Me encontrei faz uns dias…

Sem divã, nem analista. Me encontrei em um daqueles diários de folhas coloridas, com cheirinho de coisa velha misturada com xarope de tutti-frutti.

Em uma das folhas coloridas encontrei um ingresso da partida entre Chapecoense x Internacional, em 2008.

Vocês precisam entender que esse foi meu primeiro jogo grande. Tão grande que teve espaço em folha especial no meu diário.

Minha comida preferida sempre foi o frango assado que vendia na lanchonete Santa Rita. No dia da partida tinha frango de almoço, mas para chegar cedo ao estádio eu decidi não comer.

Era realmente importante chegar cedo. Ou almoçava, ou chegava cedo para pegar um lugar bom.

Quem conheceu o antigo Estádio Índio Condá sabe, não existiram muitos bons lugares lá. Eu sei disso porque, com vasto conhecimento em bons lugares, constatei a existência de apenas dois: meu ingresso não dava acesso ao primeiro deles, a área coberta; lugar mais caro do que eu poderia pagar, mas muito especial porque vendia o cachorro-quente do Janga, antigo jogador do time. O Janga Dog sempre foi o ponto alto de todo ritual de ir ao estádio, mas precisava esperar acabar o jogo para entrar nesse espaço.

Toda criança que acompanhou o pai em dia de jogo sabe da importância do cachorro-quente na cerimônia de ir ao estádio. Aquele molho do cachorro-quente escorrendo na camisetinha comprada no camelô, a boca suja com a mostarda de marca duvidosa… Nada poderia ser mais especial que isso!

Arena Condá
Vista panorâmica da Arena Condá. Fonte: Wikipédia

Já o segundo melhor lugar do Índio Condá era o recinto de velhinhos, que chamavam de coréia e eu nunca entendi o motivo disso, mas nunca fiz  muita questão. Para mim era mágico estar em lugar chamado coréia. A visão era péssima, mas compensava ouvir os absurdos que pareciam ser decorados por aqueles senhores, que sempre portavam um rádio tamanho caixote de abelha, para não perder a narração dos lances. Lembro como se fosse hoje, o dia em que um grupo se reuniu na missão de desconcentrar o goleiro Martini (ex-jogador do Avaí): – Martini, tu não tem amigo no Orkut.

A gente não gostava mesmo do Martini e nem do Avaí, nada que era da capital nos interessava. Ele mereceu a ofensa.

Voltando ao dia da partida…

Saí de casa com dor no coração e um buraco no estômago. Deixei o frango cheiroso e brilhoso do Santa Rita para trás, na esperança do meu primeiro GRANDE jogo compensar. Cheguei na coréia – do estádio!

Não compensou.

Não gosto de pensar no placar, pois lembro de ficar triste com a derrota do meu time. Eu havia trocado meu ovo de páscoa por esse ingresso.

Era a segunda tristeza envolvendo meus alimentos preferidos em um só dia… Maldito futebol…

Esperei o estádio acalmar. Esperei as pessoas irem embora…

Corri muito, mas muito mesmo, em tempo de entrar na área coberta e comprar um dogão.

Deixei o molho cair na minha camiseta comprada no camelô, sem nem ao menos me importar com a bronca que iria levar da minha mãe mais tarde.

Olhando praquele diário me encontrei, ao lembrar de tudo isso e ao rememorar minha segunda grande constatação enquanto torcedora da Chapecoense…

Não existe partida ruim, ou jogo perdido, que não possa ser curado com um cachorro-quente do Janga!

Seja um dos 12 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Como citar

MORO, Eduarda. Entre torcer e comer cachorro-quente. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 27, 2022.
Leia também:
  • 158.34

    Minha nação é o meu clube: como a rivalidade no futebol pode ser maior do que o nacionalismo

    Pâmela Camargo Soares
  • 158.33

    Me dá a mão

    Cláudia Samuel Kessler
  • 158.32

    Novas perspectivas sobre o Museu Brasileiro do Futebol

    Anderton Taynan Rocha Fonseca, Stephanie de Oliveira Souza