para provar. O sucesso é deveras problemático, ora! O que se deve perseguir e embasar a vida, é o progresso. Aquela palavra estampada em nossa bandeira que nos foi furtada em nome de um projeto de destruição completa do país.

Noves fora, se de um lado a administração do Brasil berra a incompetência e a ausência completa de sanidade, o futebol de mulheres nas mãos de mulheres, caminha muito bem, OBRIGADA!
E não é só isso! Temos muitas horas dedicadas à pesquisa, à produção acadêmica, debates e produção de conteúdo.

Enquanto a modalidade avança nas entidades responsáveis pela organização do futebol, como Federação Paulista – mais localmente, e CBF, há grupos focados em revirar as páginas do passado em busca de nomes que o tempo insiste em esconder. 

Da vontade de instrumentalizar pós atletas quanto às questões de gênero e feminismo, surgiu o GEMFGrupo de Estudos Mulheres do Futebol, brilhantemente capitaneado pela professora e pesquisadora da UFRGS, Silvana Goellner e pela ex-capitã da seleção e medalhista de prata em Atenas/2004, Juliana Cabral. O GEMF ainda conta com as pós atletas Marcia Tafarel, Leda Maria Abreu, Thaís Picarte e Dilma Mendes.

O que era para ser um pequeno e restrito grupo se transformou num potente e importante articulador com as mulheres pioneiras do nosso futebol e um arrasador produtor de conteúdo hoje abrigado pelo Ludopédio.

 
 
 
 
 
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Ora, não há trajeto para o futuro sem um olhar criterioso e investigativo do passado. Claro que neste instante estamos ancorados numa espécie perversa de versão mal e porcamente (des)atualizada de filme B tendendo ao Z quando olhamos para o quadro político/econômico/social do país.

Este é o fruto (maldito seja!) da ausência total de senso crítico e alfabetização adequada de boa parte da população que abandonou de vez (se é que um dia teve posse) o circuito da história brasileira e dá ciência às obscenidades repetidas por incompetentes e falsos moralistas.

Só que…AQUI NÃO!
Aqui analisamos as condicionantes, os ciclos e os círculos viciosos da história para não adorar mitos ou cavalgar planetas planos. A ponte para o futuro se faz olhando atentamente para o passado para deixar no passado quem tem potencial para limar com requintes de crueldade vários futuros.

De modo assertivo seguem as mulheres do futebol remando ritmado contra a correnteza da má fé, mau-caratismo e atraso.

De um lado exaltando àquelas mulheres a quem a modalidade na atualidade deve muito e as trazendo para as luzes necessárias do reconhecimento e, de outro, ocupando os espaços de decisão da instituição que se denomina “dona” do futebol brasileiro, adequando uniforme, competições, premiações, diárias e envolvendo as pioneiras em ações atuais junto às seleções.

Não para e nem vai parar por aí.

Em um momento em que – mais – um presidente da CBF é afastado com graves denúncias de atos criminosos, ineditamente a seleção feminina principal se posiciona em campo.
ASSÉDIO NÃO!

Assédio não!
Foto: Richard Callis/SPP/CBF

Pode parecer pouco ou ineficiente, mas as palavras dialogam diretamente com a situação do presidente afastado. Curiosamente, Caboclo é o homem à frente da CBF que mais se mostrou aliado às mulheres dentro da entidade e favoreceu, de certo modo, seu fortalecimento.

Vamos de ÓBVIO ULULANTE?
SIM!
Óbvio ululante que não é um favor.
Óbvio ululante que a ideia é sempre se descolar do movimento reacionário e misógino amplamente adotado por aquele a quem não devemos citar (só, e somente só, porque o algoritmo não tem lado e só lê números e isso a gente aqui deste lado já devia ter sacado e atuado para evitar).
Óbvio ululante que NUNCA É CONCESSÃO, SEMPRE É LUTA, e Aline Pellegrino e Duda Luizelle, como atletas que foram, conhecem muito bem os meandros dos ambientes futebolísticos ardilosamente respaldados pelo patriarcado.
Óbvio ululante que não aceitaremos que nos seja estendida a ponte para o passado ao passo que uma parte da população chafurda feliz na lama do retrocesso. Esta construção fadada ao desmoronamento não nos apraz.

Do passado só nos interessa reverenciar as mulheres que enfrentaram toda sorte de obstáculos para gravar seus potentes nomes e dar-lhes o que é de merecimento: LUZES!
Do futuro esperamos o progresso para todas. Esperamos não no sentido de quimera, porquanto a certeza da construção coletiva e profundamente embasada nos fortalece no dia a dia de nossos afetos.

Peço licença a Quintana, mas só assim se fecha este texto:
“Eles passarão. Nós, passarinho.”

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Lu Castro

Jornalista especializada em futebol feminino. É colaboradora do Portal Vermelho e é parceira do Sesc na produção de cultura esportiva.

Como citar

CASTRO, Luciane de. Entre resgates e avanços – o futebol de mulheres nos âmbitos institucionais e de pesquisas autônomas. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 25, 2021.
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